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Monday, August 19, 2013

trabalho

mastigo esse batom amanteigado
sei que sua pele quase chora
coisas, coisas, coisas passam em sonho
              (a bolsa de tecido mais bonito
              presente ofertado por tabela sob
              força das circunstâncias)

não se maltrate eu te digo em mantra
acendo – acenda – uma vela branca
cuide do corpo e da casa

perfumar-se é oração

que sorte ter alguém no quarto ao lado.

amar de dia e, de noite, ser cavalo alado.

Sunday, April 14, 2013

I – precisão de desertos


por causa de tati fadel

preciso dos desertos e é por isso que
atraso meu relógio
trabalho na madrugada
finjo que durmo quando me beijas.

preciso dos desertos para estar no mundo.

preciso dos desertos. neles me permito,
neles me concentro,
neles flui toda rebeldia que invento.

são emudecedores
estarrecedores
assombrosos;
só assim cuido da casa,
reviso textos,
tomo coragem e saio de casa,
pego o metrô, trabalho.

o deserto é um gel no meu cabelo
um sobretudo em clima ameno
abundância de moedas empilhadas na estante

o deserto contém meus livros
e a concentração para lê-los
o deserto expulsa notas comprovantes recibos
e seus bilhetinhos de amor.

no deserto estou só,
sem reconhecimento
nem possibilidade,
sem alarme nem surpresa
nem quentura de companhia
pra suportar o peso do mundo

deserto, preciso;
assim precisa ser.

Saturday, August 25, 2012

do luto, ainda


basta a convalescência
que o mar não ensina
tampouco o tempo, a bebida,
maltratar-se (corpo e alma),
a meditação, o sexo: nada
convalesce um coração estilhaçado.

só a fome.
só a fome pode ensinar a convalescer do irreparável.

Thursday, August 16, 2012

quando o mundo convida


amei alguém que me deixou
não amei quem me deu o conselho mais valioso:
confie no movimento da vida.

é tudo aberto demais, ou quase.

Tuesday, July 17, 2012

morte encapsula tudo

cemitério faz que rima
mas não rima com velório.
rima com impropério, despautério, deletério

e contrariando normas
e tudo que me dizem de sério

tento fazer velório rimar
com o som do meu coração
esfacelado, em desespero

que espero transpareça quando rio.

Monday, April 23, 2012

à parte as objeções


meu tempo é o abafado das caixas de sapato
de bico-fino sob outras caixas tantas
que se logra abrir com cuidado
em tardes amenas,
antevésperas de grandes eventos.

meu tempo é o embaçado desigual da vidraça do banco de trás
quando as crianças fazem apostas mentais sobre a corrida das gotas de chuva
e desenham até onde a mão alcança
repetidas sempre vezes
e a gordura se encrusta.

meu tempo é o encurvado de uma persiana
da janela central de uma pequena casa
onde por apreço à claridade essa persiana não tem uso
e seus cantos suspensos sustentam
o bicho todo, envergado em simetria.

meu tempo podem ser coleções comuns
como vinis empoeirados,
promoções de salgadinho,
pontas de lápis, papéis.

desde que tão bem-guardadas,
lembresquecidas
como os entres, os desiguais, os desusos,
em que a sutileza impera e desarma mas
pungentes que são, não perdoam.

Sunday, June 19, 2011

citadina

há manchas no meu corpo que seriam julgadas
tamanha a lascívia, tamanho o ocaso,
tamanha a luxúria que evocam e contêm

com isso que chamam pó compacto
então as cubro
com lenço e camisa e casaco e calça e renda
e pó

que em nada compactua com meus desejos de mulher.

nessa multidão que nada me oferece além de roçares

escondo e camuflo e me enquadro mas, ah!,
há sempre o indisfarçável e eu rio
rio fluido sob o sol que desembaraça tantos encontros-presentes.

Sunday, May 22, 2011

uma bebida mais forte

porque essa insistência em vestígios de amor numa relação tão violenta. porque os pés gelados num dia frio, zanzando pela casa, num quase automatismo de auto-flagelo. porque os músculos doloridos de uma noite sem memórias. porque as brechas, as frestras, o intransponível, o indizível, o indecifrável e a espreita. porque o erro, e só ele, é que faz sentido, confidenciaram-me. agarrei-me a essa máxima e não solto até o soluço passar.

