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Sunday, November 29, 2009

militância, política e moral(idade)

na sexta-feira (dia 27/11/09), fui ler a folha de são paulo, depois de ter dado a última aula de literatura do ano no cursinho popular do qual faço parte.
me deparei com uma página inteira destinada a um artigo de césar benjamin supostamente sobre um filme sobre lula, que deve ser lançado em breve (tinha ficado sabendo da existência do documentário naquele mesmo dia, também lendo o jornal). não sou do tipo que desconsidera a história de vida dos militantes, e tive pra mim o cesinha como um puta militante estudantil no final dos anos 1960 e durante os anos de chumbo da ditadura brasileira. sabia que ele tinha saído do PT e depois do PSOL, mas não sabia mais por onde andava, se continuava militando. gostei de ver seu nome (me traz alguma familiaridade, uma sensação de quentura, tenho certeza de que é porque quando li '1968: o ano que não terminou', de zuenir ventura, no auge de meus anseios revolucionários mais brutos em mente, alma e coração, o cesinha (ou o que o zuenir dizia dele) fazia meus olhos brilharem), e li o artigo numa sentada.

e confesso que fiquei atordoada. ler sobre prisões, tortura, sofrimento humano e situações-limite - ele relembra, dentre outras coisas o tempo que ficou preso em solitárias -, sempre me atormenta (foi quase um martírio ler 'brasil: nunca mais').

pra mim, é inegável que o artigo é de uma sensibilidade que comove, sem ser banal ou clichê. mas não direito por que me intriga perceber que o cerne da polêmica por ele levantada é se é verdade ou não que lula tentara abusar de um menino quando esteve preso. se for verdade, guardadas as devidas proporções, temos algo como o 'caso polanski brasileiro'. se não for, cabe pensar também duas coisas: a) ficou encrustrado na vida do então adolescente cesinha a história de deboche, a piada (ainda que de mal-gosto) do então pré-candidato petista, e, verdade ou não, a história atormentou o mais jovem, e tornou-se parte dele (não vou tratar de como discursos que remetem a traumas - além, é claro, dos própriso traumas - nos transformam, moldam, compõem); b) cesinha, que saiu do partido dos trabalhadores, foi para o partido socialismo e liberdade e posteriormente também com este rompeu, e taticamente escreveu esse texto como mais um elemento de uma campanha anti-lula. bem, é claro que essas duas hipóteses que levantei podem se embrenhar, e matizar as motivações que levam alguém a escrever um texto como esse. de qualquer modo, não estou aqui tentando investigar seu espírito e encontrar suas motivações mais profundas para a produção do artigo.

mas não dá pra não pensar em narrativas, em como narrativas fazem história (o que lula contou ou deixou de contar; o que cesinha ouviu do que foi dito ou não-dito) e são história (o que ele escreveu no artigo; a repercussão do artigo). não dá pra não pensar nos perigos e perversidades de elaborar o passado, de olhar para ele em retrospecto (e olhamos para ele deoutra maneira que não em retrospecto?). e na combinação entre as urgências de elaborar o passado em função do presente, articulado (também me parece que não tem como ser de outro modo) com vivências afloradas (quer também tidas em retrospecto - a lembrança de césar benjamin de estar preso; a lembrança da conversa com lula anos atrás; quer presente ainda pouco elaborado - a saída de cesinha do PT, e, posteriormente, do PSOL; quer prospectos - o final do mandato de lula, a possibilidade da continuidade de sua política após as eleições).

aí também não dá pra não pensar na tensão entre público e privado - e até onde vai o limite de exposição de intimidade e a politização da vida privada. se é verdade que o presidente da república tentou abusar de um menino na prisão, por que isso não veio à tona antes? estar na prisão também se configura num estado de exceção, tanto no que diz respeito às regras próprias de se estar lá, como à sociabilidade específica entre os presos. o que acontece por lá, morre lá? é passível de entrar no debate público e político, anos depois? e se não foi verdade, mas manipulação da história, ou, ainda, qualquer espécie de 'licença literária'? nesse sentido, o caso também se assemelha (embora sob espectros distintos) à tentativa de transformar em escândalo o envolvimento de dilma roussef no seqüestro político do embaixador americano, charles elbrick, também nos tempos de ditadura no brasil.

ah, os tempos de ditadura do brasil. o tempo em si já era um estado de exceção. e muito da discussão sobre o que o artigo de césar benjamin tomou um viés moral. como falar de moral e moralidades num tempo em que as pessoas eram torturadas, silenciadas e assassinadas por discordar da política nacional?

