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Thursday, September 26, 2013

poema feito de chá


minha espera permite
o aprendizado da água –

ebulição é espetáculo
de tanto ensaio de ritmo

minha espera exige
o aprendizado do corpo:

estar montanha,
saber de si

minha espera ensina
permissiva

meu coração em fervura.

Thursday, February 21, 2013

ficou jardim


passei o dia vendo o céu da janela do meu quarto.

vibrante paleta de cores
calmas nuvens desatinos
soturno luar em senda

entendi
quando do quase sem-luz
mas era
desviei, olhei cimento e gramado e
entendi
na permanência sutil do fora

entendi o que você quis me dizer quando disse que ficou jardim.

Tuesday, February 12, 2013

por ocasião da descoberta de uma nascente


nasce-se
diante de encantados
– não pelo mistério nascente, mas pela beleza –

sem história (nasce-se
                   com o peso
                   do encontro tácito suposto

– mas nascer é brotar e só se sabe
                    do fundo da terra
                    da terra
                    celeuma magma placas tectônicas.

o brotar é em-si-mesmo
e é por isso que o rio flui.

Saturday, October 27, 2012

haikai VI


calçada, cimento fresco.
com árvore, o vento
fossiliza a primavera

haikai I

para a saudade futura
restar doce no peito
a mansidão do tempo

Thursday, August 16, 2012

da brandura à espreita

todo concreto quando em calçada
deveria por lei receber
(quando fresco ainda, é importante)
folhas na caducagem

o carimbo alinhavado
seria a prova dos nove
da brandura, sempre à espreita,
revelada a olhos atentos.

Friday, August 10, 2012

arte é movimento


não me olhe com espanto.
se enegreço o desenho tão bonito,
é tudo feito com brandura:
cai a noite na cidade.

Tuesday, August 07, 2012

do gesto cheio

para t.
sua palma da mão sobre as vestes da minha coxa esquerda
tem o peso exato do quarto
movimento da nona sinfonia de dvorak:
faz-me sentir viva.

Monday, April 23, 2012

à parte as objeções


meu tempo é o abafado das caixas de sapato
de bico-fino sob outras caixas tantas
que se logra abrir com cuidado
em tardes amenas,
antevésperas de grandes eventos.

meu tempo é o embaçado desigual da vidraça do banco de trás
quando as crianças fazem apostas mentais sobre a corrida das gotas de chuva
e desenham até onde a mão alcança
repetidas sempre vezes
e a gordura se encrusta.

meu tempo é o encurvado de uma persiana
da janela central de uma pequena casa
onde por apreço à claridade essa persiana não tem uso
e seus cantos suspensos sustentam
o bicho todo, envergado em simetria.

meu tempo podem ser coleções comuns
como vinis empoeirados,
promoções de salgadinho,
pontas de lápis, papéis.

desde que tão bem-guardadas,
lembresquecidas
como os entres, os desiguais, os desusos,
em que a sutileza impera e desarma mas
pungentes que são, não perdoam.

de uma noite de abril

ela ri como deve dançar (suponho): cheia de si.
a ela desfio teoremas de vida que arremata, tenaz:
“nega acertos de uma vida tão dual!”

liquefaz meus misterinhos e me esbofeteia a cara;
me ensina: tampouco é original acreditar no erro;
rebato com meu silêncio clamando por um carinho

desponta cumplicidade e extravasa e finjo
desperceber o esboço de nós;
é croqui, desenho atravancado.

Friday, March 02, 2012

azulejo

azulejo é um céu longínquo,
é o pássaro que ri no gorjeio hábil.
pode ser apelido carinhoso de banzo
vermelho, preto,
negro, índio,

azulejo é rastro e cheio
da incertitude é mestre.

azulejo reina com mastro e véu
e é café num copo sujo.
é sempre sempre intimidade
e também por isso sufoca:
azulejo encrustra.

azulejo pode ser
carrinho de bebê ao sol,
meneio de namorada
e seu sabor quando lento.

azulejo é todo-somente sublime
corpo em profunda terra
ou não é.

Sunday, February 12, 2012

da fruição


durmo, acordo e
te beijo
nessa ordem:
em fogo e paina
a vida flui.

não sonho e não
se inundam meus olhos quando
te sinto os lábios nos meus:
em febre e letargia
a vida paira.
em café, sons, pudores.
acordo em sebo e não é teu corpo
não é teu corpo em meu tato e
sei numa virada brusca:
é
afogar e logo
a vida plana.

movimento-me
por me saber tua
numa desordem qualquer
logro-te um afago:
a vida flui.

Sunday, November 27, 2011

expiração

'qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura'.
guimarães rosa

é no seu abraço que eu sou um pouquinho mais sã,
quando sinto sua pele dar alento à loucura.
é seu corpo todo que me benze, me dá febre curadoura
e me restaura em graça, riso e paz.
é seu sorriso que me oferece mais
confiança no mundo que ancora
minha coragem rainha,
descoberta e fugidia
num tempo de soluço
é no seu braço meu reino destemido,

e em fé e força esgarço, sem pudor nem ranço de cansaço,
a bainha da sua roupa em que cravo
minh'alma e minhas unhas, quando no seu abraço.

Thursday, October 13, 2011

um dia

meu amor, eu quero ao seu lado
um dia amarelo
um dia desses em que a luz do sol já nos amanhece amarela
e logo em seguida o prédio que espio da janela se amarela
amarelo é o menino que grita sob a mangueira
e as águas que ela esguicha só refletem douradas o amarelo
e é assim um dia de carinho confortável
o amarelo que acarinha as plantas do parapeito da sua janela
que tombam e se esticam e esgueiram todas pra espiar
essa sua toda luz que também estica ressoa e escorre
e preenche de amarelo meus olhos fechados e minha rouquidão
é amarela minha ausência de voz
qualquer movimento doce e cheio da mais sincereza possível
é inteiro amarelo um dia assim
que, infindo, não tem meio nem duração:
suspende-se e fica pelo tempo que for.