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Thursday, September 26, 2013

poema feito de chá


minha espera permite
o aprendizado da água –

ebulição é espetáculo
de tanto ensaio de ritmo

minha espera exige
o aprendizado do corpo:

estar montanha,
saber de si

minha espera ensina
permissiva

meu coração em fervura.

Sunday, April 14, 2013

I – precisão de desertos


por causa de tati fadel

preciso dos desertos e é por isso que
atraso meu relógio
trabalho na madrugada
finjo que durmo quando me beijas.

preciso dos desertos para estar no mundo.

preciso dos desertos. neles me permito,
neles me concentro,
neles flui toda rebeldia que invento.

são emudecedores
estarrecedores
assombrosos;
só assim cuido da casa,
reviso textos,
tomo coragem e saio de casa,
pego o metrô, trabalho.

o deserto é um gel no meu cabelo
um sobretudo em clima ameno
abundância de moedas empilhadas na estante

o deserto contém meus livros
e a concentração para lê-los
o deserto expulsa notas comprovantes recibos
e seus bilhetinhos de amor.

no deserto estou só,
sem reconhecimento
nem possibilidade,
sem alarme nem surpresa
nem quentura de companhia
pra suportar o peso do mundo

deserto, preciso;
assim precisa ser.

Friday, August 24, 2012

comoção durante uma assembleia


fiquei tomado. a senhora parece muito a falecida da senhora minha mãe, deus a tenha, esses olhos, lá na bahia, nossa senhora, fiquei arrepiado. o que é que eu dizia? que nossa mentora é nossa cabeça. nós vamos com nossos pés pra onde nossa cabeça destina. eu sei o que é o sofrimento de cada um de vocês. e eu vou estar junto com cada um de vocês, se vocês estiverem junto comigo, junto com o movimento, lutando também pelo seu companheiro. eu me sinto bem quando posso fazer alguém feliz. obrigada pelo presente, matei, matei sim um pouquinho da saudade da minha mãe, quantos anos, meu deus, obrigado.

Thursday, August 16, 2012

quando o mundo convida


amei alguém que me deixou
não amei quem me deu o conselho mais valioso:
confie no movimento da vida.

é tudo aberto demais, ou quase.

Monday, April 23, 2012

à parte as objeções


meu tempo é o abafado das caixas de sapato
de bico-fino sob outras caixas tantas
que se logra abrir com cuidado
em tardes amenas,
antevésperas de grandes eventos.

meu tempo é o embaçado desigual da vidraça do banco de trás
quando as crianças fazem apostas mentais sobre a corrida das gotas de chuva
e desenham até onde a mão alcança
repetidas sempre vezes
e a gordura se encrusta.

meu tempo é o encurvado de uma persiana
da janela central de uma pequena casa
onde por apreço à claridade essa persiana não tem uso
e seus cantos suspensos sustentam
o bicho todo, envergado em simetria.

meu tempo podem ser coleções comuns
como vinis empoeirados,
promoções de salgadinho,
pontas de lápis, papéis.

desde que tão bem-guardadas,
lembresquecidas
como os entres, os desiguais, os desusos,
em que a sutileza impera e desarma mas
pungentes que são, não perdoam.

Tuesday, February 07, 2012

da vida gentil: segundos de menino na rua

o menino de uniforme escolar pergunta por que o violinista toca na rua; o pequeno corpo do menino conduzido pela mãe com precisão, o pescoço insistindo na direção do estridente que inundava também os meus ouvidos. páram no cruzamento.
- para ganhar dinheiro, responde a mãe.
o menino aceita: é desfeito o absurdo do cenário. há motivo e razão e, dessa feita, harmonia. ele atenta ao semáforo de pedestres e prepara o corpo para o impulso. atravessará à minha frente quando da luz verde, segurando obstinado sua mochila de rodinhas.

