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Tuesday, April 24, 2012

sobre linhas I


peço-te que imagine uma linha.
imagine o diâmetro exato de seu fio
e se existe ou não um buraco possível de agulha para se fazer travessia.

imagine sua cor, nuançada entre um tom de céu ou areia
ou talvez nenhum desses mas aproximadas cores de lembrança
ou precisas e irresolutas, inelutáveis cores de sonho
quando num continuum diálogo de vigília e só se sabe sonho porque
não sentes dor
o absurdo denuncia
o despertar deixa a dúvida e portanto: sonho

peço-te que então imagine de que é feita essa linha.
se do mais comum material encontrado na natureza
encapsulado e doravante produzido
em fábricas por homens comuns
em vilas por eco-propostas
e consumido como requinte;
se de um raro material;
quão denso;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se num emendo artesanal;
mais ou menos longo;
se sob intervenção infantil multicolorida e dura (pintada com guache) [e esgarçada (do contato com as unhas);
quão maleável.

não me diga nada dessa linha e não a tente reproduzir.
essa linha é o que te é e não me é possível compreendê-la ou imaginá-[la.

podemos, contudo, tomar aulas de arte
e aprender teorias contemporâneas e estudar produções de [assemblage
estudar construção de esgoto e sustentação de casa (é claro que a [linha pode vingar)
enforcar um inimigo
dançar melodias e bater palmas ritmadas
saltar do ônibus no ponto errado
suar a camisa ao passar por alfândegas
cozinhar massas acompanhadas de peixe fresco
colecionar rótulos de importados e pedras não-lapidadas
arriscar um lançamento de pedra e receber bombas que nos fazem [correr
tirar roupas do varal
tamborilar na espera

e fazer, no descanso, ponto-cruz.

Thursday, March 24, 2011

breve ensaio sobre as estações (i)

verão

o verão nada mais é que a letargia. não; o verão é o êxtase, a catarse, a nudez em conforto porque quente. o verão não são gotas de suor; o verão é o sal que marca a roupa, é a boca seca e corpos que entre si deslizam no amalgamado de cheiro denso. o verão é a estação do sexo mais feroz e sensual, é a estação do vigor corporal que garante a tranqüilidade d'alma – porquanto não a contém.

Sunday, November 28, 2010

memórias, as futuras XXVII

a cidade do meu coração tem rios que chegam caudalosos e, lamacentos que se tornam, perdem o movimento. O empantanamento não sei dizer por donde ocorre; talvez por adensamentos acompanhados (é a tendência) de inação. inação quer pelo encanto, quer pelo sufocamento. mas arrisco dizer: tal empantanamento não é mais que circunstancial. acontece conforme as acontecenças - habitantes do meu coração - são nomeados. sim, nesse vai-e-vem:
1- quando os acontecimentos (as acontecenças, prefiro) sabem-se povo da cidade do meu coração e
2- quando a eles dá-se nomes não-inventados, em tentativa (e sob argumento) de comunicação. (porque os adensamentos são agora feitos de gesso)

mas felizmente tem-se que: o membro engessado coça, exige atenção. o percurso pode ser árduo para recuperação do vigor, do viço, da forma. exaurido em disciplina, o coração se orgulha quando de novo se movimenta!

- [isso deve ter efeito de travessão, entre linhas]

mas logo e de novo vêm os nomes e lá vamos tornar pântano novamente o membro-rio então agitado. como romper com esse ciclo vicioso? abster-se de nomear não adianta (há de se prezar pela comunicação). tampouco mudar os nomes (é trocar seis por meia-dúzia). não há como quebrar o ciclo?

