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Thursday, September 26, 2013

diagnóstico


é vertigem que me dá esmaga
uma das vértebras da
minha cervical estanca
proíbe segura é barreira para
meu sangue correr livre lívida
o armário dança
dançam livros coloridos dança
qualquer coisa fora do lugar é na minha cabeça, é tudo
na sua cabeça mas o sangue
o sangue não flui não jorra não ferve
o sangue não é meu
sangue sangue em meu próprio corpo
é fluido e não flui no entanto
embaça

mas é só vertigem, vertigem pouca

poema feito de chá


minha espera permite
o aprendizado da água –

ebulição é espetáculo
de tanto ensaio de ritmo

minha espera exige
o aprendizado do corpo:

estar montanha,
saber de si

minha espera ensina
permissiva

meu coração em fervura.

Monday, August 19, 2013

trabalho

mastigo esse batom amanteigado
sei que sua pele quase chora
coisas, coisas, coisas passam em sonho
              (a bolsa de tecido mais bonito
              presente ofertado por tabela sob
              força das circunstâncias)

não se maltrate eu te digo em mantra
acendo – acenda – uma vela branca
cuide do corpo e da casa

perfumar-se é oração

que sorte ter alguém no quarto ao lado.

amar de dia e, de noite, ser cavalo alado.

Thursday, February 21, 2013

ficou jardim


passei o dia vendo o céu da janela do meu quarto.

vibrante paleta de cores
calmas nuvens desatinos
soturno luar em senda

entendi
quando do quase sem-luz
mas era
desviei, olhei cimento e gramado e
entendi
na permanência sutil do fora

entendi o que você quis me dizer quando disse que ficou jardim.

Saturday, October 27, 2012

haikai VI


calçada, cimento fresco.
com árvore, o vento
fossiliza a primavera

haikai V


dobra vinca prende fura
como já nascida
bailarina da costura

haikai IV


manhã de feriado
meu despertador
maritacas no telhado

haikai III

risos de crianças
no pátio do prédio:
prelúdio de domingo

haikai II

no escuro do brejo
sobra desencontro
entre coaxos e ecos

haikai I

para a saudade futura
restar doce no peito
a mansidão do tempo

Tuesday, April 24, 2012

sobre linhas I


peço-te que imagine uma linha.
imagine o diâmetro exato de seu fio
e se existe ou não um buraco possível de agulha para se fazer travessia.

imagine sua cor, nuançada entre um tom de céu ou areia
ou talvez nenhum desses mas aproximadas cores de lembrança
ou precisas e irresolutas, inelutáveis cores de sonho
quando num continuum diálogo de vigília e só se sabe sonho porque
não sentes dor
o absurdo denuncia
o despertar deixa a dúvida e portanto: sonho

peço-te que então imagine de que é feita essa linha.
se do mais comum material encontrado na natureza
encapsulado e doravante produzido
em fábricas por homens comuns
em vilas por eco-propostas
e consumido como requinte;
se de um raro material;
quão denso;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se num emendo artesanal;
mais ou menos longo;
se sob intervenção infantil multicolorida e dura (pintada com guache) [e esgarçada (do contato com as unhas);
quão maleável.

não me diga nada dessa linha e não a tente reproduzir.
essa linha é o que te é e não me é possível compreendê-la ou imaginá-[la.

podemos, contudo, tomar aulas de arte
e aprender teorias contemporâneas e estudar produções de [assemblage
estudar construção de esgoto e sustentação de casa (é claro que a [linha pode vingar)
enforcar um inimigo
dançar melodias e bater palmas ritmadas
saltar do ônibus no ponto errado
suar a camisa ao passar por alfândegas
cozinhar massas acompanhadas de peixe fresco
colecionar rótulos de importados e pedras não-lapidadas
arriscar um lançamento de pedra e receber bombas que nos fazem [correr
tirar roupas do varal
tamborilar na espera

e fazer, no descanso, ponto-cruz.

Monday, April 16, 2012

'sampa'

só me aconselham a sair dessa cidade
eu finco o pé e finjo não te ter saudade
digo que o certo é vaguear enquanto posso
e a multidão me acalenta

e digo e volto pro calor do teu regaço
na pouca fé restante nessa parceria
no sono meu desejo errante se vicia
e a prontidão me atormenta

e te assemelhas em virtude injuriada
à retidão da fumaça que me alimenta
e é por isso que vagueio e só tropeço
na mansidão que alardeia enquanto arde

ps: essa é uma letra de música que fiz pra uma amiga musicar!