Sunday, November 27, 2011

expiração

'qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura'.
guimarães rosa

é no seu abraço que eu sou um pouquinho mais sã,
quando sinto sua pele dar alento à loucura.
é seu corpo todo que me benze, me dá febre curadoura
e me restaura em graça, riso e paz.
é seu sorriso que me oferece mais
confiança no mundo que ancora
minha coragem rainha,
descoberta e fugidia
num tempo de soluço
é no seu braço meu reino destemido,

e em fé e força esgarço, sem pudor nem ranço de cansaço,
a bainha da sua roupa em que cravo
minh'alma e minhas unhas, quando no seu abraço.

Saturday, November 05, 2011

benvinda

o que denuncia um novo amor não é um novo orgasmo (isso é transa casual), um novo velho mesmo jeito de atender ao telefone (pode ser timidez), nem as tão batidas borboletas no estômago (é claro que las hay, pero desde a pré-escola). o que denuncia um novo amor é aprender um novo jeito, o jeito dela, de arrumar a cama. e tomar gosto. e zelar pela cama arrumada, vez ou outra, antes de sair.

olavo bilac

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e alma de sonhos povoada eu tinha.

E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida,
nem o pranto os teus olhos humedece,
nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.

Thursday, March 24, 2011

breve ensaio sobre as estações (i)

verão

o verão nada mais é que a letargia. não; o verão é o êxtase, a catarse, a nudez em conforto porque quente. o verão não são gotas de suor; o verão é o sal que marca a roupa, é a boca seca e corpos que entre si deslizam no amalgamado de cheiro denso. o verão é a estação do sexo mais feroz e sensual, é a estação do vigor corporal que garante a tranqüilidade d'alma – porquanto não a contém.

Saturday, March 05, 2011

um retrato a uma estrangeira

eu moro num país onde as pessoas morrem
de fome
de tiro à queima-roupa
de amores e ciúme
de acidente de trânsito

nunca ninguém morreu de fome nos meus braços.

soube de quem morreu depois de jogar futebol;
antes de nascer;
vi quem morreu de desistência do corpo
e de surpresa, também
vi quem morreu despencando
e vi corpos bonitos de mortos serenos

eu vi quem nasceu cabeluda do ventre da viúva
e quem renasceu encovada de força antes dos trinta

eu li cantos sobre cabelos de suicidas no rio,
esculachos quaisquer de poetas sobre o verdejar desses fios
mas antes disso

eu fui à missa de sétimo dia de uma suicida
que me sorria sempre quando confidenciávamos amores errados
e ainda antes disso

eu perdi a voz em batalhas esganiçadas

e me amarraram por qualquer descrença e me deturparam
a voz e a força e o delinear
e então sem me dar conta

eu passei a freqüentar igrejas e velórios
a sorrir mais, conversar com anjos
e ler notícias no jornal sobre gente na rua
com fome
com sangue e com morte
insistências fronteiriças
nos nossos países.

Sunday, November 28, 2010

(sem título por enquanto)

[a vida] quer da gente é coragem.
guimarães rosa
Não se acovarde

Não há tempo manso
ou espera que cure.

Há furacões e seus centros,
olhos de tigre cuja
menina é cardiopata
(não há ritmo)
Há a exigência da coragem.

Mais nada.

Wednesday, November 03, 2010

abóboras

com esse post inauguro uma nova sessão aqui no blog: receitas! (que eu faço e testo antes, pra ver se fica gostoso)

a de hoje então é: macarrão com molho branco, abóbora e champignom.

fazer o macarrão todo mundo sabe, né? ferver a água, colocar sal, o macarrão que você preferir e - isso é o mais importante pra toda receita de macarrão que se preze! - prestar atenção no tempo de cottura, que é pro macarrão não ficar nem muito duro nem muito mole, mas al dente!

numa panela separada, colocar alho, cebola, refogar por um tempo até ficar aquele cheiro bom, e douradinho, e jogar as abóboras já picadas (em pedaços grandes). colocar um pouco de sal.

