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Sunday, March 13, 2011

not supposed to hit

ela saiu para o trabalho não sem antes carregar na maquiagem um pouco mais do que o costume. pela noite indormida, o corpo já começava a pedir descanso antes das oito da manhã. um banho ora quente ora frio servira para dar realce e acalmar um pouco os hematomas recentes (a água sempre traz as dores pra superfície do corpo, e um roxo se espalhando na pele permite maquiar de dor-de-pancada o choro de sufoco, humilhação e desespero). antes de sair, passou café e alisou a gola daquele colarinho, a camisa impecável num cabide pendurado no puxador do guarda-roupas. tomou uma xícara que caiu de golpe no estômago em jejum. é que se maltratar também é bom, às vezes, quando a encruzilhada inexiste e ser cúmplice na agressão é a única possibilidade. saiu sem dizer palavra; ele folheava o jornal sem reclamar do café forte, a camisa agora ainda semi-abotoada. quando girou a chave já do lado de fora do apartamento, cravou fundo a unha do indicador direito nas costas da mão esquerda: a marca não a deixaria esquecer de pegar as roupas na lavanderia depois do expediente. sentiu o café revirar no estômago, enquanto descia as escadas do prédio: dali dois dias seriam anfitriões no jantar anual da família, e ela sequer tinha pensado no quê servir como entrada. tateou a bolsa, abriu o carro, revirou a pasta com as anotações para a reunião de apresentação dos primeiros resultados que presidiria assim que vencesse o trânsito da cidade. digitou 'bom dia. amo você' no celular, enviou pra filha que mora longe, e deu a partida.

imagem daqui

Monday, June 14, 2010

desvencilhares

para ler ouvindo, talvez, 'i'll follow the sun', dos beatles.

primeiro foi o cd que - e eu juro não ter tratado mal - deu pra só tocar a faixa 10, cismando no não me leve a mal, embalado por aquela voz doce então metálica e irreconhecível. olhei contra a luz, alguns riscos, nada que outros também não tivessem - eu ouço meus cds até criar sulco. de imediato, baixei as músicas - sabia a ordem das faixas de cor - e gravei de novo. num novo que não caía bem. ficou esquecido, até meu irmão encontrar e perguntar se podia usar numa das suas instalações itinerantes. debaixo da poeira acumulada, vi nele as iniciais dos nossos nomes. já fazia alguns meses, nada caía bem. e não caía mal, também - sequer incomodava. dei um meneio de cabeça, cerrei os olhos. a bicicleta ficou imponente com aqueles brilhantes nas rodas refletindo a luz do sol.

depois foi a experiência do primeiro stencil, numa camiseta branca tão surrada que as duas usávamos pra dormir. ficava ora na casa dela, ora na minha, aquele algodão macio de tanto usar e ser lavado. branco já encardido, o preto do stencil desbotadíssimo, a mescla dos nossos cheiros (que eu pensava) encrustrada. na arrumação da terceira gaveta, sábado à noite, encontrei-a no fundo, amarrotada, cheiro de guardado. joguei na máquina sem me dar conta da calcinha roxa presa no fundo. um novo tom lilás: a camiseta se prendeu - a máquina eu adquirira num rolo havia uma semana, com todos os enroscos a que tinha direito -, meus calcanhares saíram do chão quando me debrucei puxando o trapo. a camiseta em algodão macio se desfez na minha mão esquerda. (o lilás na calcinha desbota cada vez mais, a tinta saindo à medida que o conforto do tecido aumenta e recebe meu corpo.)

foram se sucedendo, por esses longos seis ou sete ou oito (estamos em junho?) meses depois da nossa separação, esses pequenos deslizes, essas pequenas sabotagens. esses pequenos adeuzes das coisas nossas-dela, que, por sufoco, cansaço, carência ou displicência, não mais reconheciam sua morada ali, no meu apartamento.

na semana passada as taças, é claro, coroaram a despedida. vinho não é bebida que se toma só, sempre bradei, e nem tive pudores em usar as taças que ela havia me dado, desperdiçar um pouco no carpete e no edredon (era noite de lua cheia; a embriaguez comanda a precisão de outros gestos que não o de manter os copos em lugares seguros). foi pela manhã, uma manhã clara, brilho no rosto, louça acumulada. nem fui lavar as taças; só mudá-las de lugar para pegar o pó de café, e elas cederam. como numa dança de despedida desesperada, doce e consentida, estilhaçaram-se aos meus pés. no quarto ao lado, não se ouviu nenhum barulho; estanquei o corte que me fizeram durante a queda, embrulhei os cacos no jornal do dia, com uma mescla de alívio, satisfação e - confesso - o rosto quente e o coração acelerado. era isso, então. abri a porta do quarto, ouvi um suspiro, e me deitei ao lado de um corpo mais quente que o meu, cujo ritmo de respiração é que fazia todo o sentido do mundo.