Sunday, April 11, 2010

variações sobre o mesmo tema

quer à primeira vista, quer na lenta transformação da amizade virando-alguma-coisa-diferente-que-não-sei-bem-o-quê-é; na concretização mais romântica do platônico, com direito a jantar à luz de velas; no hedonismo embriagado do dionisíaco uma-noite-e-nada-mais: todo amor já nasce viciado.
pode ser meticulosamente arquitetado, como os dados ocos com peso de resina precisamente no centro do lado do número seis; como pode ser também o vício que se instaura aos poucos, da maconha à heroína, e vai nos consumindo até tornar embaçada a distinção entre sujeito e objeto de desejo. até dissimular quem escolhe, quem decide, quem consome, e o quê é consumido.
então a diferença fundamental, e que deixa toda história de amor bonita, reside justamente nos desenrolares: se o amor já nasce viciado, no mesmo instante em que nasce, contudo, já é único. pois os instantes que vão se sucedendo em cada história são instantes-já, como diz clarice lispector. irreversíveis, intangíveis, impossíveis de não-serem, ao passo que, por definição, são. é ao mesmo tempo um alento e uma qualidade: mais ou menos como dizer que, se todo amor nasce viciado, as possibilidades de vício são geridas pela verdade idiossincrática de cada pessoa, ou melhor, de cada uma das pessoas que compõe o par (ou trio, quarteto, quinteto...) amoroso. As possibilidades de vícios existem na proporção em que cada um já tem sua história e seu modo de contá-la. Na medida em que não existem impressões digitais idênticas, ou em que em cada gole de cerveja reside uma novidade, uma aflição.
Na medida em que cada dança pode ser sincopada ou lenta, e, para cada caracterização existem ainda (no mínimo) um novo par de possibilidades que se abre. a dança lenta apaixonada numa noite quente de verão seguida de beijos lascivos e roupas ao pé da cama, o telefonema da ex no dia seguinte quando há outros braços ao redor, um cigarro entre vestir o sutiã e o par de sandálias, um suspiro e a meia-volta arrependida (porque a gente sempre volta pro vício, ou ele pra nós; a ordem nem importa), por exemplo, é só uma possibilidade da combinação de todos os elementos passíveis de permutação (incluídos aí todos os imprevisíveis - a esmagadora maioria). delícia de vício.

Friday, April 02, 2010

de livros, chuva e encontros

ontem estava na sala dos professores da escola onde funciona o cursinho popular do qual participo e, entre uma aula e outra, folheei um livro de roland barthes, 'o rumor da língua'. o livro é uma coletânea de pequenos artigos, e cheguei a ele através da indicação de uma admirável professora. a idéia era ler um artigo em que ele fala de benveniste, lingüista, para tentar entender um pouco mais do paradigma em que repousa a etnografia de jeanne favret-saada, uma antropóloga em cuja obra estou mergulhada nesses tempos.

mas um dos motivos pelos quais realmente gosto de pegar livros na biblioteca - e não simplesmente tirar xerox de um ou dois artigos ou capítulos selecionados pelo professor, cujas cópias ficam à espera dos estudantes, numa pasta no xerox - é porque folheá-los realmente me é muito prazeroso. folhear um livro é como observar um quadro de diversos ângulos, espreitar a construção - meticulosa ou não - da obra concreta que está em nossas mãos. e eis que, folheando o livro de barthes, caí justamente num artigo em que ele fala da escrita e, mais detidamente, da leitura. de como a leitura é o locus da perda de controle do escritor sobre o leitor. porque a leitura, ou ao menos um tipo de leitura, suscita, por vezes, outros pensamentos em cascata na cabeça do leitor.

e barthes chama essa leitura da leitura 'levantando a cabeça'. desafia: quem nunca leu 'levantando a cabeça'? é a leitura em que nos acometem pensamentos muitos, é a leitura ao mesmo tempo desrespeitosa (o termo é de barthes), pois interrompe o texto a toda hora, e faz conexões possivelmente inimagináveis ao escritor, e fiel, passional, pois é ao próprio texto que o leitor sempre retorna, se nutrindo dele, em movimento de vertigem - aproximação e autonomia (agora os termos são meus).

e li o trecho do ensaio apaixonante e apaixonado (barthes não economiza ao demonstrar seu amor pela literatura) para um amigo meu, também ali, na sala dos professores do cursinho, terminando de preparar sua aula - de redação. li o trecho sobre a leitura 'levantando a cabeça', e ele disse que certa vez ouviu ou leu, de alguém ou em algum lugar, sobre a biografia de hannah arendt.: ela lia 'levantando a cabeça' com freqüencia. dizque ela, durante a leitura, era acometida por intensos fluxos de pensamento e iluminação, e largava-se na cadeira, as costas curvadas para a trás, o pescoço também em curvatura, a cabeça olhando para o céu. e assim permanecia. até resolver empertigar-se na cadeira e escreverescreverescrever.