o molho branco tem vários modos de fazer. dá pra fazer com creme de leite, mas eu prefiro sem, que fica mais levinho. então é só colocar um pouco de manteiga numa outra panela, deixar derreter. num copo, misturar leite com maizena, misturar bem. jogar um pouco de leite (sem maizena) na panela, e ir jogando aos poucos o leite com maizena, sempre mexendo bastante, que é pro molho engrossar. aí quando der o ponto que você gosta (mais grosso ou mais ralo), é só jogar tudo o que tinha na panela com a abóbora nessa outra panela.

nesse meio tempo, você mesmo (ou alguém, já que é gostoso também cozinhar junto com alguém) cortou os champignoms, então é só jogá-los na panela também. deixar o fogo ainda um pouquinho ligado, pra tudo ficar mais curtido.

e pronto! é só desligar e misturar com o macarrão. :)

uma dica é ralar um pouco de noz moscada por cima do molho, e dar uma boa misturada, antes de servir (depois de ter desligado o fogo). noz moscada é um dos meus temperos favoritos, fica bom em tudo! mas tem que por só um pouquinho, porque é forte. colocar queijo parmesão ralado por cima também cai muito bem!

Sunday, April 11, 2010

variações sobre o mesmo tema

quer à primeira vista, quer na lenta transformação da amizade virando-alguma-coisa-diferente-que-não-sei-bem-o-quê-é; na concretização mais romântica do platônico, com direito a jantar à luz de velas; no hedonismo embriagado do dionisíaco uma-noite-e-nada-mais: todo amor já nasce viciado.
pode ser meticulosamente arquitetado, como os dados ocos com peso de resina precisamente no centro do lado do número seis; como pode ser também o vício que se instaura aos poucos, da maconha à heroína, e vai nos consumindo até tornar embaçada a distinção entre sujeito e objeto de desejo. até dissimular quem escolhe, quem decide, quem consome, e o quê é consumido.
então a diferença fundamental, e que deixa toda história de amor bonita, reside justamente nos desenrolares: se o amor já nasce viciado, no mesmo instante em que nasce, contudo, já é único. pois os instantes que vão se sucedendo em cada história são instantes-já, como diz clarice lispector. irreversíveis, intangíveis, impossíveis de não-serem, ao passo que, por definição, são. é ao mesmo tempo um alento e uma qualidade: mais ou menos como dizer que, se todo amor nasce viciado, as possibilidades de vício são geridas pela verdade idiossincrática de cada pessoa, ou melhor, de cada uma das pessoas que compõe o par (ou trio, quarteto, quinteto...) amoroso. As possibilidades de vícios existem na proporção em que cada um já tem sua história e seu modo de contá-la. Na medida em que não existem impressões digitais idênticas, ou em que em cada gole de cerveja reside uma novidade, uma aflição.
Na medida em que cada dança pode ser sincopada ou lenta, e, para cada caracterização existem ainda (no mínimo) um novo par de possibilidades que se abre. a dança lenta apaixonada numa noite quente de verão seguida de beijos lascivos e roupas ao pé da cama, o telefonema da ex no dia seguinte quando há outros braços ao redor, um cigarro entre vestir o sutiã e o par de sandálias, um suspiro e a meia-volta arrependida (porque a gente sempre volta pro vício, ou ele pra nós; a ordem nem importa), por exemplo, é só uma possibilidade da combinação de todos os elementos passíveis de permutação (incluídos aí todos os imprevisíveis - a esmagadora maioria). delícia de vício.

Friday, April 02, 2010

de livros, chuva e encontros

ontem estava na sala dos professores da escola onde funciona o cursinho popular do qual participo e, entre uma aula e outra, folheei um livro de roland barthes, 'o rumor da língua'. o livro é uma coletânea de pequenos artigos, e cheguei a ele através da indicação de uma admirável professora. a idéia era ler um artigo em que ele fala de benveniste, lingüista, para tentar entender um pouco mais do paradigma em que repousa a etnografia de jeanne favret-saada, uma antropóloga em cuja obra estou mergulhada nesses tempos.

