Showing posts with label síntese. Show all posts
Showing posts with label síntese. Show all posts

Thursday, September 26, 2013

poema feito de chá


minha espera permite
o aprendizado da água –

ebulição é espetáculo
de tanto ensaio de ritmo

minha espera exige
o aprendizado do corpo:

estar montanha,
saber de si

minha espera ensina
permissiva

meu coração em fervura.

Thursday, August 16, 2012

da brandura à espreita

todo concreto quando em calçada
deveria por lei receber
(quando fresco ainda, é importante)
folhas na caducagem

o carimbo alinhavado
seria a prova dos nove
da brandura, sempre à espreita,
revelada a olhos atentos.

Tuesday, April 24, 2012

sobre linhas I


peço-te que imagine uma linha.
imagine o diâmetro exato de seu fio
e se existe ou não um buraco possível de agulha para se fazer travessia.

imagine sua cor, nuançada entre um tom de céu ou areia
ou talvez nenhum desses mas aproximadas cores de lembrança
ou precisas e irresolutas, inelutáveis cores de sonho
quando num continuum diálogo de vigília e só se sabe sonho porque
não sentes dor
o absurdo denuncia
o despertar deixa a dúvida e portanto: sonho

peço-te que então imagine de que é feita essa linha.
se do mais comum material encontrado na natureza
encapsulado e doravante produzido
em fábricas por homens comuns
em vilas por eco-propostas
e consumido como requinte;
se de um raro material;
quão denso;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se num emendo artesanal;
mais ou menos longo;
se sob intervenção infantil multicolorida e dura (pintada com guache) [e esgarçada (do contato com as unhas);
quão maleável.

não me diga nada dessa linha e não a tente reproduzir.
essa linha é o que te é e não me é possível compreendê-la ou imaginá-[la.

podemos, contudo, tomar aulas de arte
e aprender teorias contemporâneas e estudar produções de [assemblage
estudar construção de esgoto e sustentação de casa (é claro que a [linha pode vingar)
enforcar um inimigo
dançar melodias e bater palmas ritmadas
saltar do ônibus no ponto errado
suar a camisa ao passar por alfândegas
cozinhar massas acompanhadas de peixe fresco
colecionar rótulos de importados e pedras não-lapidadas
arriscar um lançamento de pedra e receber bombas que nos fazem [correr
tirar roupas do varal
tamborilar na espera

e fazer, no descanso, ponto-cruz.

Monday, April 23, 2012

à parte as objeções


meu tempo é o abafado das caixas de sapato
de bico-fino sob outras caixas tantas
que se logra abrir com cuidado
em tardes amenas,
antevésperas de grandes eventos.

meu tempo é o embaçado desigual da vidraça do banco de trás
quando as crianças fazem apostas mentais sobre a corrida das gotas de chuva
e desenham até onde a mão alcança
repetidas sempre vezes
e a gordura se encrusta.

meu tempo é o encurvado de uma persiana
da janela central de uma pequena casa
onde por apreço à claridade essa persiana não tem uso
e seus cantos suspensos sustentam
o bicho todo, envergado em simetria.

meu tempo podem ser coleções comuns
como vinis empoeirados,
promoções de salgadinho,
pontas de lápis, papéis.

desde que tão bem-guardadas,
lembresquecidas
como os entres, os desiguais, os desusos,
em que a sutileza impera e desarma mas
pungentes que são, não perdoam.

Sunday, February 12, 2012

da fruição


durmo, acordo e
te beijo
nessa ordem:
em fogo e paina
a vida flui.

não sonho e não
se inundam meus olhos quando
te sinto os lábios nos meus:
em febre e letargia
a vida paira.
em café, sons, pudores.
acordo em sebo e não é teu corpo
não é teu corpo em meu tato e
sei numa virada brusca:
é
afogar e logo
a vida plana.

movimento-me
por me saber tua
numa desordem qualquer
logro-te um afago:
a vida flui.

Sunday, November 27, 2011

breve ensaio sobre as estações (iii)

outono

não se sabe que é outono olhando pro céu; no outono a gente olha pra dentro como quem olha pro chão pra não tropeçar. não tem encontro, não tem susto, não tem paixão. outono é vento e vento e vento e tempo do prazer de pisar em folhas secas. é vernal o prazer fugidio e sutil porque suspenso e portanto enganador: transmutar volatilidade em permanência não é justo. e por isso a ventania.

Saturday, November 05, 2011

benvinda

o que denuncia um novo amor não é um novo orgasmo (isso é transa casual), um novo velho mesmo jeito de atender ao telefone (pode ser timidez), nem as tão batidas borboletas no estômago (é claro que las hay, pero desde a pré-escola). o que denuncia um novo amor é aprender um novo jeito, o jeito dela, de arrumar a cama. e tomar gosto. e zelar pela cama arrumada, vez ou outra, antes de sair.

olavo bilac

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e alma de sonhos povoada eu tinha.