eu ouvia atenta, e esse meu amigo continuou. disse que, segundo alguma psicologia, fazemos o movimento de olhar para cima quando buscamos clareza sobre abstrações e, para baixo, quando o esforço é dar concretude a essas abstrações. ele fez uma comparação linda: a melancolia ou a introspecção que nos acomete em dias de chuva.

fiquei pensando sobre isso e, hoje, sexta-feira santa, chove. essa lembrança me é muito forte: toda sexta-feira santa chove. aqui em casa não comemos carne, e também não tem bacalhoada - na minha família, a bacalhoada sempre foi aos sábados, porque 'fazer bacalhoada em dia de penitência, reclusão, introspecção, é contradição demais', diz sempre minha mãe, quando nos lembra o motivo de não comer carne: sacrifício. sem esbanjar, sem comemorar, sem efusiva festança, que o sábado de aleluia está aí pra anunciar. pois é, sexta-feira santa. introspecção, recolhimento. e chove. o movimento? a condensação das abstrações, tão densas, tão densas, tão densas, que caem, quer vultosa quer serenamente em direção ao concreto - ou ao coração, se assim preferirem (eu prefiro) - da terra.

e não pára por aí: escorrem e tomam a forma que convém ou a forma possível? as gotas se fundem com o vento (me encanta, desde muito menina, observar os encontros das gotinhas no vidro do carro, o carro em movimento e elas se encontrando, eu ficava na torcida para escorrerem mais lentas, mais rápidas, fundirem-se, se desfundirem); acomodam-se nas superfícies que, num deslize de retidão, recebem a água que vem dos céus; infiltram-se em solos mais ou menos arenosos; percorrem longos caminhos até seu fim provisório: o encontro das águas. porque seu fim último não existe. não há finalidade nem final, e isso a gente aprende desde criança: é tudo ciclo.

Wednesday, January 20, 2010

das saudades, também

existem dois tipos de saudade, e ambos enchem os olhos de lágrimas. o primeiro é o que enche os olhos de lágrimas por dentro, com a alegria da memória e do reencontro breve, possível, certeiro. o segundo inunda a alma e transborda pelos olhos, por fora, escorre no rosto com a memória do convívio ou de qualquer lembrança ocasional, e com a certeza do nunca mais.

[de quebra, e porque o título desse post quase foi 'das saudades que deixo estar embora', vou colocar uma poesia minha aqui:]

Dissimulada
Stella Paterniani

Se perguntarem
- e perguntam -
das saudades que deixo estar
embora
descortinado olhar rechovendo,

diz do sol, das gentes, das ruas
- como te digo eu -
e diz que de mim resta
a vida con-
tudo
afora
caminhos de tenra solidão.

É que não deixo,
não sinto
(sinto)
toque de outra mão.

Diz do teu botão de rosa,
das ruínas que deixei.
Diz amor, cantar, pomar,
imensidão.
Diz do mar e da cidade,
(como arde!)
de metas nossas, desejos, de ti.
Detém-te
(e falo sério)
a dizer do tempo
dos tempos,
dos tempos.

Lavo minhas mãos.

Diz da estrada.
Lama e sonhos.

Sunday, June 08, 2008

'You better take off your homburg'

Eu gosto muito quando, no meio de uma conversa com alguém, consigo obter um esclarecimento pra mim mesma de algo referente à minha vida, minha história de vida, meu momento presente, minha personalidade ou alguma coisa que paira ou se transporta entre essas categorias e o que elas sugerem.

Ontem vivi uma experiência desse tipo. Eu não costumo fazer deste blog um diário explícito, expressamente. Mas acho que hoje o post vai caminhar pra isso. Até porque, se forma e conteúdo não se dissociam e o como dizer importa tanto quanto o o quê dizer, um post um pouco mais intimista e ativo na construção de laço expresso entre o escritor e o leitor vem a calhar.

Pois bem, quando acreditamos ou sentimos que estamos entrando numa fase de crise (ressalva aos que se dizem sempre em crise: me refiro a uma crise específica), é de engrandecer perceber como essa fase se liga com seu passado, sua formação, seu ser.

