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Tuesday, June 09, 2015
Thursday, August 23, 2012
uma história possível do jardim em frente ao bradesco
eu fui
atropelado. fiz aquele jardim ali, vê como está bonito, as
mudinhas, o desenho da terra todo alinhado, vê. dá gosto olhar, né
não? aqui debaixo é tudo buraco. é tudo buraco debaixo dessa
cidade, sabe, eu não bebia, cavei esses buracos todinho. mas você é
bonita, hein? me lembra minha filha quando moça, ela me deu três
netos, tudo homem, varão. nenhum deles sabe fazer jardim. sabe, pra
fazer jardim tem que ter muito silêncio dentro de você. não é
saber que planta que pega bem, é saber que planta o jardim ali quer,
fazer todos os convites, sabe, honraria? jardim precisa de honraria.
fui muito mais feliz fazendo jardim do que cavando buracos. claro que
falar que fiz essa buracaiada aí impressiona, né, eu e meus
companheiros, mas a gente nem anda nesses trem, não. eu gosto é do
jardim. ninguém olha pro jardim, só querem saber do trem mais
rápido e mais moderno, dizque tem trem que nem motorista tem. é que
não bate sol, já basta eu não ver o sol nunca nunca nunca porque
agora bato ponto de segunda a sexta, já basta acordar no escuro,
sair de casa no escuro e voltar já tá escuro de novo, quando é
folga eu faço jardim. não me meto nos buraco pra ir lá pra zona
norte, nos churrasco dos companheiro, ah não. gente também precisa
de sol. a honraria do meu jardim é eles receberem meu sol todos os
dias. e me convidarem quando é folga, é. pois fui atropelado,
menina, então, é por isso que tô pedindo pra você usar essa
tesoura e podar aquele galho ali pra mim, faz favor.
Sunday, May 22, 2011
uma bebida mais forte
porque essa insistência em vestígios de amor numa relação tão violenta. porque os pés gelados num dia frio, zanzando pela casa, num quase automatismo de auto-flagelo. porque os músculos doloridos de uma noite sem memórias. porque as brechas, as frestras, o intransponível, o indizível, o indecifrável e a espreita. porque o erro, e só ele, é que faz sentido, confidenciaram-me. agarrei-me a essa máxima e não solto até o soluço passar.
Thursday, November 04, 2010
corazón
tirei o relógio de parede que ficava na sala de casa. dependurei, tirei as pilhas e o abandonei em cima da pilha de revistas (intocadas há semanas). podia ser o seu cheiro, ou outro, tanto faz, que o tic-tac do relógio me trouxesse. mas não traz mais nada. como pode um objeto ter ou não ter história, aflorar-nos tanto na memória? tirei também o pó de um ou dois dias acumulado nos santos que circundavam meu cantinho espiritual. suspirei, sim, não tem como abrir o coração sem suspirar. às vezes abre-se sem sequer a intenção de vasculhar, mas os suspiros afloram e se fosse diagnosticar eu diria: cardiopatia grave, porque o coração retumba e ecoa, e a respiração muda (arfante ou contida, passa-se a percebê-la, e respiração é dessas coisas que quando se percebe é porque chama a atenção, e se chama atenção é porque algo de extraordinário há, e se é extraordinário pode bem ser errado, e aí nos preocupamos, quando é com alguém querido, e suspiramos, quando é dentro da gente, mesmo, porque o suspiro é o diagnóstico que o próprio coração dá à cardiopatia). virei-me, abri as cortinas, não teve brisa a brindar-me: é verão neste hemisfério, e as noites cada vez mais densas.
Monday, October 18, 2010
memórias, as futuras I
a cidade do meu jovem coração foi erguida em torno de duas ruas principais (ruas, e não avenidas, que é tudo muito delicado). não foi nada planejada, mas tampouco beira o caos; é uma ocupação sentimental, sem desespero, com alguma calma e permissão para um ou outro pouso provisório até achar a esquina ideal para se aconchegar. foi então quase natural fazer morada ali, entre a rua dos suspiros e a alameda da memória. com vista pro mar, nenhum luxo. tem esgoto a céu aberto logo ali em frente, e uns ninhos de passarinho que não dão sossego. mas o mar tem sereias que cantam na lua cheia, os vizinhos cozinham em uníssono aos domingos, as árvores estão ora floridas ora com seus galhos todos à mostra, corajosas que são. eu não durmo sozinha e a família está por perto.