Sunday, November 27, 2011

breve ensaio sobre as estações (iii)

outono

não se sabe que é outono olhando pro céu; no outono a gente olha pra dentro como quem olha pro chão pra não tropeçar. não tem encontro, não tem susto, não tem paixão. outono é vento e vento e vento e tempo do prazer de pisar em folhas secas. é vernal o prazer fugidio e sutil porque suspenso e portanto enganador: transmutar volatilidade em permanência não é justo. e por isso a ventania.

Saturday, November 05, 2011

benvinda

o que denuncia um novo amor não é um novo orgasmo (isso é transa casual), um novo velho mesmo jeito de atender ao telefone (pode ser timidez), nem as tão batidas borboletas no estômago (é claro que las hay, pero desde a pré-escola). o que denuncia um novo amor é aprender um novo jeito, o jeito dela, de arrumar a cama. e tomar gosto. e zelar pela cama arrumada, vez ou outra, antes de sair.

Tuesday, July 19, 2011

corpo de mulher

fitei a parede e não vi mais nada. seu cheiro é áspero, ele dissera, suas mãos em mim e eu sem saber. havia trincos na parede, resquício de umidade (são sempre as outras mesmas histórias acumuladas), e os traços imprevistos rodavam ao meu redor. nós dois no breu e tudo girava. me desorientei pelo seu suor e recebi toda a agressão que contém um corpo de homem que é pele e sangue e tanto mais que não me permitem tentar nomear.


.em busca de outra semântica.

Wednesday, June 08, 2011

retratos urbanos - a mulher do despachante

cruzou o meu caminho – e não o contrário – uma mulher de cabelos ressecados, talvez com corte, talvez ressecados apesar da devoção e do cuidado, talvez pelo tempo seco que vem com a chegada do outono, ou pelo uso equivocado de produtos de má qualidade que são o que ela pode comprar. ela, que trabalha num despachante, e antes das 16:00 tinha ainda um copo cheio de café ao seu lado. um copo americano, de bar, o mesmo que, aposto, ela enche de cerveja aos finais de semana. não reparei se fumava, talvez sim, para compor a personagem perfeita. talvez não. talvez tenha filhos, e um deles estude no exterior. talvez o marido – ou a amante – lhe presenteie com jóias vez ou outra. talvez ela já tenha visto um jogo do corinthians no estádio, talvez lido um romance do paulo coelho ou do machado de assis. talvez ela nutra uma paixão por comida asiática, talvez cozinhe muito durante seu final-de-semana para congelar parte da comida para comer durante a semana. talvez já tenha experimentado cocaína, tomado leite com manga, feito uma cirurgia de alto risco, visto o mar. cruzou o meu caminho, ela, que passa dos trinta e talvez beire os quarenta anos, uma pele amorenada, cruzou, ela, porque me despertou vontade de saber tanto a seu respeito. cruzou o meu caminho, e não contrário, porque enquanto passava eu defronte o despachante onde trabalha – desde quando? –, ela sequer desviou os olhos da tela do computador.

Sunday, May 22, 2011

uma bebida mais forte

porque essa insistência em vestígios de amor numa relação tão violenta. porque os pés gelados num dia frio, zanzando pela casa, num quase automatismo de auto-flagelo. porque os músculos doloridos de uma noite sem memórias. porque as brechas, as frestras, o intransponível, o indizível, o indecifrável e a espreita. porque o erro, e só ele, é que faz sentido, confidenciaram-me. agarrei-me a essa máxima e não solto até o soluço passar.

Thursday, May 19, 2011

da vista da minha janela

a vista da janela do meu quarto é o muro do quintal. entre o muro e a minha janela fica uma máquina de ginástica que meu pai comprou e enferrujou, de vez em quando uma bicicleta encostada, de vez em quando meu cachorro e quando eu chamo ele pela janela ele abana o rabo e faz aquele chorinho de cachorro porque ele quer chegar mais perto de mim mas não pode por causa da máquina de ginástica enferrujada, de vez em quando da bicicleta e das grades e da tela que tem na minha janela, então mesmo que meu cachorro conseguisse colocar suas duas patinhas na beirada da janela ele não ia conseguir me dar nem uma lambidinha porque tem uma tela pra proteger de pernilongos mas ela não adianta nada porque minha casa é infestada de pernilongos então na verdade essa tela não serve pra nada e ainda por cima não deixa meu cachorro me dar uma lambidinha de carinho.