por fim, queria só deixar claro que não acho que seja irresponsabilidade política césar benjamin ter escrito o que escreveu. tampouco ingenuidade (os ex-petistas anti-lula sabem que é sutil ficar ou não perversamente mancomunados com os direitistas, não é possível que não saibam!). e eu também não tenho culhões pra acusar o benjamin de direitista nem de neoliberal - por tudo o que disse ali em cima, que, sinteticamente, tem a ver com a história do cara. e aos que argumentarem 'veja a história de vida e política de lula, e hoje ele é neoliberal', tenho minhas ressalvas. a coisa não é tão preto-no-branco assim. é claro que a política nacional tem alinhamento com a política neoliberal, mas daí a dizer que 'lula é neoliberal', chapado e desistoricizado assim, me incomoda, e não resolve o problema. antes de quaisquer acusações, gente, pelamordedeus: eu não sou lulista. a real é que eu queria entender a geração dos anos 70, dos anos 80, dos anos 90... e, bom, no fim das contas, o que fica é a angústia da e na esquerda. e a angústia de perceber que o problema de ser real ou não [a tentativa de abuso de lula pra cima do menino na prisão] vira quase secundário. ô se assusta, tudo isso.

Monday, July 13, 2009

'moscou', de eduardo coutinho (ou: orgulho de ser brasileira)

diretor e produtor sobem ao palco para apresentar seu filme, antes da exibição no festival de cinema de paulínia. enquanto o produtor faz os agradecimentos de praxe, o diretor ronda o palco, observa as marcações no chão, olha para o chão, olha para cima, põe as mãos nos bolsos, puxa as calças que caem, o claro paletó desalinhado contrastando com a calça escura (ou seria o contrário?).

dedica o filme a joão moreira salles, aquele que o salvou do convento - destinação correta, segundo o próprio coutinho, caso o documentário fracassasse antes mesmo de tomar corpo. moreira salles assiste a algumas cenas e profere a sentença: 'sim, há filme'. coutinho vê que sua carreira não será anunciada em obituário, e segue o conselho do amigo: faz um documentário longo, em fragmentos, e sem se preocupar em fazer entender a história da peça teatral a ser montada.

pois o argumento de coutinho é gravar o processo pelo qual passa o grupo galpão de teatro, quando aceitam o desafio de montar 'as tres meninas', de tchecov, em três semanas (ou um mês?). a sugestão de moreira salles não foi senão coroar aquela que, imagino, já era a intenção de coutinho, em parte justamente por se tratar de um documentário: não fazer uma livre adaptação da peça de tchekov, mas usá-la como linha condutora dos processos internos, externos, subjetivos e coletivos pelo qual passam o grupo de teatro e seus indivíduos no início de uma construção e desconstrução, como o diretor da peça de teatro diz no início do filme, de uma peça teatral.

além disso, basta lembrar de outro célebre documentário do diretor: jogo de cena. nele, coutinho consegue magistralmente mesclar memórias , fazer aflorá-las, compartilhá-las, e construir, a partir de fragmentos com um quê de realidade (i.e., as memórias alheias), as memórias de tantos personagens. em 'moscou', não se tem certeza de quem são as memórias escancaradas na tela - ainda que, por vezes, em black out. mas a origem das memórias não tem importância. o que importa é a generosidade do compartilhá-las, sem saber quão efêmeras ou quão encrustradas nos corpos alheios elas ficarão.

eduardo coutinho dá um drible na centralidade da noção de verdade, e com isso desafia nosso apego às nossas próprias noções - estanques, corretas e só nossas. ele propõe compartilhar as verdades, inventá-las, relembrar cheiros e recolori-los depois. pega emprestado uma das mais belas coisas do teatro e a põe no centro de seu belíssimo filme: a inventividade.

Sunday, June 14, 2009

Notas sobre os processos de greve e mobilização

Stella Zagatto Paterniani junho/2009

Autonomia universitária. Essa foi uma das expressões mais utilizadas em 2007, entre estudantes, funcionários e professores das universidades estaduais paulistas. Em primeiro de janeiro daquele ano, o governador José Serra lançou uma série de decretos que restringiam a autonomia administrativa e gerencial da Universidade sobre seus recursos financeiros; desrespeitavam o ensino, a pesquisa e a extensão como o tripé da Universidade pública; e convergiam com o projeto político para o ensino que já há muito está sendo colocado em curso pelos governadores que se sucedem no mandato do Estado de São Paulo.