Tuesday, April 05, 2011

mal-me-quer

eu não derramei uma lágrima.

não derramei uma lágrima e não engoli nenhum choro
desse amor insosso que você me ofereceu
não ficou nem desgosto

Sunday, March 13, 2011

not supposed to hit

ela saiu para o trabalho não sem antes carregar na maquiagem um pouco mais do que o costume. pela noite indormida, o corpo já começava a pedir descanso antes das oito da manhã. um banho ora quente ora frio servira para dar realce e acalmar um pouco os hematomas recentes (a água sempre traz as dores pra superfície do corpo, e um roxo se espalhando na pele permite maquiar de dor-de-pancada o choro de sufoco, humilhação e desespero). antes de sair, passou café e alisou a gola daquele colarinho, a camisa impecável num cabide pendurado no puxador do guarda-roupas. tomou uma xícara que caiu de golpe no estômago em jejum. é que se maltratar também é bom, às vezes, quando a encruzilhada inexiste e ser cúmplice na agressão é a única possibilidade. saiu sem dizer palavra; ele folheava o jornal sem reclamar do café forte, a camisa agora ainda semi-abotoada. quando girou a chave já do lado de fora do apartamento, cravou fundo a unha do indicador direito nas costas da mão esquerda: a marca não a deixaria esquecer de pegar as roupas na lavanderia depois do expediente. sentiu o café revirar no estômago, enquanto descia as escadas do prédio: dali dois dias seriam anfitriões no jantar anual da família, e ela sequer tinha pensado no quê servir como entrada. tateou a bolsa, abriu o carro, revirou a pasta com as anotações para a reunião de apresentação dos primeiros resultados que presidiria assim que vencesse o trânsito da cidade. digitou 'bom dia. amo você' no celular, enviou pra filha que mora longe, e deu a partida.

imagem daqui

Saturday, March 05, 2011

um retrato a uma estrangeira

eu moro num país onde as pessoas morrem
de fome
de tiro à queima-roupa
de amores e ciúme
de acidente de trânsito

nunca ninguém morreu de fome nos meus braços.

soube de quem morreu depois de jogar futebol;
antes de nascer;
vi quem morreu de desistência do corpo
e de surpresa, também
vi quem morreu despencando
e vi corpos bonitos de mortos serenos

eu vi quem nasceu cabeluda do ventre da viúva
e quem renasceu encovada de força antes dos trinta

eu li cantos sobre cabelos de suicidas no rio,
esculachos quaisquer de poetas sobre o verdejar desses fios
mas antes disso

eu fui à missa de sétimo dia de uma suicida
que me sorria sempre quando confidenciávamos amores errados
e ainda antes disso

eu perdi a voz em batalhas esganiçadas

e me amarraram por qualquer descrença e me deturparam
a voz e a força e o delinear
e então sem me dar conta

eu passei a freqüentar igrejas e velórios
a sorrir mais, conversar com anjos
e ler notícias no jornal sobre gente na rua
com fome
com sangue e com morte
insistências fronteiriças
nos nossos países.

Thursday, December 23, 2010

febril

a poesia?
vai tão encrustrada em mim
(você que a assim deixou)
que já não a percebo,
os dias passam conta-goteando. desde que você partiu.

quer dizer
– você sabe porque as noites tem sido tão claras?
eu não prego o olho e culpo a lua
e pode chover e a lua pode
se nublar que continua
o clarão e o barulho da chuva no telhado
parece seu sibilo
eu quase arrepio
inspiro e seguro o lençol sob o queixo
embolo meus pés no cobertor
e encarinho-me o rosto antes do espreguiço.

expiro e você é quase um holofote
e não sinto meu estômago porque em sonho (quando há) seu perfume me
[enche d'água e me cega e acordo e tateio
e verto em mim o que há na mesa de cabeceira e me resfrio

e não há barulho que distraia
silêncio que entorpeça
palavra que instigue ou aconchegue
tanto quanto as suas doçuras irreveláveis.

então sigo meu dia e pinto e escrevo
pra você escrevo uma confusão de perfumes
e tento pintar outro silêncio
que não aquele seu de dizer amores e preencher
mas o silêncio que pinto não te tem e não me tem e não há cores e só há água
há água e desidratração e me lembro
– não se esqueça de respirar
, e respiro

mas se respiro me inflo de cores que só a nós pertenciam,
e eu não sei tê-las sem você. então
respiro e sou só edema. não há extravasares, não há quem contenha. me
[inflo.
e à noite choro, e a lua clara holofote é tanta e insiste
e machuca meus olhos já tão secos. e sou toda secura, então,
também em garganta e suor (que seca o dentro) e coração cansado e me
[esqueço das outras partes do corpo

deito exausta e se fecho os olhos ardem
quem dera de tesão quem dera
de choro ou cansaço. ardem de não saber mais nosso encontro, como arde
[meu dorso todo de não saber mais seu toque
e me assombra seu sorriso e preciso segurar minha cabeça com as mãos
e não respirar
e você é toda-beleza e com ternura me pergunta
e me assombra seu rosto seus músculos suas contrações sua pergunta
me assombra sua pergunta
de como anda a poesia.

