eu fui
atropelado. fiz aquele jardim ali, vê como está bonito, as
mudinhas, o desenho da terra todo alinhado, vê. dá gosto olhar, né
não? aqui debaixo é tudo buraco. é tudo buraco debaixo dessa
cidade, sabe, eu não bebia, cavei esses buracos todinho. mas você é
bonita, hein? me lembra minha filha quando moça, ela me deu três
netos, tudo homem, varão. nenhum deles sabe fazer jardim. sabe, pra
fazer jardim tem que ter muito silêncio dentro de você. não é
saber que planta que pega bem, é saber que planta o jardim ali quer,
fazer todos os convites, sabe, honraria? jardim precisa de honraria.
fui muito mais feliz fazendo jardim do que cavando buracos. claro que
falar que fiz essa buracaiada aí impressiona, né, eu e meus
companheiros, mas a gente nem anda nesses trem, não. eu gosto é do
jardim. ninguém olha pro jardim, só querem saber do trem mais
rápido e mais moderno, dizque tem trem que nem motorista tem. é que
não bate sol, já basta eu não ver o sol nunca nunca nunca porque
agora bato ponto de segunda a sexta, já basta acordar no escuro,
sair de casa no escuro e voltar já tá escuro de novo, quando é
folga eu faço jardim. não me meto nos buraco pra ir lá pra zona
norte, nos churrasco dos companheiro, ah não. gente também precisa
de sol. a honraria do meu jardim é eles receberem meu sol todos os
dias. e me convidarem quando é folga, é. pois fui atropelado,
menina, então, é por isso que tô pedindo pra você usar essa
tesoura e podar aquele galho ali pra mim, faz favor.
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Thursday, August 23, 2012
Wednesday, June 08, 2011
retratos urbanos - a mulher do despachante
cruzou o meu caminho – e não o contrário – uma mulher de cabelos ressecados, talvez com corte, talvez ressecados apesar da devoção e do cuidado, talvez pelo tempo seco que vem com a chegada do outono, ou pelo uso equivocado de produtos de má qualidade que são o que ela pode comprar. ela, que trabalha num despachante, e antes das 16:00 tinha ainda um copo cheio de café ao seu lado. um copo americano, de bar, o mesmo que, aposto, ela enche de cerveja aos finais de semana. não reparei se fumava, talvez sim, para compor a personagem perfeita. talvez não. talvez tenha filhos, e um deles estude no exterior. talvez o marido – ou a amante – lhe presenteie com jóias vez ou outra. talvez ela já tenha visto um jogo do corinthians no estádio, talvez lido um romance do paulo coelho ou do machado de assis. talvez ela nutra uma paixão por comida asiática, talvez cozinhe muito durante seu final-de-semana para congelar parte da comida para comer durante a semana. talvez já tenha experimentado cocaína, tomado leite com manga, feito uma cirurgia de alto risco, visto o mar. cruzou o meu caminho, ela, que passa dos trinta e talvez beire os quarenta anos, uma pele amorenada, cruzou, ela, porque me despertou vontade de saber tanto a seu respeito. cruzou o meu caminho, e não contrário, porque enquanto passava eu defronte o despachante onde trabalha – desde quando? –, ela sequer desviou os olhos da tela do computador.
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