mas um dos motivos pelos quais realmente gosto de pegar livros na biblioteca - e não simplesmente tirar xerox de um ou dois artigos ou capítulos selecionados pelo professor, cujas cópias ficam à espera dos estudantes, numa pasta no xerox - é porque folheá-los realmente me é muito prazeroso. folhear um livro é como observar um quadro de diversos ângulos, espreitar a construção - meticulosa ou não - da obra concreta que está em nossas mãos. e eis que, folheando o livro de barthes, caí justamente num artigo em que ele fala da escrita e, mais detidamente, da leitura. de como a leitura é o locus da perda de controle do escritor sobre o leitor. porque a leitura, ou ao menos um tipo de leitura, suscita, por vezes, outros pensamentos em cascata na cabeça do leitor.

e barthes chama essa leitura da leitura 'levantando a cabeça'. desafia: quem nunca leu 'levantando a cabeça'? é a leitura em que nos acometem pensamentos muitos, é a leitura ao mesmo tempo desrespeitosa (o termo é de barthes), pois interrompe o texto a toda hora, e faz conexões possivelmente inimagináveis ao escritor, e fiel, passional, pois é ao próprio texto que o leitor sempre retorna, se nutrindo dele, em movimento de vertigem - aproximação e autonomia (agora os termos são meus).

e li o trecho do ensaio apaixonante e apaixonado (barthes não economiza ao demonstrar seu amor pela literatura) para um amigo meu, também ali, na sala dos professores do cursinho, terminando de preparar sua aula - de redação. li o trecho sobre a leitura 'levantando a cabeça', e ele disse que certa vez ouviu ou leu, de alguém ou em algum lugar, sobre a biografia de hannah arendt.: ela lia 'levantando a cabeça' com freqüencia. dizque ela, durante a leitura, era acometida por intensos fluxos de pensamento e iluminação, e largava-se na cadeira, as costas curvadas para a trás, o pescoço também em curvatura, a cabeça olhando para o céu. e assim permanecia. até resolver empertigar-se na cadeira e escreverescreverescrever.

eu ouvia atenta, e esse meu amigo continuou. disse que, segundo alguma psicologia, fazemos o movimento de olhar para cima quando buscamos clareza sobre abstrações e, para baixo, quando o esforço é dar concretude a essas abstrações. ele fez uma comparação linda: a melancolia ou a introspecção que nos acomete em dias de chuva.

fiquei pensando sobre isso e, hoje, sexta-feira santa, chove. essa lembrança me é muito forte: toda sexta-feira santa chove. aqui em casa não comemos carne, e também não tem bacalhoada - na minha família, a bacalhoada sempre foi aos sábados, porque 'fazer bacalhoada em dia de penitência, reclusão, introspecção, é contradição demais', diz sempre minha mãe, quando nos lembra o motivo de não comer carne: sacrifício. sem esbanjar, sem comemorar, sem efusiva festança, que o sábado de aleluia está aí pra anunciar. pois é, sexta-feira santa. introspecção, recolhimento. e chove. o movimento? a condensação das abstrações, tão densas, tão densas, tão densas, que caem, quer vultosa quer serenamente em direção ao concreto - ou ao coração, se assim preferirem (eu prefiro) - da terra.

e não pára por aí: escorrem e tomam a forma que convém ou a forma possível? as gotas se fundem com o vento (me encanta, desde muito menina, observar os encontros das gotinhas no vidro do carro, o carro em movimento e elas se encontrando, eu ficava na torcida para escorrerem mais lentas, mais rápidas, fundirem-se, se desfundirem); acomodam-se nas superfícies que, num deslize de retidão, recebem a água que vem dos céus; infiltram-se em solos mais ou menos arenosos; percorrem longos caminhos até seu fim provisório: o encontro das águas. porque seu fim último não existe. não há finalidade nem final, e isso a gente aprende desde criança: é tudo ciclo.