E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida,
nem o pranto os teus olhos humedece,
nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.

Thursday, June 16, 2011

camomila

é hoje que eu durmo bem, meu amor,
apesar da sua ausência.

Thursday, March 24, 2011

breve ensaio sobre as estações (i)

verão

o verão nada mais é que a letargia. não; o verão é o êxtase, a catarse, a nudez em conforto porque quente. o verão não são gotas de suor; o verão é o sal que marca a roupa, é a boca seca e corpos que entre si deslizam no amalgamado de cheiro denso. o verão é a estação do sexo mais feroz e sensual, é a estação do vigor corporal que garante a tranqüilidade d'alma – porquanto não a contém.

Monday, December 20, 2010

poema de percepção do luto

Num rascunho de poema
descubro: só sertão em mim habita
desde o ano dos velórios.

Não são temas de esconjuro,
linhas tortas ou cascatas
de infatigados dramas, não.
São escritos circulares
insustentáveis pois sem centro;
é quase desespero
contido
pois não é.

Nem é só tristeza
nem amargor nem cansaço.
É insustentável peso sem
o reboque da leveza.

Tuesday, December 14, 2010

uma elaboração de sentires

cada vez que eu tomo um banho, sinto os cheiros de costume, eu me lembro de você. a sua ausência durou o tempo exato de um pote de condicionador. o tempo exato de experimentar outra regularidade, outro cheiro. outra reação e um diferente caimento dos meus cabelos depois de banhos extraordinários. com outros ritmos, outros cheiros, outras aflições e um risco diferente marcando o vapor no espelho.

quando eu era criança, acumulava desenhos nos espelhos e nos vidros embaçados. no banheiro, depois do banho, e dentro do carro, quando chovia. eu sempre percebia que os desenhos nunca sumiam. a marca leve de cada um voltava com o novo embaçado, e eu, temperamental, oscilava sempre entre reforçar os traços muitíssimo bem-acabados ou dedicar-me a novas expressões.

hoje meu banheiro guarda em relicário um mosaico. traços que se justapõem, às vezes se sobrepõem, algumas vezes uma emenda faz surgir um novo desenho que eu só reparo muito tempo depois. me orgulho do meu mosaico; se há desbotamentos, superposições, desrespeitos estéticos e repetições, sei que tudo aparentemente opaco e embaraçado tem seu lugar, e são esses lugares os mais nobres. todos, cada um. há quem diga que é impressionista demais, esse meu mosaico, que só a mim me diz respeito e pouco comunica ao mundo. pode ser. me delicio em saber da minha história, e só eu, e só dela.

bicicleta

a bicicleta é a brincadeira mais libertadora. claro, quando seguidas as regras de como deve ser. não pode ter aquelas rodinhas, aquilo é pior que ensaio. andar de bicicleta é mais que improviso. tudo bem, tudo bem, ninguém nasce sabendo improvisar. o improviso só é bom depois de corpo e alma em exato equilíbrio entre condicionamento e liberdade. e não é ensaio que proporciona isso, não: é mergulhar, se empantanar em experiência. e é por isso (eu sei) que tem muito adulto bicicletador por aí. mas não basta vontade, não. tem que abrir, rasgar o coração.

Saturday, September 25, 2010

domingo

vem cá,
me diz seu amor
em silêncio de pescaria.

Friday, April 02, 2010

de livros, chuva e encontros

ontem estava na sala dos professores da escola onde funciona o cursinho popular do qual participo e, entre uma aula e outra, folheei um livro de roland barthes, 'o rumor da língua'. o livro é uma coletânea de pequenos artigos, e cheguei a ele através da indicação de uma admirável professora. a idéia era ler um artigo em que ele fala de benveniste, lingüista, para tentar entender um pouco mais do paradigma em que repousa a etnografia de jeanne favret-saada, uma antropóloga em cuja obra estou mergulhada nesses tempos.

mas um dos motivos pelos quais realmente gosto de pegar livros na biblioteca - e não simplesmente tirar xerox de um ou dois artigos ou capítulos selecionados pelo professor, cujas cópias ficam à espera dos estudantes, numa pasta no xerox - é porque folheá-los realmente me é muito prazeroso. folhear um livro é como observar um quadro de diversos ângulos, espreitar a construção - meticulosa ou não - da obra concreta que está em nossas mãos. e eis que, folheando o livro de barthes, caí justamente num artigo em que ele fala da escrita e, mais detidamente, da leitura. de como a leitura é o locus da perda de controle do escritor sobre o leitor. porque a leitura, ou ao menos um tipo de leitura, suscita, por vezes, outros pensamentos em cascata na cabeça do leitor.

e barthes chama essa leitura da leitura 'levantando a cabeça'. desafia: quem nunca leu 'levantando a cabeça'? é a leitura em que nos acometem pensamentos muitos, é a leitura ao mesmo tempo desrespeitosa (o termo é de barthes), pois interrompe o texto a toda hora, e faz conexões possivelmente inimagináveis ao escritor, e fiel, passional, pois é ao próprio texto que o leitor sempre retorna, se nutrindo dele, em movimento de vertigem - aproximação e autonomia (agora os termos são meus).