Wednesday, October 15, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (4 e último)

Pois que o acúmulo progressivo dos tempos, do qual te dizia eu enquanto notava que você não me ouvia, o acúmulo progressivo de tempos também é a história. E não deve ser por acaso minha falta de recordação da história recém-contada por você. Sua tentativa de compartilhar comigo sua história, se fora compartilhar, é fracasso. Perdoe-me o lugar-comum extravasado, mas a partilha só existe quando a vontade é mútua. Como saber essa vontade mútua se sequer se sabe a vontade? Mas essa já é outra história. Dizia, eu, de sua história olvida, irreal e progressivamente adormecida em mim – pois que o desbotado também é processual. Sei te dizer uma coisa: as pessoas não se escutam. Uma vez perguntei a um professor sisudo o porquê dos problemas de comunicação, se tudo o que vejo são sons e barulhos e risos. Ele explicou-me condenando o riso. Disse que estava no riso o problema da comunicação, da falta de seriedade na cumplicidade. Não vi espaço para questionar a autoridade da figura, mas ele que me perdoe: se existe algo que denota cumplicidade, esse algo é o riso. O sorriso, a gargalhada, o riso é sempre sincero. O riso amarelo a gente vê num tapa, o riso sincero não deixa dúvida. E tem gente que ri do riso dos outros, quer forma de comunicação mais sublime?

Olha, me desculpe se te chateio com toda essa minha especulação, mas são as coisas que eu acho, mesmo. E acho também que a gente não tem que ter pudor pra falar, nestes tempos, não. Entre suspensões e apologias, fico eu cá com minhas aporias que, se não me satisfazem, me representam e me acalantam. Não faço odes a racionalidades, tampouco sei de curas milagrosas ou cientificamente comprovadas. Muito me agrada sua companhia, mas este é um país livre e o senhor tem todo o direito de deixar este balcão (não te exijo sequer sinceridade), as luzes acesas ou não. Felicidades eternas não desejo, mas meus cumprimentos e minhas saudações. E, se me permite uma recomendação: gengibre, música, açúcar e estrelas, para a voz.

Wednesday, October 01, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (3)

Confesso, também, que nada mais me recordo de sua história. Peço desculpas; seria hipocrisia culpar o tempo, pois acabo de tomar conhecimento dela e ela já me escapa pelas mãos. Cada palavra que me assombra é responsável pelo adormecimento das anteriores. Mas também não posso exigir recordações de algo que me forma apenas no imaginário. Hoje, toda história ouvida é também história olvida, pois não passa da imaginação, talvez aliada à vontade da preservação, e, melhor ainda, da elaboração do passado – legitimada pelos acenos positivos de cabeça do interlocutor (consciente ou não do que lhe está sendo despejado e esperado).

E, apesar de você me contar de sua voz rouca, o que me marca e persiste na memória são seus olhos e o movimento de suas sobrancelhas – o que não deve ser surpresa, depois de explicitado meu elogio à verdade e minha busca. As sobrancelhas, expressão feliz da intocável procissão de harmonia, celebrada por você. A cumplicidade instaurada pela troca sobrancelhas-percepção abriu um novo mundo de liberdades, para mim. Mundo este agora governado, então, por um novo tempo: o tempo de liberdade. Tempo infinito, não-finito; se um outro tempo for um dia definido por outro elemento que não a liberdade, ele será somente um outro tempo definido por outro elemento que não a liberdade. A mecânica entre a outra definição e a ausência de liberdade é, assim, uma falácia: o tempo outro não exclui o tempo de liberdade. A liberdade não se extravia, mas os tempos tampouco se sobrepõem; acumulam-se – mas não em camadas, nem contínua nem linear (tampouco caoticamente). O acúmulo é progressivo e harmonioso. Os elementos se sobressaem não porque nos salta aos olhos, mas porque nos salta a. A nada. Sinto, não sei dizer por que os elementos se sobressaem. Talvez seja a minha neurose, ou a necessidade inculcada da sistematização para que a comunicação seja possível entre nós. Mas dizia eu do acúmulo progressivo, ele é síntese mágica e profunda, sem preocupações com funcionalidades perseguições ou erros. É promessa, assunção e percepção de desejo e de conceito. É a não separação entre esferas do mundo, é pensar a totalidade em conjunto com a especificidade do que se pensa, de tudo que se pensa, e, mais do que isso, é não se limitar ao pensamento. É entender e consentir a corporeidade: mente, espírito e corpo em ensaio perene de compreensão.