Sunday, October 17, 2010
solidão, palavra
é madrugada quente e abafada aqui na cidade. não tenho uma janela alta pra me perder na luz dos faróis, enebriada com seu cheiro. o calor nãoé tanto a ponto de pedir um banho frio, não, mas é isso que me proponho. banho frio, água na cabeça, passadas as horas difíceis do cair da tarde. banho frio que é pro calor escorrer pescoço abaixo e empoçar nos pés, que é pra ver se você também sai um pouquinho só um pouquinho de mim, e toma forma de alguma outra coisa que não a dessa solidão ingrata. e aí nem adianta, porque é um tal de lembranças e pessoas e memórias e saudades que me compõem... por quê é que as saudades, quando vêm, embolam tudo e se manifestam no quente da lágrima que a gente nem sabe o dono?
Thursday, October 07, 2010
memórias IV
não conheci minha mãe. e aí cresci e encasquetei que era filho de sereia. embora minha respiração não fosse de bolhas de sabão (como devia ser a respiração dos filhos de sereia), e meu andar não fosse bailarinesco como devia ser o andar dos filhos de sereia, minhas sardas e meus os olhos cor de mar, que a vó me explicou que morava um mar dentro de mim, me davam alento: era claro que eu era filho de sereia, dessas que cantam bonito, namoram os pescadores e eles inventam histórias (eu nunca precisei pegar um peixe grande pra impressionar). um dia, ainda nem era tão crescido, mas andava sozinho sem desequilibrar, encarei o mar pela primeira vez. quando a onda veio mansa tocar meus pés e me convidar, entrei, avisando: voltaria quando escurecesse, que meu coração não era daquele mundo não.
Wednesday, September 22, 2010
cochilo no frio
clareia-se de luz vindoura não sei d'onde o cômodo mais úmido que o normal. respiro e é doloroso acordar, como o é em toda despedida travestida de ânsia adolescente por ritmo. há que se ouvir o corpo, penso, esfrego os olhos e me levanto com cuidado, retorcendo as costas. talvez já seja tarde demais, mas - num átimo minha sensatez de tempo-espaço toma as rédeas e me tranqüiliza: ainda é cedo. dá pra voltar a dormir e arriscar um sonho.
Tuesday, September 14, 2010
memórias III
não tenho nenhum apreço por este apartamento, te digo. minhas memórias estão espalhadas e não é na outra casa nem nas salas de cinema, bibliotecas, parques, aviões. minhas memórias estão nas folhas que caem nas praças marginais das cidades, as que têm banco de concreto e mato e às vezes um pé de tênis sem cadarço ao lado de uma garrafa, ou uma criança que corre. estão em colagens que passam desapercebidas nos centros da cidade, nos rabiscos nas últimas folhas dos cadernos adolescentes; algumas estão em portas de banheiro público, um pouquinho numa rodoviária pré-feriado, aí sim. na rua de uma cidade do interior com o sol amanhecendo num domingo dia-das-mães, eu muito jovem, reconhecendo a cidade, insone. minhas memórias estão na retina de um senhor simpático com sotaque argentino que me diz galanteios e eu, menina de tudo, enrubesço. no café fraco da minha avó, misturado com cheiro de queijo meia-cura e o sotaque que me traz alento e raiz. minhas memórias estão na cicatriz que marca o dorso daquela mulher, do umbigo até quase a lateral do seio, e nas coisas bonitas que me dissera. minhas memórias não são palavras, mas o que as palavras fizeram em mim. minhas memórias pairam, assim. adoçam um bom dia. são o ramo bento prestes a ser queimado pra santa bárbara proteger a casa quando chove tempestade. minhas memórias não cabem em mim, e é também por isso, um pouco por isso, que as compartilho.
