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Friday, August 24, 2012

comoção durante uma assembleia


fiquei tomado. a senhora parece muito a falecida da senhora minha mãe, deus a tenha, esses olhos, lá na bahia, nossa senhora, fiquei arrepiado. o que é que eu dizia? que nossa mentora é nossa cabeça. nós vamos com nossos pés pra onde nossa cabeça destina. eu sei o que é o sofrimento de cada um de vocês. e eu vou estar junto com cada um de vocês, se vocês estiverem junto comigo, junto com o movimento, lutando também pelo seu companheiro. eu me sinto bem quando posso fazer alguém feliz. obrigada pelo presente, matei, matei sim um pouquinho da saudade da minha mãe, quantos anos, meu deus, obrigado.

Tuesday, April 24, 2012

sobre linhas I


peço-te que imagine uma linha.
imagine o diâmetro exato de seu fio
e se existe ou não um buraco possível de agulha para se fazer travessia.

imagine sua cor, nuançada entre um tom de céu ou areia
ou talvez nenhum desses mas aproximadas cores de lembrança
ou precisas e irresolutas, inelutáveis cores de sonho
quando num continuum diálogo de vigília e só se sabe sonho porque
não sentes dor
o absurdo denuncia
o despertar deixa a dúvida e portanto: sonho

peço-te que então imagine de que é feita essa linha.
se do mais comum material encontrado na natureza
encapsulado e doravante produzido
em fábricas por homens comuns
em vilas por eco-propostas
e consumido como requinte;
se de um raro material;
quão denso;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se num emendo artesanal;
mais ou menos longo;
se sob intervenção infantil multicolorida e dura (pintada com guache) [e esgarçada (do contato com as unhas);
quão maleável.

não me diga nada dessa linha e não a tente reproduzir.
essa linha é o que te é e não me é possível compreendê-la ou imaginá-[la.

podemos, contudo, tomar aulas de arte
e aprender teorias contemporâneas e estudar produções de [assemblage
estudar construção de esgoto e sustentação de casa (é claro que a [linha pode vingar)
enforcar um inimigo
dançar melodias e bater palmas ritmadas
saltar do ônibus no ponto errado
suar a camisa ao passar por alfândegas
cozinhar massas acompanhadas de peixe fresco
colecionar rótulos de importados e pedras não-lapidadas
arriscar um lançamento de pedra e receber bombas que nos fazem [correr
tirar roupas do varal
tamborilar na espera

e fazer, no descanso, ponto-cruz.

Tuesday, December 14, 2010

bicicleta

a bicicleta é a brincadeira mais libertadora. claro, quando seguidas as regras de como deve ser. não pode ter aquelas rodinhas, aquilo é pior que ensaio. andar de bicicleta é mais que improviso. tudo bem, tudo bem, ninguém nasce sabendo improvisar. o improviso só é bom depois de corpo e alma em exato equilíbrio entre condicionamento e liberdade. e não é ensaio que proporciona isso, não: é mergulhar, se empantanar em experiência. e é por isso (eu sei) que tem muito adulto bicicletador por aí. mas não basta vontade, não. tem que abrir, rasgar o coração.

Sunday, November 28, 2010

memórias, as futuras XXVII

a cidade do meu coração tem rios que chegam caudalosos e, lamacentos que se tornam, perdem o movimento. O empantanamento não sei dizer por donde ocorre; talvez por adensamentos acompanhados (é a tendência) de inação. inação quer pelo encanto, quer pelo sufocamento. mas arrisco dizer: tal empantanamento não é mais que circunstancial. acontece conforme as acontecenças - habitantes do meu coração - são nomeados. sim, nesse vai-e-vem:
1- quando os acontecimentos (as acontecenças, prefiro) sabem-se povo da cidade do meu coração e
2- quando a eles dá-se nomes não-inventados, em tentativa (e sob argumento) de comunicação. (porque os adensamentos são agora feitos de gesso)

mas felizmente tem-se que: o membro engessado coça, exige atenção. o percurso pode ser árduo para recuperação do vigor, do viço, da forma. exaurido em disciplina, o coração se orgulha quando de novo se movimenta!

- [isso deve ter efeito de travessão, entre linhas]

mas logo e de novo vêm os nomes e lá vamos tornar pântano novamente o membro-rio então agitado. como romper com esse ciclo vicioso? abster-se de nomear não adianta (há de se prezar pela comunicação). tampouco mudar os nomes (é trocar seis por meia-dúzia). não há como quebrar o ciclo?

