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Saturday, March 05, 2011

um retrato a uma estrangeira

eu moro num país onde as pessoas morrem
de fome
de tiro à queima-roupa
de amores e ciúme
de acidente de trânsito

nunca ninguém morreu de fome nos meus braços.

soube de quem morreu depois de jogar futebol;
antes de nascer;
vi quem morreu de desistência do corpo
e de surpresa, também
vi quem morreu despencando
e vi corpos bonitos de mortos serenos

eu vi quem nasceu cabeluda do ventre da viúva
e quem renasceu encovada de força antes dos trinta

eu li cantos sobre cabelos de suicidas no rio,
esculachos quaisquer de poetas sobre o verdejar desses fios
mas antes disso

eu fui à missa de sétimo dia de uma suicida
que me sorria sempre quando confidenciávamos amores errados
e ainda antes disso

eu perdi a voz em batalhas esganiçadas

e me amarraram por qualquer descrença e me deturparam
a voz e a força e o delinear
e então sem me dar conta

eu passei a freqüentar igrejas e velórios
a sorrir mais, conversar com anjos
e ler notícias no jornal sobre gente na rua
com fome
com sangue e com morte
insistências fronteiriças
nos nossos países.

Sunday, April 11, 2010

por acaso

ele usava uma máscara branca e preta e vestia suspensórios, o que, junto com seu andar e meneios de cabeça que eu logo supus característicos, confiavam-lhe um ar algo entre o kitsch e o blasé. nada mal para um bloco numa cidade tão provinciana, pensei comigo. é claro que não nos beijamos ao som de 'máscara negra'; eu queria muito menos carnaval e mais folhetim. foi no 'ô ô ô ô' de aurora que nossos olhos se encontraram, e antes de qualquer ladainha sobre sinceridade, amanheci enredada em seus braços.

para ler ouvindo: 'folhetim', de chico buarque.

Wednesday, March 04, 2009

Tem mais samba no encontro que na espera

E quando a memória encrustrada no corpo oscila entre a tonelada sobre os ombros e a leveza do sambar? Acontece o campo de visão ampliado, sensibilidade à flor da pele, mente desanuviada no embalo da harmonia, o corpo cedendo à marcação mais grave. Na reciprocidade que o tempo apresenta aos sedentos de encontro, o samba é anfitrião.

tem mais samba no encontro que na espera,
tem mais samba a maldade que a ferida
tem mais samba no porto que na vela
tem mais samba o perdão que a despedida
tem mais samba nas mãos do que nos olhos
tem mais samba no chão do que na lua
tem mais samba no homem que trabalha
tem mais samba no som que vem da rua
tem mais samba no peito de quem chora
tem mais samba no pranto de quem vê
que o bom samba não tem lugar nem hora
o coração de fora
samba sem querer

vem que passa
teu sofrer,
se todo mundo sambasse,
seria tão fácil viver


Vinicius de Moraes, Tem mais samba.

Wednesday, February 13, 2008

Carnavália

A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão, desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.
Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.

A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.

Brancos, negros e mulatos. Pobres, ricos, classe média. É clichê dizer que o Carnaval é a festa nacional, que une todo mundo. Mas é assim, e então parece que a vida é um pouco clichê, também. Constatei isso aqui em Recife.

Diferentemente dos times de futebol (o Sport de maior torcida, de classe média; o elitista Náutico e o popular - indo na raiz do termo - Santa Cruz), fanatismo de recifenses como, talvez (novamente clichê constatado) da maioria dos brasileiros, os blocos que desfilam e fazem a festa e a história no Recife não são segmentados por estrato ou classe social.

Na festa de abertura, o prefeito é "vaiado só pelos ricos. Eu aplaudo mesmo", me grita no ouvido a Marina, moradora de periferia e amiga de minha grande amiga Aline (em cuja casa de família estou me hospedando e sendo super bem acolhida). Quando pergunto se a prefeitura é boa, ela é assertiva: "Os dois mandatos de João Paulo fizeram foi melhorar muito Recife". E de qual partido ele é? Do PT.

Depois de palanque, o palco acolhe todos os santos e muito batuque, e me vejo no meio de uma ciranda colorida que "só faz aumentar" e preenuncia a alegria, os sorrisos, a expansão e o frevo da cabeça ao pé que percorrem e marcam todo o Carnaval daqui. Elza Soares e Marisa Monte também abençoam os foliões, com direito inclusive a homenagear Chico Science.

O maracatu, ao lado do frevo, é um dos ritmos dominantes. Tambores, cores, chapéus preenchem Olinda, e quando olho para cima, os bonecos gigantes assumem contornos nítidos no céu azul, azul. Lembro-me das histórias, das tradições, e me sinto preenchida e acolhida, fazendo parte de tudo aquilo e tudo isso. No lugar certo, na hora certa - e na embriaguez do frevo. Abençoado por todos os santos, todos os olhos e todas as cores.