Saturday, February 20, 2010

"o que é fome"

com o perdão de uma possível piada, a fome é um tema latente pra mim. desde antes de entrar na faculdade de ciências sociais (que me seduziu no desejo também latente - e que hoje vagueia por caminhos esguios - de 'mudar o mundo'), a existência das pessoas que passavam fome e que morriam de fome me deixa consternada. e nessas cíclicas (e, com licença, latentes) tormentas, despertadas freqüentemente pelo noticiário, o mundo me doía.

mas até hoje nunca estudei sistematicamente 'o problema da fome'. li uma coisa ou outra do josué de castro; me arrependi por não ter cursado uma disciplina eletiva que trataria sobre o assunto... e hoje peguei nas mãos um livrinho de bolso, desses da coleção primeiros passos, da extinta (?) editora brasiliense: "O que é fome", de Ricardo Abramovay, hoje professor de economia na FEA/USP. vou escrever aqui um pouquinho sobre ele, e o assunto continuará.

O livro é curtinho, e dá pra ler muito rápido. Fiquei admirada com o modo como o autor organiza sua argumentação para desmascarar não só o supra-sumo do pensamento hegemônico travestido de senso comum que declara: "os pobres são culpados pela sua própria fome, porque não sabem se alimentar direito", mas também os argumentos cientificíssimos (digo, com respaldo na acadêmia e entre os cientistas da época), bio-geográficos (ou geofísicos?) - de que a alimentação nos trópicos é muito pobre em proteínas, ou, ainda, de que ela pode até ser suficientemente rica em proteínas, mas não atinge o nível mínimo de calorias para que as proteínas possam ser devidamente aproveitadas pelo organismo de cada mulher e de cada homem.

Esse último argumento (o argumento da chamada "fome calórica") corrobora a corrente malthusiana: se as calorias ingeridas não têm sido suficientes, é porque não há alimento suficiente no mundo. Porque o crescimento populacional seria da ordem de uma progressão geométrica (lembrei das aulas da minha querida professora de estatística, alô Verónica! - , de 2 para 4, para 8, para 16, para 32), enquando o desenvolvimento da produção agrícola seguiria um padrão de uma progressão aritmética (de 2 pra 4, para 6, para 8, para 10). Logo, salve-se quem puder!, logo logo não vai mais ter lugar pra todo mundo na Terra - neomalthusianos, meus caros, definam lugar, definam Terra, definam 'há lugar para todos hoje'.

Enfim, a real é que essa corrente de pensamento dominou inclusive as ciências até o começo dos anos 1960, e, bem, como métodos contraceptivos não eram exatamente bem-vindos, a solução era: controle populacional. N'outras palavras: guerra e crise. Porque nessas situações extra-ordinárias as pessoas morriam, e então, por mais paradoxal que isso possa parecer, a sobrevivência da espécie ficava garantida - tão natural quanto a mão invisível do mercado.

Por desencargo de consciência ou por um compromisso político maior com minhas verdades, vou pontuar aqui que o problema da fome não é um problema de produção de alimentos, nem da cultura alimentar de um determinado povo ou grupo social. O buraco é muito mais embaixo: falta distribuição. E não falta distribuição de alimentos por desorganização das autoridades, do Estado, ou do governo, ou por conta dos capatazes do campo que ainda têm suas próprias leis e são os senhores em seus territórios. Tampouco a distribuição é injusta por negligência ou falta de prioridade, nada disso, nada disso. As ações ou os braços cruzados por parte da governança nacional e internacional é interessada. Tem seus motivos por trás. E qual é o interesse maior que orquestra isso tudo? No próximo post vou comentar um texto do Josué de Castro, e aí veremos.

Wednesday, November 18, 2009

cinco meses

And the days are not full enough
And the nights are not full enough
And life slips by like a field mouse
not shaking the grass.
Ezra Pound

luto.

(e a saudade dói latejada.)