Sunday, November 28, 2010

(sem título por enquanto)

[a vida] quer da gente é coragem.
guimarães rosa
Não se acovarde

Não há tempo manso
ou espera que cure.

Há furacões e seus centros,
olhos de tigre cuja
menina é cardiopata
(não há ritmo)
Há a exigência da coragem.

Mais nada.

Thursday, November 04, 2010

corazón

tirei o relógio de parede que ficava na sala de casa. dependurei, tirei as pilhas e o abandonei em cima da pilha de revistas (intocadas há semanas). podia ser o seu cheiro, ou outro, tanto faz, que o tic-tac do relógio me trouxesse. mas não traz mais nada. como pode um objeto ter ou não ter história, aflorar-nos tanto na memória? tirei também o pó de um ou dois dias acumulado nos santos que circundavam meu cantinho espiritual. suspirei, sim, não tem como abrir o coração sem suspirar. às vezes abre-se sem sequer a intenção de vasculhar, mas os suspiros afloram e se fosse diagnosticar eu diria: cardiopatia grave, porque o coração retumba e ecoa, e a respiração muda (arfante ou contida, passa-se a percebê-la, e respiração é dessas coisas que quando se percebe é porque chama a atenção, e se chama atenção é porque algo de extraordinário há, e se é extraordinário pode bem ser errado, e aí nos preocupamos, quando é com alguém querido, e suspiramos, quando é dentro da gente, mesmo, porque o suspiro é o diagnóstico que o próprio coração dá à cardiopatia). virei-me, abri as cortinas, não teve brisa a brindar-me: é verão neste hemisfério, e as noites cada vez mais densas.

Friday, April 02, 2010

história de um futuro amor

semana passada, dormiu nos meus braços; na noite de antes de ontem, hesitei entre ficar e sair, agonizei, quase chorei. acabei adormecendo enlaçada.
entre o dia em que conheci sua expressão de entrega e o dia em que não me lembro mais de seu rosto em alegria compartilhada, mora meu coração exausto.
ontem percebi que me despedi com ternura, e saí sem olhar pra trás, numa lágrima fugidia.
são coisas do mundo, minha nêga. eu não posso explicar meus desencontros.

Saturday, December 26, 2009

Flamingos

Subia os degraus do sobrado em silêncio, movimentos precisos na exata medida entre o soltar demais o corpo a cada passo e o tomar muito impulso a cada inspiração. Exalava equilíbrio, mas não durante as festividades. Não que precisasse extravasar, não comprava a balela freudiana – não por amargor ou insegurança, mas por outro tipo de incompatibilidade, que especialmente nesse fim de ano aflorou: beleza. Necessidade e desejo de beleza. Não via a beleza nas medições, nas solícitas contenções e dispendiosas contendas, não; a via nos extravasares. Drama barato a olhos insensíveis; profundo amálgama eu-Outro aos mais cuidadosos. Os desavisados que não suspeitassem da destreza em não calcular sentimentos até ofereciam mimos e regalos, que de bom grado aceitava, ruborizando. Mas o que solapara, nesse Natal o que solapou em água e flor toda encenação foi a percepção do permitir-se encantar.

Wednesday, July 29, 2009

dispersões despertas

Batidas na porta da frente - é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calada,
ele ri.
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar
e eu não sei.
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração - é o tempo.
Nana Caymmi

hoje, voltava da minha aula de francês, dirigindo. tinha chovido, mas estava com sol, algumas nuvens bem densas e escuras de um lado do céu, e o outro lado já muito azul. no meio do caminho, desconhecido (dei carona pra uma amiga e acabei voltando por um caminho que nunca tinha feito) fui surpreendida por um arco-íris, que me trouxe qualquer coisa de algum lugar racionalmente intangível, e me fez brotar um sorriso.

percebi que o arco-íris é uno, holístico, e que seu centro está em toda a parte. mas sempre que ele aparece, toca qualquer coisa de muito profunda, sincera, que tem inclusive algo de pueril em sua tanta beleza. ele parece nos brindar tão-somente com aparições raras, sutis e fragmentadas, à espreita da distração que o aperceba. e viria daí seu charme apaixonante.

acontece que sempre que ele aparece e nos aflora essas sensações boas, deve ser porque ele se comunica com qualquer coisa da nossa história, da nossa memória, que faz sentido no passado e no presente. nos brinda, talvez, com a fragilidade absoluta e perfeita da vida. e a sensação que nos ilumina, num dia, vai desbotando ao longo dos outros dias, até que nos esquecemos da visita do arco-íris - para sermos lembrados pelo próprio, em mais uma aparicação magistral num futuro mais ou menos distante. e essa nova aparição faz aflorar novamente todas as sensações boas, a maioria delas inexprimíveis em palavras. alguém poderia dizer que é como um ciclo, mas não. não é ciclo, porque não tem início, meio, fim, e início de novo. como já disse, o arco-íris é uno, embora se nos mostre apenas em fragmentos.