Esse projeto político visa, como a agenda política mais ampla do governo federal, diminuir os gastos públicos com os direitos garantidos por lei na Constituição federal de 1988. Na prática, transforma-se a educação em serviço vendável, assim como se ignora a autonomia científica e de pesquisa: quem passa a trazer mais verbas para a Universidade são as empresas, com seu capital privado e seu interesse de mercado. E são elas, portanto, que passam a ditar quais são as prioridades nas pesquisas. Se, por um lado, a Universidade pública deveria servir à sociedade e reverter benefícios sociais, por outro, é justamente por não estar descolada da realidade social que os produtos da Universidade voltam-se para uma pequena parcela da sociedade. A pequena parcela que tem acesso à Universidade, que financia suas pesquisas e que se insere no jogo do mercado.

Foi para marcar sua desaprovação à essa política posta em curso, pelos governos e reitorias, para questionar que tipo de Universidade queremos, para defender a autonomia universitária e o amplo acesso à Universidade por parte da população, e por outros motivos que se desdobram desses, que os estudantes da USP ocuparam a reitoria, os da Unicamp, a Diretoria Acadêmica, e os da Unesp, reitorias e salas de aula, no ano de 2007. E a mídia noticiou, e as pessoas comentaram, e discutiu-se política para a educação em salas de aula, em salas de jantar, em bares.

A desocupação dos prédios públicos aconteceu quando os estudantes se viram enfraquecidos pela mídia, que insistia em caracterizá-los como vândalos e criminosos. A estratégia do governo estadual foi expelir um Decreto Declaratório, assegurando, nos termos da lei, a autonomia das Universidades. Não satisfeitos, mas acuados, estudantes deixaram os prédios públicos, sob ação da polícia. Na presença da tropa de choque, alguns estudantes da Unesp foram presos.

O movimento reivindicatório universitário ergueu-se com os decretos de primeiro de janeiro, fortaleceu-se ao longo do semestre e enfraqueceu com o Decreto Declaratório. Não há como negar o peso da dimensão legal no processo, nem perceber, então, o poder da lei em escamotear projetos políticos: a autonomia universitária não começou a ser ameaçada com aqueles decretos. Desde o momento em que capital privado passa a financiar pesquisas universitárias, a autonomia de pesquisa fica comprometida. Se, por um lado, as leis não bastam como garantia de direitos – pois estão na Constituição, mas não são garantidos na prática, direitos básicos, como educação e moradia –, por outro, o fato de estarem na Constituição torna-se argumento poderosíssimo, mobilizado pelos movimentos sociais para adquirirem legitimidade e, com isso, apoio da população que muito se ampara nos ‘termos da lei’.

Proponho, então, uma retrospectiva para arrematar o argumento: a contestação do movimento universitário (principalmente, estudantil) à política para a educação e o desejo de defesa da autonomia universitária teve como estopim uma medida legal que selava e expressava uma política em andamento. Essa política em andamento, porém, não condiz com o que sela e expressa, legalmente, o resultado de um amplo processo político: a Constituição Federal. Vê-se que o problema, então, precede. Pois a Constituição Federal garante a educação como direito social.

Pois bem, feita essa breve retomada de uma dimensão do complexo processo de mobilização e greve estudantil de 2007, passemos aos dias de hoje.
No último dia nove, a USP virou palco de confronto escancarado, com direito a balas de borracha e bombas de efeito moral atiradas aos estudantes, pela Polícia Militar. Estudantes, funcionários e professores da Universidade dirigiam-se ao portão principal do campus do Butantã, em São Paulo, numa manifestação conjunta cujas principais reivindicações eram a retirada da Polícia Militar do campus e o fim do mandato da reitora Suely Villela. Alguns dias antes da manifestação, com funcionários e estudantes da Universidade já em greve, a USP amanhecera com cerca de cem viaturas da PM instaladas em diversos institutos e faculdades.

À diferença da época da ditadura, hoje, a polícia militar não tem permissão para entrar na universidade, a não ser quando tem sua presença requisitada. E a reitoria da USP requisitou. Se hoje a polícia não é permitida no campus, é porque já servira a fins de coerção, constrangendo estudantes, funcionários e professores que ousassem discutir o regime ou a repressão da época ditatorial. Em 19 de fevereiro deste ano, a Polícia Federal apreendeu os equipamentos da rádio livre que funciona na caixa d’água da Unicamp, a Rádio Muda. O argumento para legitimidade de tal apreensão? Um mandado judicial de 2007, que insiste em acusar a rádio de ilegal. Também neste ano foi apreendido pela polícia, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, um computador no qual funcionava um servidor livre que mantinha pesquisas em andamento. Sabemos a função coercitiva da polícia, como braço do Estado, que detém o monopólio da violência legítima. A PM é, então, o sujeito que detém o monopólio da violência legítima. Entretanto, quem define o que é violência legítima?