E, quando insisto na plenitude inatingível, sei do seu caminhar lento, da sua voz rouca e deus cabelos quebradiços. Sei de sua voz rouca antes do início da conversa, e, convém lembrar, não te exigi nenhuma explicação. Como não te exijo justificativa, clamo apenas por gratidão. Gratidão sem sujeito e sem objeto, gratidão como movimento, dádiva, dom e, principalmente, gratidão como reconhecimento. A gratidão, ensino-te, pode ser tão bonita quanto a valsa, quando no embalo não se espera um salão nobre ou baile de máscaras para encerrar grandiosidades medíocres ou fracassos. A gratidão pode ser a valsa bonita que soa com o caminhar sobre o gramado em dia de sol não tão quente, o ritmo cardíaco e a respiração em compassos que até o padre duvida. Gratidão explode, ainda que tímida; gratidão derrama lágrimas e sorrisos e beijos e abraços e sal e doçura. Gratidão não é quando nem como, é deixar ser e estar. Consciente e confortavelmente, sentir-tocar. Gratidão não se ensaia – embora os ensaios também contenham dose cavalar de improviso, emoção e doação genuína – e o genuíno é a construção coletiva e particular, os pesares, os processos, a história.

Sunday, September 21, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (2)

O sexo não explicitado. Sinceramente, pouco importa a parcela de intenção sexual presente em seus olhares a mim direcionados: jamais foram explicitados. Poder-se-ia dizer que é mero cavalheirismo, ou, pior, quão galanteador ou cafajeste você é. Mas não, nada disso: calado. Ainda que sensual, tenho certeza que nosso contato jamais se desenrolaria no entrelaçar de corpos embriagados ou apaixonados. Ainda que revestido de tensão sexual, interrompido por vermelhos e calor a percorrerem os corpos e o ambiente e conduzido por silêncios meus outrora impensáveis – que a olhos inábeis seriam o entendimento sutil da expressão do desejo –, ausente o toque. Ausente qualquer possibilidade de toque. O sonho de suas mãos sobre as minhas, o desejo do toque, o ímpeto de acompanhar, com meus dedos em movimentos sutis, seus desenhos, a impressão permanente de seus traços em minhas retinas: nada. Não é ausência de vontade, jamais fora ausência de desejo meu. É ausência, intransitivo, incompleto e incompletável. Ausência.

Confesso, sua história a tal ponto me encantou que desconfiei, confesso, desconfiei de sua veracidade. Envergonho-me mais pela importância por mim atribuída à desconfiança do que pela desconfiança em si. Nua e crua (o desejo de sentir seus ossos em minha pele), a desconfiança da veracidade é o papel principal de uma peça de teatro mainstream, eu diria. Ou de qualquer teatro político que se reivindique brechtiano, dizem. A vergonha daí depreendida, por mim, é mais do que o desejo da unicidade; é expressão escamoteada de busca infinita pela incoerência. O anseio do reconhecimento pela totalidade e da totalidade; e se toda totalidade engendra contradições, por que, em geral, busca-se o conhecimento de cada ladrilho da casa, em detrimento da apreensão consciente do processo de construção como um todo?

Sunday, August 31, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (1)

Sabia
Que você ia trazer seus instrumentos
E invadir minha cabeça
Onde um dia tocava uma orquestra
Pra companhia dançar
(Chico Buarque, Lola)

Depois da longa perturbação, vem a oscilação até a volta à sensação original, vivida em contexto diferente. Por mais que seja essa uma das funções primordiais de um balcão de bar, confesso que são raras as noites em que estranhos me dirigem a palavra sem aguardo de resposta. A ausência de expectativa, tanto no seu tom de voz como na sua sinceridade em cantar sua vida, por acaso, a mim. A ausência de expectativa e o saber ser escolhida a esmo, sem nenhuma particular afetação. Isso performou, em mim, o encantamento.

(Nota: é o primeiro parágrafo de um conto-resposta que estou escrevendo)