memórias II
eu gosto muito de xadrez, mas odiava um xadrez desarmonioso que minha irmã sempre usava. acho que era bordô. ou lilás, mas sem charme algum. vestia sempre e ia regar as plantas, mas o meu cacto ela regava só de vez em quando, como eu tinha ensinado, que é pra ele não acumular um monte de água e morrer. eu gostava do cacto no meu quarto, tinha um cantinho pra ele lá, todo especial. mas quando ele começava envergar implorando pela janela eu deixava ele uns dias no quintal tomando um solzinho. minha mãe me ensinou o nome desse arrastamento que é: fototropismo, mas eu acho que era agonia. eu, se fico uns dias sem ver sol, me arrasto pela casa e perco a vontade de sair. evito as janelas. mas não sempre. se vejo alguém entrar corado, fico envergonhada, corro me pintar e finjo. desço e subo, pela escada, algumas vezes. se tenho meus óculos escuros, dou uma voltinha pelo bairro, sim, cumprimento quem passa, quando subo de novo preciso me sentar que meu coração acelera. são muitos os lances de escada, e muito a vida propõe. mas olhe, quando você for sair, encoste a porta. já já os mais novos levantam e não quero que peguem friagem.
memórias I
minhas memórias são retalhadas. eu nunca sofri um acidente de carro e tenho cicatrizes do tamanho de um casco de jabuti. jamais precisei esfregar o pára-choque do carro pra limpar vestígios de sangue de um atropelamento ocasional. mas minhas roupas são impregnadas de respingos amarronzados. eu não sei a máquina de lavar ainda está enferrujada, talvez seja isso, ou o varal. não me lembro da casa onde passei a infância, mas tenho cá comigo uma primeira vez de lágrimas rolando, meus primos ao meu redor. não tinha sangue nem pancada: era um passarinho-meio-ovo que caíra com a bola que eu não segurei no gol. e ficou ali espatifado, e nós todos tão crianças com aquela dor tão imensa e a culpa pelo passarinho-meio-ainda-ovo no chão. porque ele ainda não sabia voar. me lembro também de um hospital, muitos anos depois, uns cabelos brancos e a falta de ar que eu disfarçava quando entrava e dizia o 'bom dia' mais alegre que conseguia. morria um pouquinho sempre que punha os pés naquela branquidão, e quando percebi que o tom era igualzinho ao de casca de ovo, vomitei.
Sunday, August 29, 2010
um carinho
- é como uma caixinha de música, ela poderia ter dito, rodopiando displicentemente o indicador, num movimento circular que não se concluía com precisão e se alongava num carinho no meu antebraço.
- pode ser a valsa mais conhecida; se tocada numa caixinha de música, comove e encanta sem precedentes.
eu poderia ter fechado os olhos, então, e roçado as costas da minha mão bem de leve na penugem de seu rosto. e ouviria, num suspiro:
você? ué, você é minha caixinha de música, ou minha valsa. é tanto que tanto faz.
e estalaria um beijo.
- pode ser a valsa mais conhecida; se tocada numa caixinha de música, comove e encanta sem precedentes.
eu poderia ter fechado os olhos, então, e roçado as costas da minha mão bem de leve na penugem de seu rosto. e ouviria, num suspiro:
você? ué, você é minha caixinha de música, ou minha valsa. é tanto que tanto faz.
e estalaria um beijo.
Tuesday, August 24, 2010
retratos possíveis de um par de mãos
'mas essa gente aí, hein? como é que faz?'
adoniran barbosa, despejo na favela
adoniran barbosa, despejo na favela
eu gosto da maneira como as cenouras chegam fatiadas ao meu prato. eu não domino a arte de fatiá-las desse jeito; parecem maiores do que uma rodela de cenoura pode ser; maiores e mais saborosas.
mas eu não sei nada das mãos que as fatiaram. não sei se gostam de cenoura, se já almoçaram ou se, famintas, petiscam sorrateiras um brócolis dando sopa. não sei de seus planos, se seus filhos já lêem ou se elas já viram o mar. não sei se trabalham aos domingos, se preferem picanha ou feijoada, se assistem a novela das oito passando roupa ou de olho na panela no fogo pro almoço do dia seguinte. não sei se já tiveram que se defender de ameaças violentas; se, descontroladas, tiveram acolhimento; se cuidaram de algum coração em despedaço. não sei se têm rugas de tempo vivido, de acúmulo de sofrimento, de descuido em lavar roupa com pedra-sabão. não sei se essas mãos têm alianças abençoadas de uma união alegre. se o calor delas é cotidianamente compartilhado com o de outro par; e se o par é sempre o mesmo, se o toque é macio embora as mãos sejam ásperas, ávidas por conforto. não sei qual foi a última vez que essas mãos tiveram o cuidado que deveriam ter. sei que, esplendorosamente, cortaram cenouras há algumas horas atrás. mais nada.