Thursday, November 04, 2010

corazón

tirei o relógio de parede que ficava na sala de casa. dependurei, tirei as pilhas e o abandonei em cima da pilha de revistas (intocadas há semanas). podia ser o seu cheiro, ou outro, tanto faz, que o tic-tac do relógio me trouxesse. mas não traz mais nada. como pode um objeto ter ou não ter história, aflorar-nos tanto na memória? tirei também o pó de um ou dois dias acumulado nos santos que circundavam meu cantinho espiritual. suspirei, sim, não tem como abrir o coração sem suspirar. às vezes abre-se sem sequer a intenção de vasculhar, mas os suspiros afloram e se fosse diagnosticar eu diria: cardiopatia grave, porque o coração retumba e ecoa, e a respiração muda (arfante ou contida, passa-se a percebê-la, e respiração é dessas coisas que quando se percebe é porque chama a atenção, e se chama atenção é porque algo de extraordinário há, e se é extraordinário pode bem ser errado, e aí nos preocupamos, quando é com alguém querido, e suspiramos, quando é dentro da gente, mesmo, porque o suspiro é o diagnóstico que o próprio coração dá à cardiopatia). virei-me, abri as cortinas, não teve brisa a brindar-me: é verão neste hemisfério, e as noites cada vez mais densas.

Saturday, September 25, 2010

domingo

vem cá,
me diz seu amor
em silêncio de pescaria.

Tuesday, August 10, 2010

uma breve história de amores (ou: tempo da delicadeza)

houve um tempo em que eu partia. quase todos os dias, quase sempre à mesma hora, deixava aquele reino tão íntimo e tão compartilhado, para me reinserir no outro cotidiano, igualmente real, que continha tantos sonhos quanto o outro, e assustava um pouco menos.

depois ousei ficar. por uma ou outra hora a mais, desafiar a rotina traçada. varar alguns dias, perder alguma noção do tempo.

foram alguns, esses tempos de ousar ficar. e foram vários os ficares ousados. distintos entre si, sempre repletos de significados (até na ausência de sentido, quando era o desafio do susto do absurdo que eu buscava).

sucedeu-se que agora havia o tempo da dança. da harmonia entre o ficar e o partir. até que... da harmonia fez-se a síncope. e não é a síncope que faz o samba? a dança se encheu de retumbares.

e do meu coração em arritmia, como na falta de ar imediata, faço suspender, até segunda ordem, os toques que enchem d'água atrás dos olhos.
suspendo o sorriso que jogo pro céu quando você me diz amores com seus olhos depois que me beija. fica em suspensão minha entrega. suspensão de suspiro, na calma da memória e do coração.

Friday, April 02, 2010

de livros, chuva e encontros

ontem estava na sala dos professores da escola onde funciona o cursinho popular do qual participo e, entre uma aula e outra, folheei um livro de roland barthes, 'o rumor da língua'. o livro é uma coletânea de pequenos artigos, e cheguei a ele através da indicação de uma admirável professora. a idéia era ler um artigo em que ele fala de benveniste, lingüista, para tentar entender um pouco mais do paradigma em que repousa a etnografia de jeanne favret-saada, uma antropóloga em cuja obra estou mergulhada nesses tempos.

mas um dos motivos pelos quais realmente gosto de pegar livros na biblioteca - e não simplesmente tirar xerox de um ou dois artigos ou capítulos selecionados pelo professor, cujas cópias ficam à espera dos estudantes, numa pasta no xerox - é porque folheá-los realmente me é muito prazeroso. folhear um livro é como observar um quadro de diversos ângulos, espreitar a construção - meticulosa ou não - da obra concreta que está em nossas mãos. e eis que, folheando o livro de barthes, caí justamente num artigo em que ele fala da escrita e, mais detidamente, da leitura. de como a leitura é o locus da perda de controle do escritor sobre o leitor. porque a leitura, ou ao menos um tipo de leitura, suscita, por vezes, outros pensamentos em cascata na cabeça do leitor.