Friday, September 25, 2009

hermann hesse

Tal qual cada flor fenece
e toda juventude cede à idade,
floresce cada patamar da vida.
Toda sabedoria e toda virtude
também florescem a seu tempo
e não devem durar eternamente.
O coração precisa estar, em cada patamar da vida,
predisposto à despedida e a novo início
para, na coragem e sem pesar,
entregar-se a outras novas ligações.
E em todo começo reside uma magia
que nos protege e nos ajuda a viver.
Temos de transpor, dispostos, espaço a espaço,
e a nenhum nos apegar como a uma pátria.
O Espírito Universal não nos quer prender e limitar:
quer erguer-nos degrau a degrau, quer nos ampliar.
Mal nos habituamos a um ambiente,
sentindo-o familiar, ameaça o acomodar-nos.
Só quem esteja pronto a partir e viajar
talvez escape do hábito paralisante.
Talvez ainda a hora da morte
nos envie, jovens, a novos espaços;
o apelo da vida a nós jamais há de findar.
Vamos lá, meu coração: despede-te e convalesce.

Saturday, August 15, 2009

[ensaio - parte 1]

Este ensaio deve se localizar em qualquer lugar entre o drama poético e o jogo político. O que me move é puro interesse: nada além do despertar sensações no extremo positivo diametralmente oposto ao pólo da indiferença. Posso argumentar que o interesse me foi incutido a partir de experiências de vida – genuinamente minhas ou por mim reivindicadas, o que, no fundo, dá no mesmo –, ainda que a concretude da experiência seja transversal, secundária ou mesmo suspensa em momentos alguns – o que, novamente, dá no mesmo. Vou procurar, aqui, levantar algumas questões que me sugerem relações intensas entre si, mas cujas formulações [das relações] me têm sido particularmente difíceis. Este ensaio servirá como um aglutinador desses meus questionamentos, temáticas e problemáticas, como uma junção de anotações esparramadas em cadernos e permeadas por flechinhas e outros desenhos, na dificuldade de elaboração mais clara que permita uma comunicação. Vejamos quão bem-sucedido poderá ser meu intento – considerar-me-ei satisfeita se vislumbrar entendimentos e, no horizonte, futuros frutíferos para as discussões aqui delineadas.

A angústia primeira que me impele a escrever é a tensão entre ação e estrutura, entre o poder desistoricizante do provável e a potência criadora do possível, que esbarra, por sua vez, nos limites da própria história, quando não nos limites da imaginação. Quanto da imaginação é de fato desafiante? Ou, ainda, quanto é possível subverter estruturas a partir de ações, sejam elas individuais ou coletivas? Suspender expectativas é subverter estruturas? É possível subvertê-las individualmente? E em quê consiste essa subversão? No questionar o que se vive? No adquirir autonomia sobre si? Autonomia perante quem, ou o quê? Autonomia de pensamento, de ação? Mas aprendemos que as idéias não caem do céu... A autonomia só poderia ser, portanto, condicionada – o que nos remete novamente a limites: qual é o limite das condições? A questão entre expectativa e coerência no desenrolar de sua própria história individual se mescla com as limitações do livre-arbítrio e a vida em coletividades e sociedade. Por fim, há que se fazer a ressalva de que muitas divisões aqui feitas são metodológicas; no fundo, parece-me no mínimo purista desejar encontrar desejos genuínos, sem influência contextual – quer em níveis pessoais e privados (história de vida de cada um), quer em níveis sociais e históricos.

Há alguns eixos centrais de idéia: política, ação, magia, história. Tentarei começar pelo primeiro. Como se desperta meu interesse em discutir política? A partir de contradições experienciadas, escancaradas, pressupostas, veladas. A partir da aparente aceitação generalizada de injustiças, ou, pior, ao ver, ao meu redor, aceitação – desprovida de angústia – das contradições. A mim, a angústia vem da repetição incessante de mortos de fome no mundo inteiro, ao lado de crescentes avanços científicos na produção de alimentos. Vem da grande mídia, quando se noticiam guerras em termos de perda de ‘recursos humanos e econômicos’ – não necessariamente nessa ordem. Vem acompanhada de revolta quando uma amiga muito querida me relata como foi expulsa de um barzinho, numa sexta-feira à noite, após beijar a namorada. Quando, numa recente visita a uma ocupação do movimento de moradia, uma moradora de um prédio vizinho, de classe média, diz que ‘também tem dó’ daquelas pessoas, mas que elas ‘preferem ficar ali’, não merecem melhorar de vida, porque não batalham pra isso. A angústia é inversamente proporcional ao sucesso da comunicação, e, nesses momentos, tudo o que consigo é silêncio assimétrico, não compartilhado e sequer reconhecido como comunicação suprema.

