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Thursday, September 26, 2013

diagnóstico


é vertigem que me dá esmaga
uma das vértebras da
minha cervical estanca
proíbe segura é barreira para
meu sangue correr livre lívida
o armário dança
dançam livros coloridos dança
qualquer coisa fora do lugar é na minha cabeça, é tudo
na sua cabeça mas o sangue
o sangue não flui não jorra não ferve
o sangue não é meu
sangue sangue em meu próprio corpo
é fluido e não flui no entanto
embaça

mas é só vertigem, vertigem pouca

poema feito de chá


minha espera permite
o aprendizado da água –

ebulição é espetáculo
de tanto ensaio de ritmo

minha espera exige
o aprendizado do corpo:

estar montanha,
saber de si

minha espera ensina
permissiva

meu coração em fervura.

Monday, May 14, 2012

notívaga

parte da noite
toda ternura recebida
parte em ti meu desejo
parte da noite volúpia
parte sono da noite em fuga
parte teu olhar sobre mim
parte da noite sagaz
teu corpo em tato
que jaz
todo outro sentido
parte da noite
deixa vestígios
parte da noite calor
e não durmo
não dormimos
sei que não dormes
parte da noite sufoca
teu corpo quando lembrança
parte da noite me arranca
suspiro, suspiros e parte
parte da noite é dureza
quando da noite fugaz
parte tudo quanto toco
na noite parte da noite
meu amor,
meu amor, parte
da noite, meu amor.

Thursday, December 23, 2010

febril

a poesia?
vai tão encrustrada em mim
(você que a assim deixou)
que já não a percebo,
os dias passam conta-goteando. desde que você partiu.

quer dizer
– você sabe porque as noites tem sido tão claras?
eu não prego o olho e culpo a lua
e pode chover e a lua pode
se nublar que continua
o clarão e o barulho da chuva no telhado
parece seu sibilo
eu quase arrepio
inspiro e seguro o lençol sob o queixo
embolo meus pés no cobertor
e encarinho-me o rosto antes do espreguiço.

expiro e você é quase um holofote
e não sinto meu estômago porque em sonho (quando há) seu perfume me
[enche d'água e me cega e acordo e tateio
e verto em mim o que há na mesa de cabeceira e me resfrio

e não há barulho que distraia
silêncio que entorpeça
palavra que instigue ou aconchegue
tanto quanto as suas doçuras irreveláveis.

então sigo meu dia e pinto e escrevo
pra você escrevo uma confusão de perfumes
e tento pintar outro silêncio
que não aquele seu de dizer amores e preencher
mas o silêncio que pinto não te tem e não me tem e não há cores e só há água
há água e desidratração e me lembro
– não se esqueça de respirar
, e respiro

mas se respiro me inflo de cores que só a nós pertenciam,
e eu não sei tê-las sem você. então
respiro e sou só edema. não há extravasares, não há quem contenha. me
[inflo.
e à noite choro, e a lua clara holofote é tanta e insiste
e machuca meus olhos já tão secos. e sou toda secura, então,
também em garganta e suor (que seca o dentro) e coração cansado e me
[esqueço das outras partes do corpo

deito exausta e se fecho os olhos ardem
quem dera de tesão quem dera
de choro ou cansaço. ardem de não saber mais nosso encontro, como arde
[meu dorso todo de não saber mais seu toque
e me assombra seu sorriso e preciso segurar minha cabeça com as mãos
e não respirar
e você é toda-beleza e com ternura me pergunta
e me assombra seu rosto seus músculos suas contrações sua pergunta
me assombra sua pergunta
de como anda a poesia.

Thursday, March 19, 2009

Para tentar se livrar da acusação de homicídio, o advogado do austríaco disse que Fritzl não queria matar os filhos, mas "construir uma segunda família no porão de casa". Para isso, teria decorado o cativeiro com um papel de parede do Mickey para criar uma "atmosfera de lar".

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u537210.shtml

Sunday, June 08, 2008

'You better take off your homburg'

Eu gosto muito quando, no meio de uma conversa com alguém, consigo obter um esclarecimento pra mim mesma de algo referente à minha vida, minha história de vida, meu momento presente, minha personalidade ou alguma coisa que paira ou se transporta entre essas categorias e o que elas sugerem.

Ontem vivi uma experiência desse tipo. Eu não costumo fazer deste blog um diário explícito, expressamente. Mas acho que hoje o post vai caminhar pra isso. Até porque, se forma e conteúdo não se dissociam e o como dizer importa tanto quanto o o quê dizer, um post um pouco mais intimista e ativo na construção de laço expresso entre o escritor e o leitor vem a calhar.

Pois bem, quando acreditamos ou sentimos que estamos entrando numa fase de crise (ressalva aos que se dizem sempre em crise: me refiro a uma crise específica), é de engrandecer perceber como essa fase se liga com seu passado, sua formação, seu ser.