e barthes chama essa leitura da leitura 'levantando a cabeça'. desafia: quem nunca leu 'levantando a cabeça'? é a leitura em que nos acometem pensamentos muitos, é a leitura ao mesmo tempo desrespeitosa (o termo é de barthes), pois interrompe o texto a toda hora, e faz conexões possivelmente inimagináveis ao escritor, e fiel, passional, pois é ao próprio texto que o leitor sempre retorna, se nutrindo dele, em movimento de vertigem - aproximação e autonomia (agora os termos são meus).

e li o trecho do ensaio apaixonante e apaixonado (barthes não economiza ao demonstrar seu amor pela literatura) para um amigo meu, também ali, na sala dos professores do cursinho, terminando de preparar sua aula - de redação. li o trecho sobre a leitura 'levantando a cabeça', e ele disse que certa vez ouviu ou leu, de alguém ou em algum lugar, sobre a biografia de hannah arendt.: ela lia 'levantando a cabeça' com freqüencia. dizque ela, durante a leitura, era acometida por intensos fluxos de pensamento e iluminação, e largava-se na cadeira, as costas curvadas para a trás, o pescoço também em curvatura, a cabeça olhando para o céu. e assim permanecia. até resolver empertigar-se na cadeira e escreverescreverescrever.

eu ouvia atenta, e esse meu amigo continuou. disse que, segundo alguma psicologia, fazemos o movimento de olhar para cima quando buscamos clareza sobre abstrações e, para baixo, quando o esforço é dar concretude a essas abstrações. ele fez uma comparação linda: a melancolia ou a introspecção que nos acomete em dias de chuva.

fiquei pensando sobre isso e, hoje, sexta-feira santa, chove. essa lembrança me é muito forte: toda sexta-feira santa chove. aqui em casa não comemos carne, e também não tem bacalhoada - na minha família, a bacalhoada sempre foi aos sábados, porque 'fazer bacalhoada em dia de penitência, reclusão, introspecção, é contradição demais', diz sempre minha mãe, quando nos lembra o motivo de não comer carne: sacrifício. sem esbanjar, sem comemorar, sem efusiva festança, que o sábado de aleluia está aí pra anunciar. pois é, sexta-feira santa. introspecção, recolhimento. e chove. o movimento? a condensação das abstrações, tão densas, tão densas, tão densas, que caem, quer vultosa quer serenamente em direção ao concreto - ou ao coração, se assim preferirem (eu prefiro) - da terra.

e não pára por aí: escorrem e tomam a forma que convém ou a forma possível? as gotas se fundem com o vento (me encanta, desde muito menina, observar os encontros das gotinhas no vidro do carro, o carro em movimento e elas se encontrando, eu ficava na torcida para escorrerem mais lentas, mais rápidas, fundirem-se, se desfundirem); acomodam-se nas superfícies que, num deslize de retidão, recebem a água que vem dos céus; infiltram-se em solos mais ou menos arenosos; percorrem longos caminhos até seu fim provisório: o encontro das águas. porque seu fim último não existe. não há finalidade nem final, e isso a gente aprende desde criança: é tudo ciclo.

Saturday, February 20, 2010

"o que é fome"

com o perdão de uma possível piada, a fome é um tema latente pra mim. desde antes de entrar na faculdade de ciências sociais (que me seduziu no desejo também latente - e que hoje vagueia por caminhos esguios - de 'mudar o mundo'), a existência das pessoas que passavam fome e que morriam de fome me deixa consternada. e nessas cíclicas (e, com licença, latentes) tormentas, despertadas freqüentemente pelo noticiário, o mundo me doía.

mas até hoje nunca estudei sistematicamente 'o problema da fome'. li uma coisa ou outra do josué de castro; me arrependi por não ter cursado uma disciplina eletiva que trataria sobre o assunto... e hoje peguei nas mãos um livrinho de bolso, desses da coleção primeiros passos, da extinta (?) editora brasiliense: "O que é fome", de Ricardo Abramovay, hoje professor de economia na FEA/USP. vou escrever aqui um pouquinho sobre ele, e o assunto continuará.

O livro é curtinho, e dá pra ler muito rápido. Fiquei admirada com o modo como o autor organiza sua argumentação para desmascarar não só o supra-sumo do pensamento hegemônico travestido de senso comum que declara: "os pobres são culpados pela sua própria fome, porque não sabem se alimentar direito", mas também os argumentos cientificíssimos (digo, com respaldo na acadêmia e entre os cientistas da época), bio-geográficos (ou geofísicos?) - de que a alimentação nos trópicos é muito pobre em proteínas, ou, ainda, de que ela pode até ser suficientemente rica em proteínas, mas não atinge o nível mínimo de calorias para que as proteínas possam ser devidamente aproveitadas pelo organismo de cada mulher e de cada homem.