Como a gente faz quando se percebe preso, e quando não nota mais nenhuma possibilidade de ação ao seu redor? Nenhuma possibilidade de ação que expresse - por corpo, alma, letras, canções, conversas! - uma forma de pensamento e de organização de mundo alternativa. Explico: depois de entrar com contato com uma relativa gama de organizações, instituições, movimentos sociais, partidos políticos, grupos de discussão, coletivos de ação direta etc., que têm (ou dizem ter) em comum uma visão de mundo alternativa à dominante (ou seja, alternativa à instrumentalizada, à que se regula pela análise calculista do custo-benefício), vejo que as práticas de tais grupos, quando analisadas a fundo, levadas ao extremo ou simplesmente entendidas e internalizadas, não propõem outra forma de pensamento que não essa do cálculo custo-benefício, que acabei de explicitar. Ora, se forma e conteúdo são indissociáveis, o não-abandono do pensamento puramente estratégico não te coloca em nível diferente do seu oposto só porque 'seu fim é mais nobre que o do Outro'. Ou, para não me restringir a juízos de valor (do tipo 'mais nobre que'), posso formular da seguinte maneira: ainda que o conteúdo seja radicalmente diferente, se a forma através da qual este conteúdo é aplicado - ou, ainda, a própria noção de necessidade de aplicabilidade do conteúdo - esvaziam a proposta 'alternativa', 'revolucionária', ou o nome que vocês quiserem dar a isso.

Digressões à parte, o imobilismo ou a inação me angustiam. Angustiam porque - e isso foi o que descobri ontem, numa performance fantástica - durante minha adolescência, minhas maiores angústias diziam respeito à impotência. Os problemas que me vinham chegavam prontos, e eu não percebia nem vivia seus surgimentos, suas formações. O que me restava era o aguardo do curso da vida para resolvê-los ou sedimentá-los, em dimensões processuais muito lentas - o que faz sofrer muito a qualquer um disposto a questionar origens, causas e conseqüências.
Deixando um pouco de lado a dimensão psicológica e a 'sessão terapia', a questão da qual trato hoje, incessantemente, é se é possível à política e à vida transcender a dimensão meramente estratégica.

Penso 'política' como relações de poder. Imbuídas, sempre, de referenciais simbólicos, de significações. É possível um mundo onde as relações de poder se horizontalizem? Em que cada ser humano possa desenvolver suas potencialidades e realizar seus desejos à sua maneira? É claro que é possível política sem opressão. Mas a limitação da dimensão estratégica ainda me parece longe de ser superada.

Não prego, de modo algum, o abandono do pensamento estratégico. Tampouco o abandono da técnica, das reproduções, daquilo que alguns chamam de massificação e a minha pitada de otimismo quer defender como democratização. Quero é ver a criatura se rebelar contra o criador.

As coisas que escrevi aqui estão longe de estarem esgotadas. Pelo contrário! São indicações de algumas temáticas que estarão e estão por detrás do meu discurso nos últimos e próximos tempos.

E, pra finalizar, música bonita:

Your multilingual business friend
has packed her bags and fled
leaving only ash-filled ashtrays
and the lipsticked unmade bed.

The mirror on reflection
has climbed back upon the wall
for the floor she found descended
and the ceiling was too tall,

Your trouser cuffs are dirty
and your shoes are laced up wrong.
You'd better take off your homburg
'cause your overcoat is too long.

The town clock in the market square
stands waiting for the hour
when its hands they both turn backwards
and on meeting will devour
both themselves and also any fool
who dares to tell the time.

And the sun and moon will shatter
And the signposts cease to sign.

Procol Harum - Homburg

Wednesday, May 28, 2008

contestation

Sejamos realistas, exijamos o impossível.

Em francês, contestation. O ápice da negação descarada e convicta e, talvez por isso mesmo (e isso já é inserção minha), rumo à proposição da construção do novo pela negação do atual.
É bonito, mas não é só bonito, ver Marx e Valery e Breton e Debord e Godard juntos, esculpidos e ordenados em paralelepípedos e em harmonioso compasso de idéias! - note-se: não é retórica vazia.

Por hora é só um prelúdio de alguma melhor elaboração formalconteudística e uma nota de recomendação do livro de Carlos Fuentes, Em 68 - Paris, Praga e México. Publicado aqui pela Rocco, neste ano.