Wednesday, July 29, 2009

dispersões despertas

Batidas na porta da frente - é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calada,
ele ri.
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar
e eu não sei.
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração - é o tempo.
Nana Caymmi

hoje, voltava da minha aula de francês, dirigindo. tinha chovido, mas estava com sol, algumas nuvens bem densas e escuras de um lado do céu, e o outro lado já muito azul. no meio do caminho, desconhecido (dei carona pra uma amiga e acabei voltando por um caminho que nunca tinha feito) fui surpreendida por um arco-íris, que me trouxe qualquer coisa de algum lugar racionalmente intangível, e me fez brotar um sorriso.

percebi que o arco-íris é uno, holístico, e que seu centro está em toda a parte. mas sempre que ele aparece, toca qualquer coisa de muito profunda, sincera, que tem inclusive algo de pueril em sua tanta beleza. ele parece nos brindar tão-somente com aparições raras, sutis e fragmentadas, à espreita da distração que o aperceba. e viria daí seu charme apaixonante.

acontece que sempre que ele aparece e nos aflora essas sensações boas, deve ser porque ele se comunica com qualquer coisa da nossa história, da nossa memória, que faz sentido no passado e no presente. nos brinda, talvez, com a fragilidade absoluta e perfeita da vida. e a sensação que nos ilumina, num dia, vai desbotando ao longo dos outros dias, até que nos esquecemos da visita do arco-íris - para sermos lembrados pelo próprio, em mais uma aparicação magistral num futuro mais ou menos distante. e essa nova aparição faz aflorar novamente todas as sensações boas, a maioria delas inexprimíveis em palavras. alguém poderia dizer que é como um ciclo, mas não. não é ciclo, porque não tem início, meio, fim, e início de novo. como já disse, o arco-íris é uno, embora se nos mostre apenas em fragmentos.

tem sido presente, na minha vida, nas últimas semanas, pensamentos sobre a vida, a morte, o além. essa aparição desse arco-íris me fez perceber como tanta coisa da vida não tem início nem fim, como a vida em si não é início, nem a morte é fim - como já tinham tentado me ensinar os monges do templo budista em 2007, mas só agora comecei a entender o que isso significa. vida e morte se entrelaçam, e isso faz da vida absolutamente bela e una. a morte deixa, sim, muitas coisas mais difíceis de se compreender e até de se viver. mas encontro algum sentido quando penso que ela nada mais faz do que escancarar o caráter fragmentado e raro das aparições dos arco-íris. e lembro que a aparição rara, fragmentada e sutil, à espreita de qualquer falha na nossa vigilância que acometa de comoção nossos sentidos todos, nada mais é do que a percepção da presença infinda, infinita e perene (já que não há final).

presença do quê? não sei dizer ao certo. talvez seja mais uma dessas coisas que a gente só sente, e que muitas pessoas dão nomes diferentes. amor, pessoas, valores, ensinamentos, lembrança, memória, fé. o que sei é que isso se torna constitutivo da gente, e, como qualquer nova condição, é dolorosa, um pouco assustadora, e contém em si grande dose de beleza. o que nos é sempre ensinado é que, diante de condições um pouco assustadoras, a gente deve abrir o coração e compartilhar com aqueles cuja comunicação se faz mais facilmente (o pai, a mãe, o cachorro, as estrelas, o diário, o terapeuta, quer estejam nessa terra em carne e osso, quer não?). são eles que, na ação de compartilhar, desanuviam o susto e intensificam a beleza. sempre.