e li o trecho do ensaio apaixonante e apaixonado (barthes não economiza ao demonstrar seu amor pela literatura) para um amigo meu, também ali, na sala dos professores do cursinho, terminando de preparar sua aula - de redação. li o trecho sobre a leitura 'levantando a cabeça', e ele disse que certa vez ouviu ou leu, de alguém ou em algum lugar, sobre a biografia de hannah arendt.: ela lia 'levantando a cabeça' com freqüencia. dizque ela, durante a leitura, era acometida por intensos fluxos de pensamento e iluminação, e largava-se na cadeira, as costas curvadas para a trás, o pescoço também em curvatura, a cabeça olhando para o céu. e assim permanecia. até resolver empertigar-se na cadeira e escreverescreverescrever.

eu ouvia atenta, e esse meu amigo continuou. disse que, segundo alguma psicologia, fazemos o movimento de olhar para cima quando buscamos clareza sobre abstrações e, para baixo, quando o esforço é dar concretude a essas abstrações. ele fez uma comparação linda: a melancolia ou a introspecção que nos acomete em dias de chuva.

fiquei pensando sobre isso e, hoje, sexta-feira santa, chove. essa lembrança me é muito forte: toda sexta-feira santa chove. aqui em casa não comemos carne, e também não tem bacalhoada - na minha família, a bacalhoada sempre foi aos sábados, porque 'fazer bacalhoada em dia de penitência, reclusão, introspecção, é contradição demais', diz sempre minha mãe, quando nos lembra o motivo de não comer carne: sacrifício. sem esbanjar, sem comemorar, sem efusiva festança, que o sábado de aleluia está aí pra anunciar. pois é, sexta-feira santa. introspecção, recolhimento. e chove. o movimento? a condensação das abstrações, tão densas, tão densas, tão densas, que caem, quer vultosa quer serenamente em direção ao concreto - ou ao coração, se assim preferirem (eu prefiro) - da terra.

e não pára por aí: escorrem e tomam a forma que convém ou a forma possível? as gotas se fundem com o vento (me encanta, desde muito menina, observar os encontros das gotinhas no vidro do carro, o carro em movimento e elas se encontrando, eu ficava na torcida para escorrerem mais lentas, mais rápidas, fundirem-se, se desfundirem); acomodam-se nas superfícies que, num deslize de retidão, recebem a água que vem dos céus; infiltram-se em solos mais ou menos arenosos; percorrem longos caminhos até seu fim provisório: o encontro das águas. porque seu fim último não existe. não há finalidade nem final, e isso a gente aprende desde criança: é tudo ciclo.

Saudades, de Mia Couto

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Wednesday, March 03, 2010

mulher comum

sou uma mulher comum, como você. cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo. poesia? cotidiana, embora em descompasso e corriqueiramente atropelada pelo ritmo do pau-de-arara. são nossos corpos de sonho e margarida que seguem, sangue e samba, enquanto gira inteira a noite sobre a pátria desigual. a vida nós a fazemos nossa, cantando em meio à fome e dizendo sim – em meio à violência e a solidão dizendo sim – pelo espanto da beleza. não digo que a vida é bela; tampouco me nego a ela – digo sim.

livre inspiração e adaptação, minha, sobre os poemas de ferreira gullar: 'homem comum' e 'digo sim'.

Tuesday, February 16, 2010

caso de carnaval

me encontra amanhã, virando a terceira esquina depois da última nuvem de chuva.

Wednesday, January 20, 2010

das saudades, também

existem dois tipos de saudade, e ambos enchem os olhos de lágrimas. o primeiro é o que enche os olhos de lágrimas por dentro, com a alegria da memória e do reencontro breve, possível, certeiro. o segundo inunda a alma e transborda pelos olhos, por fora, escorre no rosto com a memória do convívio ou de qualquer lembrança ocasional, e com a certeza do nunca mais.

[de quebra, e porque o título desse post quase foi 'das saudades que deixo estar embora', vou colocar uma poesia minha aqui:]

Dissimulada
Stella Paterniani

Se perguntarem
- e perguntam -
das saudades que deixo estar
embora
descortinado olhar rechovendo,

diz do sol, das gentes, das ruas
- como te digo eu -
e diz que de mim resta
a vida con-
tudo
afora
caminhos de tenra solidão.

É que não deixo,
não sinto
(sinto)
toque de outra mão.

Diz do teu botão de rosa,
das ruínas que deixei.
Diz amor, cantar, pomar,
imensidão.
Diz do mar e da cidade,
(como arde!)
de metas nossas, desejos, de ti.
Detém-te
(e falo sério)
a dizer do tempo
dos tempos,
dos tempos.

Lavo minhas mãos.

Diz da estrada.
Lama e sonhos.