tem sido presente, na minha vida, nas últimas semanas, pensamentos sobre a vida, a morte, o além. essa aparição desse arco-íris me fez perceber como tanta coisa da vida não tem início nem fim, como a vida em si não é início, nem a morte é fim - como já tinham tentado me ensinar os monges do templo budista em 2007, mas só agora comecei a entender o que isso significa. vida e morte se entrelaçam, e isso faz da vida absolutamente bela e una. a morte deixa, sim, muitas coisas mais difíceis de se compreender e até de se viver. mas encontro algum sentido quando penso que ela nada mais faz do que escancarar o caráter fragmentado e raro das aparições dos arco-íris. e lembro que a aparição rara, fragmentada e sutil, à espreita de qualquer falha na nossa vigilância que acometa de comoção nossos sentidos todos, nada mais é do que a percepção da presença infinda, infinita e perene (já que não há final).

presença do quê? não sei dizer ao certo. talvez seja mais uma dessas coisas que a gente só sente, e que muitas pessoas dão nomes diferentes. amor, pessoas, valores, ensinamentos, lembrança, memória, fé. o que sei é que isso se torna constitutivo da gente, e, como qualquer nova condição, é dolorosa, um pouco assustadora, e contém em si grande dose de beleza. o que nos é sempre ensinado é que, diante de condições um pouco assustadoras, a gente deve abrir o coração e compartilhar com aqueles cuja comunicação se faz mais facilmente (o pai, a mãe, o cachorro, as estrelas, o diário, o terapeuta, quer estejam nessa terra em carne e osso, quer não?). são eles que, na ação de compartilhar, desanuviam o susto e intensificam a beleza. sempre.

Monday, July 13, 2009

'moscou', de eduardo coutinho (ou: orgulho de ser brasileira)

diretor e produtor sobem ao palco para apresentar seu filme, antes da exibição no festival de cinema de paulínia. enquanto o produtor faz os agradecimentos de praxe, o diretor ronda o palco, observa as marcações no chão, olha para o chão, olha para cima, põe as mãos nos bolsos, puxa as calças que caem, o claro paletó desalinhado contrastando com a calça escura (ou seria o contrário?).

dedica o filme a joão moreira salles, aquele que o salvou do convento - destinação correta, segundo o próprio coutinho, caso o documentário fracassasse antes mesmo de tomar corpo. moreira salles assiste a algumas cenas e profere a sentença: 'sim, há filme'. coutinho vê que sua carreira não será anunciada em obituário, e segue o conselho do amigo: faz um documentário longo, em fragmentos, e sem se preocupar em fazer entender a história da peça teatral a ser montada.

pois o argumento de coutinho é gravar o processo pelo qual passa o grupo galpão de teatro, quando aceitam o desafio de montar 'as tres meninas', de tchecov, em três semanas (ou um mês?). a sugestão de moreira salles não foi senão coroar aquela que, imagino, já era a intenção de coutinho, em parte justamente por se tratar de um documentário: não fazer uma livre adaptação da peça de tchekov, mas usá-la como linha condutora dos processos internos, externos, subjetivos e coletivos pelo qual passam o grupo de teatro e seus indivíduos no início de uma construção e desconstrução, como o diretor da peça de teatro diz no início do filme, de uma peça teatral.

além disso, basta lembrar de outro célebre documentário do diretor: jogo de cena. nele, coutinho consegue magistralmente mesclar memórias , fazer aflorá-las, compartilhá-las, e construir, a partir de fragmentos com um quê de realidade (i.e., as memórias alheias), as memórias de tantos personagens. em 'moscou', não se tem certeza de quem são as memórias escancaradas na tela - ainda que, por vezes, em black out. mas a origem das memórias não tem importância. o que importa é a generosidade do compartilhá-las, sem saber quão efêmeras ou quão encrustradas nos corpos alheios elas ficarão.

eduardo coutinho dá um drible na centralidade da noção de verdade, e com isso desafia nosso apego às nossas próprias noções - estanques, corretas e só nossas. ele propõe compartilhar as verdades, inventá-las, relembrar cheiros e recolori-los depois. pega emprestado uma das mais belas coisas do teatro e a põe no centro de seu belíssimo filme: a inventividade.

Sunday, June 28, 2009

dois poemas

Exausto
Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

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Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia de Mello Breyner Andresen