Como a gente faz quando se percebe preso, e quando não nota mais nenhuma possibilidade de ação ao seu redor? Nenhuma possibilidade de ação que expresse - por corpo, alma, letras, canções, conversas! - uma forma de pensamento e de organização de mundo alternativa. Explico: depois de entrar com contato com uma relativa gama de organizações, instituições, movimentos sociais, partidos políticos, grupos de discussão, coletivos de ação direta etc., que têm (ou dizem ter) em comum uma visão de mundo alternativa à dominante (ou seja, alternativa à instrumentalizada, à que se regula pela análise calculista do custo-benefício), vejo que as práticas de tais grupos, quando analisadas a fundo, levadas ao extremo ou simplesmente entendidas e internalizadas, não propõem outra forma de pensamento que não essa do cálculo custo-benefício, que acabei de explicitar. Ora, se forma e conteúdo são indissociáveis, o não-abandono do pensamento puramente estratégico não te coloca em nível diferente do seu oposto só porque 'seu fim é mais nobre que o do Outro'. Ou, para não me restringir a juízos de valor (do tipo 'mais nobre que'), posso formular da seguinte maneira: ainda que o conteúdo seja radicalmente diferente, se a forma através da qual este conteúdo é aplicado - ou, ainda, a própria noção de necessidade de aplicabilidade do conteúdo - esvaziam a proposta 'alternativa', 'revolucionária', ou o nome que vocês quiserem dar a isso.

Digressões à parte, o imobilismo ou a inação me angustiam. Angustiam porque - e isso foi o que descobri ontem, numa performance fantástica - durante minha adolescência, minhas maiores angústias diziam respeito à impotência. Os problemas que me vinham chegavam prontos, e eu não percebia nem vivia seus surgimentos, suas formações. O que me restava era o aguardo do curso da vida para resolvê-los ou sedimentá-los, em dimensões processuais muito lentas - o que faz sofrer muito a qualquer um disposto a questionar origens, causas e conseqüências.
Deixando um pouco de lado a dimensão psicológica e a 'sessão terapia', a questão da qual trato hoje, incessantemente, é se é possível à política e à vida transcender a dimensão meramente estratégica.

Penso 'política' como relações de poder. Imbuídas, sempre, de referenciais simbólicos, de significações. É possível um mundo onde as relações de poder se horizontalizem? Em que cada ser humano possa desenvolver suas potencialidades e realizar seus desejos à sua maneira? É claro que é possível política sem opressão. Mas a limitação da dimensão estratégica ainda me parece longe de ser superada.

Não prego, de modo algum, o abandono do pensamento estratégico. Tampouco o abandono da técnica, das reproduções, daquilo que alguns chamam de massificação e a minha pitada de otimismo quer defender como democratização. Quero é ver a criatura se rebelar contra o criador.

As coisas que escrevi aqui estão longe de estarem esgotadas. Pelo contrário! São indicações de algumas temáticas que estarão e estão por detrás do meu discurso nos últimos e próximos tempos.

E, pra finalizar, música bonita:

Your multilingual business friend
has packed her bags and fled
leaving only ash-filled ashtrays
and the lipsticked unmade bed.

The mirror on reflection
has climbed back upon the wall
for the floor she found descended
and the ceiling was too tall,

Your trouser cuffs are dirty
and your shoes are laced up wrong.
You'd better take off your homburg
'cause your overcoat is too long.

The town clock in the market square
stands waiting for the hour
when its hands they both turn backwards
and on meeting will devour
both themselves and also any fool
who dares to tell the time.

And the sun and moon will shatter
And the signposts cease to sign.

Procol Harum - Homburg

Friday, May 16, 2008

A verdade do universo e a prestação que vai vencer

No fim das contas, como diz uma pessoa querida, é só uma tentativa de unir teoria e prática.
Ou, então, olhar ora pro universal, ora pro particular. E a busca da síntese. Ou do equilíbrio.

Ou da explosão.

Monday, April 07, 2008

Sobre o esboço, tanta arte

Normativamente, é importante dizer, um esboço é caracterizado pela sua incompletude. Por não estar terminado, concluído e acabado. Incrível, talvez contraditória mas – creio – justamente pelo traço da fragilidade, um esboço contém sempre algo de mais instigante, de deliciosa obtusiodade [o ato de ser obtuso], de encantamento. O esboço é a arte feita e por fazer, é a dialética de preenchimento e vazio, o encontro transcendente entre escritor e leitor, formadores e conformadores, talvez a partir – mas tendo a crer que apesar – da experiência.

Porque vejo a experiência como destruidora da criatividade e da esperança. Humildemente tomo esta idéia emprestada de um pensador maior, visto que não brotou em mim, mas fui por ela contagiada através de uma de muitas leituras que me chegam, oportunamente, através de pessoas queridas, momentos imprevisíveis, arroubos de sensitivismo ou qualquer outra coincidência que alguns insistem que a conjunção dos astros pode justificar ou explicar – eu não duvido.