Esse último argumento (o argumento da chamada "fome calórica") corrobora a corrente malthusiana: se as calorias ingeridas não têm sido suficientes, é porque não há alimento suficiente no mundo. Porque o crescimento populacional seria da ordem de uma progressão geométrica (lembrei das aulas da minha querida professora de estatística, alô Verónica! - , de 2 para 4, para 8, para 16, para 32), enquando o desenvolvimento da produção agrícola seguiria um padrão de uma progressão aritmética (de 2 pra 4, para 6, para 8, para 10). Logo, salve-se quem puder!, logo logo não vai mais ter lugar pra todo mundo na Terra - neomalthusianos, meus caros, definam lugar, definam Terra, definam 'há lugar para todos hoje'.

Enfim, a real é que essa corrente de pensamento dominou inclusive as ciências até o começo dos anos 1960, e, bem, como métodos contraceptivos não eram exatamente bem-vindos, a solução era: controle populacional. N'outras palavras: guerra e crise. Porque nessas situações extra-ordinárias as pessoas morriam, e então, por mais paradoxal que isso possa parecer, a sobrevivência da espécie ficava garantida - tão natural quanto a mão invisível do mercado.

Por desencargo de consciência ou por um compromisso político maior com minhas verdades, vou pontuar aqui que o problema da fome não é um problema de produção de alimentos, nem da cultura alimentar de um determinado povo ou grupo social. O buraco é muito mais embaixo: falta distribuição. E não falta distribuição de alimentos por desorganização das autoridades, do Estado, ou do governo, ou por conta dos capatazes do campo que ainda têm suas próprias leis e são os senhores em seus territórios. Tampouco a distribuição é injusta por negligência ou falta de prioridade, nada disso, nada disso. As ações ou os braços cruzados por parte da governança nacional e internacional é interessada. Tem seus motivos por trás. E qual é o interesse maior que orquestra isso tudo? No próximo post vou comentar um texto do Josué de Castro, e aí veremos.

Friday, September 25, 2009

hermann hesse

Tal qual cada flor fenece
e toda juventude cede à idade,
floresce cada patamar da vida.
Toda sabedoria e toda virtude
também florescem a seu tempo
e não devem durar eternamente.
O coração precisa estar, em cada patamar da vida,
predisposto à despedida e a novo início
para, na coragem e sem pesar,
entregar-se a outras novas ligações.
E em todo começo reside uma magia
que nos protege e nos ajuda a viver.
Temos de transpor, dispostos, espaço a espaço,
e a nenhum nos apegar como a uma pátria.
O Espírito Universal não nos quer prender e limitar:
quer erguer-nos degrau a degrau, quer nos ampliar.
Mal nos habituamos a um ambiente,
sentindo-o familiar, ameaça o acomodar-nos.
Só quem esteja pronto a partir e viajar
talvez escape do hábito paralisante.
Talvez ainda a hora da morte
nos envie, jovens, a novos espaços;
o apelo da vida a nós jamais há de findar.
Vamos lá, meu coração: despede-te e convalesce.

Saturday, August 15, 2009

[ensaio - parte 1]

Este ensaio deve se localizar em qualquer lugar entre o drama poético e o jogo político. O que me move é puro interesse: nada além do despertar sensações no extremo positivo diametralmente oposto ao pólo da indiferença. Posso argumentar que o interesse me foi incutido a partir de experiências de vida – genuinamente minhas ou por mim reivindicadas, o que, no fundo, dá no mesmo –, ainda que a concretude da experiência seja transversal, secundária ou mesmo suspensa em momentos alguns – o que, novamente, dá no mesmo. Vou procurar, aqui, levantar algumas questões que me sugerem relações intensas entre si, mas cujas formulações [das relações] me têm sido particularmente difíceis. Este ensaio servirá como um aglutinador desses meus questionamentos, temáticas e problemáticas, como uma junção de anotações esparramadas em cadernos e permeadas por flechinhas e outros desenhos, na dificuldade de elaboração mais clara que permita uma comunicação. Vejamos quão bem-sucedido poderá ser meu intento – considerar-me-ei satisfeita se vislumbrar entendimentos e, no horizonte, futuros frutíferos para as discussões aqui delineadas.