Tuesday, August 10, 2010
uma breve história de amores (ou: tempo da delicadeza)
houve um tempo em que eu partia. quase todos os dias, quase sempre à mesma hora, deixava aquele reino tão íntimo e tão compartilhado, para me reinserir no outro cotidiano, igualmente real, que continha tantos sonhos quanto o outro, e assustava um pouco menos.
depois ousei ficar. por uma ou outra hora a mais, desafiar a rotina traçada. varar alguns dias, perder alguma noção do tempo.
foram alguns, esses tempos de ousar ficar. e foram vários os ficares ousados. distintos entre si, sempre repletos de significados (até na ausência de sentido, quando era o desafio do susto do absurdo que eu buscava).
sucedeu-se que agora havia o tempo da dança. da harmonia entre o ficar e o partir. até que... da harmonia fez-se a síncope. e não é a síncope que faz o samba? a dança se encheu de retumbares.
e do meu coração em arritmia, como na falta de ar imediata, faço suspender, até segunda ordem, os toques que enchem d'água atrás dos olhos.
suspendo o sorriso que jogo pro céu quando você me diz amores com seus olhos depois que me beija. fica em suspensão minha entrega. suspensão de suspiro, na calma da memória e do coração.
depois ousei ficar. por uma ou outra hora a mais, desafiar a rotina traçada. varar alguns dias, perder alguma noção do tempo.
foram alguns, esses tempos de ousar ficar. e foram vários os ficares ousados. distintos entre si, sempre repletos de significados (até na ausência de sentido, quando era o desafio do susto do absurdo que eu buscava).
sucedeu-se que agora havia o tempo da dança. da harmonia entre o ficar e o partir. até que... da harmonia fez-se a síncope. e não é a síncope que faz o samba? a dança se encheu de retumbares.
e do meu coração em arritmia, como na falta de ar imediata, faço suspender, até segunda ordem, os toques que enchem d'água atrás dos olhos.
suspendo o sorriso que jogo pro céu quando você me diz amores com seus olhos depois que me beija. fica em suspensão minha entrega. suspensão de suspiro, na calma da memória e do coração.
Monday, May 31, 2010
o casamento
no início, sentira asco. não pelo odor, nem pela aparência; mas pela sensação de sentir o sebo em sua pele. as experiências com a pele transcendiam-lhe o sentido do êxtase e da lucidez. escrevia na pele; ensaiava o mundo e a vida; cobria-se com roupas comuns. subvertia qualquer comunicação. gravurava em si delicadezas e agressões em níveis de que só ela tinha plena compreensão. o brilho de olhos e a unha imunda. ia à padaria, trabalhava no jardim, tecia amigos invisíveis. mente em brasa e corpo em flor.
Saturday, May 22, 2010
quarta ou quinta-feira
na manhã clara, ressonância do sonho e acalanto de fundo, passo por mulheres e homens. destemidos, seguem obstinados o caminho corriqueiro ou excepcional. extraordinariamente, o sol se movimenta ao centro, e, ao centro e avante, também eu continuo, e valseio num assobio.
Tuesday, May 04, 2010
tensão
caminhava entretida com tantos faróis que nem me dei conta que a subida acabara; ele me deteve pelo braço: 'é aqui'. nos despedimos, agradeci a gentileza dele ter me acompanhado, e encarei o prédio. não era tão assustador; seus 17 andares com dez janelinhas por andar me lembraram um documentário que havia visto na véspera, sobre o cotidiano num prédio não tão nobre numa região não tão decadente de outra grande cidade.
no estômago, o suco de abacate carregado no açúcar me nauseava; e qualquer música dançante dos anos 70 insistia em anacronicamente me acompanhar.
fumei algo entre um e três cigarros, esperei pelo tempo duma ambulância passar, e dos letreiros luminosos da farmácia oscilarem - era muita demanda de energia pra um lugar só.
telefonei: 'oi, tô aqui embaixo'.