Não é legítimo (e aqui recorro novamente à Constituição Federal) que estudantes se formem no Ensino Médio sem perspectivas de continuar seus estudos superiores. Não é legítimo que o capital privado possa ditar rumos de pesquisas científicas nas Universidades. Não é legítimo que estudantes sejam agredidos, em espaço público, por ousarem discordar da privatização posta em curso nas Universidade Públicas, e se parece legítimo que o governo estadual opte por expandir vagas no ensino superior através do projeto do Ensino à Distância, não é legítima a ausência de possibilidade de escolha entre o ensino virtual e o presencial a que estão condenados os futuros estudantes da Universidade Virtual do Estado de São Paulo – que em si também não é legítima, enquanto a) não prevê “o princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”, conforme consta no artigo 207 de nossa Constituição, e b) é criada a partir de um decreto, que evidencia a indisposição governamental em construir um diálogo com a comunidade universitária.

No Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, estudantes, funcionários e professores estão em greve. Além da solidariedade à comunidade universitária da USP e do repúdio à presença da Polícia Militar no campus, a bandeira específica da greve é a contratação de professores. Houve redução de quase 50% do quadro de docentes, de dez anos pra cá, enquanto o número de estudantes cresceu. Sobrecarrega-se o professor, que, se quiser continuar com sua pesquisa – que não recebe capital privado por não ser de interesse imediato do mercado –, não pode se dedicar à formação dos estudantes. Os problemas de infra-estrutura também são alarmantes: a biblioteca, em reforma, foi inundada num dia de chuva forte, e correu-se o risco de perder parte de um riquíssimo acervo.

A greve acaba por ser o instrumento historicamente utilizado para deixar claro o posicionamento dos que contestam o status quo. Nesse momento, o desejo é chamar a atenção da população ao projeto político em curso na educação. Mobilizamo-nos e paramos nossa produção intelectual para nos dedicarmos a pensar sobre o projeto político privatista da educação e manifestar nosso descontentamento com esse tipo de Universidade. E quando a polícia militar é requerida na Universidade, e ouvimos, de outro lado, que é inadmissível a presença da polícia no campus, é hora de questionar, também, se é admissível a presença da polícia em outras manifestações de outros movimentos sociais. No centro da cidade de São Paulo, por exemplo, são muitos os pedidos de reintegração de posse de imóveis públicos ou privados, outrora ociosos e então ocupados, que são processados com a ação truculenta da polícia militar – muitas vezes envolvendo prisões e mortes de militantes. Esses imóveis são, também eles, pontos de ilegitimidade, se vistos sob o viés da Constituição, pois descumprem a função social da propriedade; e quando a reintegração de posse é cumprida, vê-se aí outra ação ilegítima: veda-se o direito à cidade, discutido e concretizado, em lei, no Estatuto da Cidade. É a polícia militar atuando na criminalização dos movimentos sociais, e fazendo uso de sua ‘violência legítima’. Legitimidade para quê(m)?

Monday, October 20, 2008

Da estrangeirice

Hoje em dia, só se tagarela. O silêncio na biblioteca tagarela tão que desconcentra, eu fico desconcertada com a desarmonia que atrapalha. As luzes dos postes apostam brilhos mil no carro que vai quebrar, ou no motorista que vai primeiro buzinar. Eu batuco as mãos na direção, no ritmo da música, mas é só pra dar vazão ou disfarçar a ansiedade. Chego em casa e o carro tagarela, a bagunça do quarto clama por atenção e insiste em vigiar meus passos. O arroz e a abobrinha disputam a apreciação; o dispêndio de tempo de quem engole tudo às pressas. A ânsia em chegar em casa para ligar a televisão e obter um pouco de silêncio, ainda que pago pra ver.