Monday, April 07, 2008

Sobre o esboço, tanta arte

Normativamente, é importante dizer, um esboço é caracterizado pela sua incompletude. Por não estar terminado, concluído e acabado. Incrível, talvez contraditória mas – creio – justamente pelo traço da fragilidade, um esboço contém sempre algo de mais instigante, de deliciosa obtusiodade [o ato de ser obtuso], de encantamento. O esboço é a arte feita e por fazer, é a dialética de preenchimento e vazio, o encontro transcendente entre escritor e leitor, formadores e conformadores, talvez a partir – mas tendo a crer que apesar – da experiência.

Porque vejo a experiência como destruidora da criatividade e da esperança. Humildemente tomo esta idéia emprestada de um pensador maior, visto que não brotou em mim, mas fui por ela contagiada através de uma de muitas leituras que me chegam, oportunamente, através de pessoas queridas, momentos imprevisíveis, arroubos de sensitivismo ou qualquer outra coincidência que alguns insistem que a conjunção dos astros pode justificar ou explicar – eu não duvido.

Digo, não duvido, mas tampouco creio. Os índios, li em um antropólogo arrogante, inventam suas verdades a todo o tempo, quer por brincadeira, quer por ingenuidade, quer por serem elas mesmas as verdades, quer por serem as mentiras que devem – e são, portanto – contadas. Pois bem, também não creio em bruxas, mas que elas existem, existem. Suspendamos a discussão de cunho estrita e explicitamente espiritual e religiosa e continuemos.

Após introduzir o esboço como encantamento, permita-me a exaltação de qualquer tipo de deslumbre. Encantar-me, hoje, é meta primeira de minha vida. Rechaçar os padrões de cultura, os domínios do capital e a superficialidade das relações. Embriagar-me das virtudes que eu, e somente eu, vejo em cada mulher e em cada homem. Deliciar-me com os carinhos e as sutilezas – envoltas, explícitas, enlameadas, dissimuladas e dissolutas – de cada qual que me cruza o caminho e me pede – ou peço eu – um pouco de tempo.

Porque o tempo, ensinaram-me, é único de cada relação. São os tempos, por assim dizer, os estruturantes das peculiaridades de cada relação humana. Relação indefinida, não só por toque, respiro, suspiro, brisa, olhar ou verborragia; relação indefinida. Escrevo apenas na negatividade de uma passível limitação, para estender o caráter humano às mais maravilhosas unicidades possíveis. Embora não viva só no tempo do possível. O tempo do desejo, o tempo da tolerância, da autonomia e do cuidado, das mediações entre ser, mostrar e parecer; são todos tempos do não-possível. Por serem tempo são também realidade.

É o ato do concreto, a respiração ouvida que faz meus anseios crescerem exponencialmente. Não quero a intolerância dos infelizes, quero as experimentações sem precedentes, as experiências sem opressões. Quero a magia de um mundo sonhado, imaginado e vivido e sentido e apalpado. Dentro da realidade que construímos, esse mundo também tem seus tempos. E suas realidades.

É o mundo que dói, sim, ainda dói, e a dor pode, sim, continuar insuportável. Não é um mundo mais aceitável; nem ele por nós nem nós por ele. As concretudes das dores tornam a vivência ainda mais insuportável, tanto aos olhos de quem as vive como aos de quem as sente. E, embora a crueza da realidade soe tão dura a ponto de furar os tímpanos, não se desiste nem se desespera.

Desespero é para os que não tiveram, ainda, coragem de encarar o mundo com os pés fincados no chão e o olhar no horizonte, atravessando perceptivelmente as portas, janelas, os muros e construções no caminho. Desistência não enfraquece, nem tira a força dos persistentes; desistência é estado de espírito; não estado de ser. Desistência nos acomete diariamente, mas é justamente por sua falta de consistência que não deve nos consumir (e não consome). A esperança não-aniquilada não cede à desistência, ainda que seja este o seu desejo.

Porque a magia persiste no mundo, talvez nas consciências individuais, talvez em sentidos, subjetivos e objetivos, encontrados nos mais diversos lugares, espaços e tempos. Talvez a magia persista porque o estado da magia é o estado da busca. E o estado da busca é o estado da esperança não-aniquilada. E por mais que o raciocínio esteja circular, não me desespero. Isso é só o esboço de tanto que está por vir.