'já tô descendo', era o ponto de não-retorno.
no estômago, o suco de abacate carregado no açúcar me nauseava; e qualquer música dançante dos anos 70 insistia em anacronicamente me acompanhar.
fumei algo entre um e três cigarros, esperei pelo tempo duma ambulância passar, e dos letreiros luminosos da farmácia oscilarem - era muita demanda de energia pra um lugar só.
telefonei: 'oi, tô aqui embaixo'.
'já tô descendo', era o ponto de não-retorno.
feriado
sonhei com teletransportes e gente vestida a rigor ao ar livre. era um dia frio na sombra, com sol que aquecia a pele por veias dos ramos das árvores viçosas. as pessoas sorriam sinceras, era um sonho bonito e cheio de calor.
acordei sem saber onde estava, sabe como é? que dia é hoje? do mês? da semana? que horas são? mas não é quarta-feira? jurava que a cama era virada pr'outro lado... como esse armário veio parar aqui? (aturdida, sei que falei, os olhos ainda fechados - não havia armário algum).
a resposta veio d'outro corpo, num antebraço macio dono de todo o sentido do mundo.
- bom dia.
acordei sem saber onde estava, sabe como é? que dia é hoje? do mês? da semana? que horas são? mas não é quarta-feira? jurava que a cama era virada pr'outro lado... como esse armário veio parar aqui? (aturdida, sei que falei, os olhos ainda fechados - não havia armário algum).
a resposta veio d'outro corpo, num antebraço macio dono de todo o sentido do mundo.
- bom dia.
Friday, April 16, 2010
apenas
era pra ser só mais um copo de cerveja, o colarinho impecável e a espuma se erigindo e equilibrando elegantemente por sobre toda a borda do copo americano. uma marcha transpassada, tocada pelo pianista do andar de cima; um telegrama do marido preso pelos militares; o alívio de passar na prova de epidemiologia mereciam muitos copos de cerveja. mas a ânsia brotou, talvez de um corpo moreno despertando-lhe asco enquanto a tentava seduzir naquele ambiente claustrofobicamente ensurdecedor, talvez aqueles músculos enrijecidos atentaram contra qualquer conforto interno, e também ela toda passou a se contorcer.
não havia nada de escatológico nos seus movimentos, só o impelir-se adiante. vomitou, correu, despelou-se à navalha, tosou o cabelo. precisava desvencilhar-se do mundo, esvaziar-se de si e da sua história.
amanheceu.
havia toda a área externa daquela pensão barata para limpar. ela não podia se dar ao luxo de se deprimir e perder as forças, não. jogou um balde d'água para esparramar da maneira mais uniforme possível, ainda que aleatória, a espuma concentrada no chão. esfregava sem se lembrar do colarinho impecável do copo de cerveja. é assim que as coisas se dissipam, ou nem se permite que se condensem.
inspirado numa cena de 'assédio', filme lindo, lindo, lindo, de bernardo bertolucci.
não havia nada de escatológico nos seus movimentos, só o impelir-se adiante. vomitou, correu, despelou-se à navalha, tosou o cabelo. precisava desvencilhar-se do mundo, esvaziar-se de si e da sua história.
amanheceu.
havia toda a área externa daquela pensão barata para limpar. ela não podia se dar ao luxo de se deprimir e perder as forças, não. jogou um balde d'água para esparramar da maneira mais uniforme possível, ainda que aleatória, a espuma concentrada no chão. esfregava sem se lembrar do colarinho impecável do copo de cerveja. é assim que as coisas se dissipam, ou nem se permite que se condensem.
inspirado numa cena de 'assédio', filme lindo, lindo, lindo, de bernardo bertolucci.
Sunday, April 11, 2010
por acaso
ele usava uma máscara branca e preta e vestia suspensórios, o que, junto com seu andar e meneios de cabeça que eu logo supus característicos, confiavam-lhe um ar algo entre o kitsch e o blasé. nada mal para um bloco numa cidade tão provinciana, pensei comigo. é claro que não nos beijamos ao som de 'máscara negra'; eu queria muito menos carnaval e mais folhetim. foi no 'ô ô ô ô' de aurora que nossos olhos se encontraram, e antes de qualquer ladainha sobre sinceridade, amanheci enredada em seus braços.
para ler ouvindo: 'folhetim', de chico buarque.
para ler ouvindo: 'folhetim', de chico buarque.
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