Digo, não duvido, mas tampouco creio. Os índios, li em um antropólogo arrogante, inventam suas verdades a todo o tempo, quer por brincadeira, quer por ingenuidade, quer por serem elas mesmas as verdades, quer por serem as mentiras que devem – e são, portanto – contadas. Pois bem, também não creio em bruxas, mas que elas existem, existem. Suspendamos a discussão de cunho estrita e explicitamente espiritual e religiosa e continuemos.

Após introduzir o esboço como encantamento, permita-me a exaltação de qualquer tipo de deslumbre. Encantar-me, hoje, é meta primeira de minha vida. Rechaçar os padrões de cultura, os domínios do capital e a superficialidade das relações. Embriagar-me das virtudes que eu, e somente eu, vejo em cada mulher e em cada homem. Deliciar-me com os carinhos e as sutilezas – envoltas, explícitas, enlameadas, dissimuladas e dissolutas – de cada qual que me cruza o caminho e me pede – ou peço eu – um pouco de tempo.

Porque o tempo, ensinaram-me, é único de cada relação. São os tempos, por assim dizer, os estruturantes das peculiaridades de cada relação humana. Relação indefinida, não só por toque, respiro, suspiro, brisa, olhar ou verborragia; relação indefinida. Escrevo apenas na negatividade de uma passível limitação, para estender o caráter humano às mais maravilhosas unicidades possíveis. Embora não viva só no tempo do possível. O tempo do desejo, o tempo da tolerância, da autonomia e do cuidado, das mediações entre ser, mostrar e parecer; são todos tempos do não-possível. Por serem tempo são também realidade.

É o ato do concreto, a respiração ouvida que faz meus anseios crescerem exponencialmente. Não quero a intolerância dos infelizes, quero as experimentações sem precedentes, as experiências sem opressões. Quero a magia de um mundo sonhado, imaginado e vivido e sentido e apalpado. Dentro da realidade que construímos, esse mundo também tem seus tempos. E suas realidades.

É o mundo que dói, sim, ainda dói, e a dor pode, sim, continuar insuportável. Não é um mundo mais aceitável; nem ele por nós nem nós por ele. As concretudes das dores tornam a vivência ainda mais insuportável, tanto aos olhos de quem as vive como aos de quem as sente. E, embora a crueza da realidade soe tão dura a ponto de furar os tímpanos, não se desiste nem se desespera.

Desespero é para os que não tiveram, ainda, coragem de encarar o mundo com os pés fincados no chão e o olhar no horizonte, atravessando perceptivelmente as portas, janelas, os muros e construções no caminho. Desistência não enfraquece, nem tira a força dos persistentes; desistência é estado de espírito; não estado de ser. Desistência nos acomete diariamente, mas é justamente por sua falta de consistência que não deve nos consumir (e não consome). A esperança não-aniquilada não cede à desistência, ainda que seja este o seu desejo.

Porque a magia persiste no mundo, talvez nas consciências individuais, talvez em sentidos, subjetivos e objetivos, encontrados nos mais diversos lugares, espaços e tempos. Talvez a magia persista porque o estado da magia é o estado da busca. E o estado da busca é o estado da esperança não-aniquilada. E por mais que o raciocínio esteja circular, não me desespero. Isso é só o esboço de tanto que está por vir.

Sunday, May 27, 2007

Buscas incessantes

O que é passível de sentido
é possível de sentido?

(Que importa o sentido se tudo vibra?)
(Alice Ruiz)

Saturday, March 10, 2007

"Meu grito inimigo é: cê foi mó rata comigo"

Ratos permeiam minha mente. Talvez somente pelo lirismo, talvez pela sua comedida situação de estar só no mundo e mal-viver. Talvez pelo desprezo que sofrem e pelos caminhos que, ébrios, traçam e seguem à risca, a esmo. Esmola é o que ratos não pedem. Dependem, quiçá, do desprendimento alheio. Ouvidos atentos, tosados, pelados, olvidos do mundo. Domésticos, quase, nesta semi-pós-modernidade difusa, perversa, invertida, atordoada. Doada até os dentes por aqueles que não têm valor. Loucos, trapezistas, equilibristas oscilantes ante a vida e perante a esperança e a desgraça. Graça. Graça de manipular, de pular e mergulhar e tecer os meneios dos impunes hospedeiros. Eiras e beiras, bancos pra que te quero! Esmero meu, nosso, vosso, e bendito é o fruto da macieira àquele de eira, ao sem beira. Beirando a estupidez segue-se, seco e arrogantemente rumo ao quintal. Tal é a música a ser dançada; exigem-se rodopios, frevos e lambadas. Mais nada.