A angústia primeira que me impele a escrever é a tensão entre ação e estrutura, entre o poder desistoricizante do provável e a potência criadora do possível, que esbarra, por sua vez, nos limites da própria história, quando não nos limites da imaginação. Quanto da imaginação é de fato desafiante? Ou, ainda, quanto é possível subverter estruturas a partir de ações, sejam elas individuais ou coletivas? Suspender expectativas é subverter estruturas? É possível subvertê-las individualmente? E em quê consiste essa subversão? No questionar o que se vive? No adquirir autonomia sobre si? Autonomia perante quem, ou o quê? Autonomia de pensamento, de ação? Mas aprendemos que as idéias não caem do céu... A autonomia só poderia ser, portanto, condicionada – o que nos remete novamente a limites: qual é o limite das condições? A questão entre expectativa e coerência no desenrolar de sua própria história individual se mescla com as limitações do livre-arbítrio e a vida em coletividades e sociedade. Por fim, há que se fazer a ressalva de que muitas divisões aqui feitas são metodológicas; no fundo, parece-me no mínimo purista desejar encontrar desejos genuínos, sem influência contextual – quer em níveis pessoais e privados (história de vida de cada um), quer em níveis sociais e históricos.

Há alguns eixos centrais de idéia: política, ação, magia, história. Tentarei começar pelo primeiro. Como se desperta meu interesse em discutir política? A partir de contradições experienciadas, escancaradas, pressupostas, veladas. A partir da aparente aceitação generalizada de injustiças, ou, pior, ao ver, ao meu redor, aceitação – desprovida de angústia – das contradições. A mim, a angústia vem da repetição incessante de mortos de fome no mundo inteiro, ao lado de crescentes avanços científicos na produção de alimentos. Vem da grande mídia, quando se noticiam guerras em termos de perda de ‘recursos humanos e econômicos’ – não necessariamente nessa ordem. Vem acompanhada de revolta quando uma amiga muito querida me relata como foi expulsa de um barzinho, numa sexta-feira à noite, após beijar a namorada. Quando, numa recente visita a uma ocupação do movimento de moradia, uma moradora de um prédio vizinho, de classe média, diz que ‘também tem dó’ daquelas pessoas, mas que elas ‘preferem ficar ali’, não merecem melhorar de vida, porque não batalham pra isso. A angústia é inversamente proporcional ao sucesso da comunicação, e, nesses momentos, tudo o que consigo é silêncio assimétrico, não compartilhado e sequer reconhecido como comunicação suprema.

Monday, August 10, 2009

cantigas de cabaré

o dia é chuvoso, e as pessoas, reclusas.
qual não é sua surpresa quando um amigo telefona; o jantar será acalanto.

Wednesday, June 24, 2009

não esquecer

há a técnica, o pensamento, e as cachoeiras.

Saturday, June 20, 2009

Sêneca

Devemos misturar e alternar a solidão e a comunicação. Aquela nos incutirá o desejo do convívio social, esta, o desejo de nós mesmos; e uma será o remédio da outra: a solidão curará nossa aversão à multidão, a multidão, nosso tédio à solidão.

Sêneca, Sobre a tranqüilidade da alma.

Monday, June 01, 2009

nem vela

ousam dizer 'literatura feminina', ousam dizer do sexo por demais banal, por demais requintado, por demais extravasado por penas duplas, unhas por fazer. acho graça. vou ali ter um orgasmo e já volto, se deus quiser.

Monday, May 18, 2009

As lanças do crepúsculo

Lição de esperança, igualmente, o modo como os Achuar vivenciam a sua identidade coletiva sem se embaraçarem com uma consciência nacional. Ao contrário do movimento histórico e ideológico de emancipação dos povos que, a partir do final do século XVIII na Europa, quis basear as reivindicações de autonomia política apenas no compartilhamento de uma mesma tradição cultural ou lingüística, os Jivaro não concebem sua etnicidade como um catálogo de traços distintivos que dariam substância e eternidade a um destino compartilhado. Sua vida comunitária não se justifica pela língua, pela religião ou pelo passado, nem sequer pela ligação mística com um território encarregado de encarnar todos os valores instituindo sua singularidade. Ela se alimenta de um mesmo modo de vivenciar o vínculo social e a relação com os povos vizinhos, às vezes sangrento, decerto, em sua expressão cotidiana, não pelo banimento do outro na desumanidade, mas por uma consciência aguda de que ele, quer seja amigo ou inimigo, é necessário para a perpetuação do eu. Os Achuar me ofereciam assim a demonstração a contrario de que os nacionalismos étnicos, em toda a eventual barbárie de suas manifestações, são menos uma herança das sociedades pré-modernas do que um efeito de contaminação de antigos modos de organização comunitária pelas modernas doutrinas da hegemonia estatal. O que a história fez ela pode desfazer, prova de que o tribalismo das nações contemporâneas não é uma fatalidade e que a nossa atual maneira de representar a diferença através da exclusão talvez possa algum dia dar lugar a uma sociabilidade mais fraterna. (Descola, As lanças do crepúsculo, 2006, pp. 459-460)

Thursday, April 09, 2009

Nem poeira

Parece-me não haver dúvidas de que o movimento estudantil, na sua atual configuração, e na verdade de imediato, desemboca justamente na tecnocratização da Universidade, a qual quer supostamente impedir.
Adorno, em carta a Marcuse, maio de 1969.

Thursday, March 19, 2009

pro dia nascer feliz

o banho frio no verão, desejo mais visceral. apressa que tá começando! sai no pinga-pinga, cabelo embaraçado, corre na elegância da toalha enrolada. ninguém duvida do bom-humor, ri alto e escancarado, a pele preta de cetim; eu colocava uma flor no cabelo, assinando embaixo de tanta prosa de mulher feliz.

(sambando na lama de sapato branco.)

Sambando na lama de sapato branco, glorioso
Um grande artista tem que dar o tom
Quase rodando, caindo de boca
A voz é rouca mas o mote é bom
Sambando na lama e causando frisson
 
(...)
Cantando e sambando na lama de sapato branco; glorioso
Um grande artista tem que dar lição
Quase rodando, caindo de boca
Mas com um pouco de imaginação
Sambando na lama sem tocar o chão
 
E o tal ditado, como é?
Festa acabada, músicos a pé
Músicos a pé, músicos a pé
Músicos a pé
 
Sambando na lama de sapato branco, glorioso
Um grande artista tem que fazer fé
Quase rodando, caindo de boca
Aba de touca, jura de mulher
Sambando na lama e passando o boné
 
(...)
Cantando e sambando na lama de sapato branco, glorioso
Um grande artista tem que dar o que tem e o que não tem
Tocando a bola no segundo tempo
Atrás de tempo, sempre tempo vem
Sambando na lama, amigo, e tudo bem
 
E o tal ditado, como é?
Festa acabada, músicos a pé
Músicos a pé, músicos a pé
Músicos a pé
 
Sambando na lama de sapato branco, glorioso
Um grande artista tem que estar feliz
Sambando na lama e salvando o verniz

Chico Buarque, Cantando no toró
Para tentar se livrar da acusação de homicídio, o advogado do austríaco disse que Fritzl não queria matar os filhos, mas "construir uma segunda família no porão de casa". Para isso, teria decorado o cativeiro com um papel de parede do Mickey para criar uma "atmosfera de lar".

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u537210.shtml

Wednesday, March 04, 2009

Repúdio à Folha de São Paulo

http://www.ipetitions.com/petition/solidariedadeabenevidesecomparat/index.html

Manifesto

Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada peloregime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme eveemente repúdio à arbitrária e inverídica “revisão histórica” contida noeditorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro último. Ao denominar“ditabranda” o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direçãoeditorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros ebrasileiras que lutaram pela redemocratização do país. Perseguições,prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuçõessumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar noperíodo mais longo e sombrio da história política brasileira. Oestelionato semântico manifesto pelo neologismo “ditabranda” é, a rigor,uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que sebeneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos nopós-1964.Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a “Nota de redação”,publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta às cartasenviadas à seção “Painel do Leitor” pelos professores Maria Victoria deMesquita Benevides e Fábio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, aFolha de S. Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários eirresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuaisbrasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio esolidariedade ante às insólitas críticas pessoais e políticas contidas nainfamante nota da direção editorial do jornal.Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.