Tuesday, September 25, 2007

Choque

Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar
por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque,
um batuque com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui.
(Gilberto Gil)


Acabo de assistir a um vídeo que mostra a brutalidade a ação arbitrária da polícia norte-americana. Um estudante, ao fazer uma fala durante um evento com a presença do senador John Kerry, é interrompido pela polícia, agredido pela polícia e leva um choque elétrico da polícia. O porquê da interrupção? Segundo o comentário de alguém que assistiu ao vídeo e quis deixar sua opinião aos internautas:

This is hilarious. It's hilarious because people actually see this as police brutality. It isn't. It's also hilarious because the dumbass kept asking "what did I do? What did I do?" Let me enlighten you then dumbass:
You asked too many questions, especially the ones you're not supposed to ask, you're resisring arrest, you charged a cop afterwards and said it was police brutality when you got tazed?

Não sei dizer quais foram as perguntas que o estudante fez, mas num país que se vangloria de sua democracia pluralista, das iguais oportunidades que dá a todos e que assegura a todos os cidadãos, em sua Constituição, a “busca pela felicidade”, é possível que hajam perguntas que não possam ser feitas?

Ah, sim, é o mesmo país que comanda invasões em outros países alegando levar a tocha dourada e flamejante da democracia, enquanto seus soldados estupram mulheres e crianças na linha de fogo criada no Iraque. É o mesmo país que diz “lutar contra o terrorismo” e barra a entrada de muçulmanos em seus aeroportos. E barra mexicanos e brasileiros em suas fronteiras. O mesmo país que teve ônibus em que brancos se sentavam na frente e negros, atrás.

É, fundamentalmente, o país que se vangloria de respeitar, esticar e promover as liberdades individuais para seus cidadãos. Seus cidadãos? Aqueles brancos ricos que trabalhavam no World Trade Center e que também tiveram suas famílias destruídas no que chamaram de “ato terrorista de 11 de setembro”? Minimamente, a política norte-americana não consegue mais conter e sufocar os absurdos, e as desumanidades; a contradição entre o capital (a lógica do capital) e a vida humana extravasa os limites que – sendo otimista – qualquer chefe de Estado poderia prever.

Especulando. A polícia poderia alegar “perturbação da ordem” ou “desrespeito à nação”. “Nação”, este conceito vazio, cuja alegação de defesa serve para apaziguar e eufemizar violências e crimes cometidos inclusive à luz do dia numa universidade bem-conceituada do país. Lembro o recente massacre ocorrido recentemente numa universidade tecnológica norte-americana, também, quando um estudante atirou e matou vários colegas e depois também se matou.

Não podemos culpar este estudante, tampouco os policiais arbitrários. Tampouco a “burguesia” ou os “filhinhos de papai”. Fato é que nos é dada uma realidade imediata, na qual as relações entre pessoas são de plástico e tão “coisais” como a relação entre um controle remoto e a televisão. Inversamente, as coisas passam a ter vida própria: o carro novo nos dá alegria, o CD de jazz nos dá prazer. Estamos todos – trabalhadores, burgueses, classe média, operário, capitalista, funcionário público, estudante; utilize a nomenclatura e a categorização que quiser – submetidos a essa lógica de coisificar relações, tratá-las como coisas e nos subordinarmos às mercadorias. Cada um de nós, porém, apreende a realidade da maneira como ela nos é colocada. É como se existisse, objetivamente, uma só realidade; mas as percepções dela variassem de acordo com a localização da pessoa na estrutura social, ou na rede de relações, ou na esfera da produção, ou no papel religioso que essa pessoa possui, enfim. “A polícia”, como categoria social, cumpre sua parte no processo muito mais amplo de subordinar à idéia vazia de nação e à violência, a vida humana.

No país que lidera a consolidação do capitalismo global, não é difícil esperar uma atitude dessas. Mas que choca – com o perdão do trocadilho –, choca.

Monday, September 24, 2007

alô, Tião! 68?! Foste? Fui!

- Ô Tião!
- Oi?!
- Foste?
- Fui!
- Compraste?
- Comprei!
- Pagaste?
- Paguei!
- Me diz quanto foi.
- Foi quinhentos réis...

(Gilberto Gil)


A razão jamais dirigiu verdadeiramente a realidade social, mas hoje está tão completamente expurgada de quaisquer tendências ou preferências específicas que renunciou, por fim, até mesmo à tarefa de julgar as ações e o modo de vida do homem. Entregou-os à sanção suprema dos interesses em conflito aos quais nosso mundo parece estar realmente abandonado. (Horkheimer)


Escrevo estas linhas em setembro de 2007. Quase 40 anos desde o ano de 1968. Mil novecentos e sessenta e oito. Foi um ano de agitações, de questionamentos, de elaborações de idéias e de projeto de sociedade insaciáveis. No Brasil, quatro anos após o golpe militar, o ano de 68 foi despejar nas cabeças dos milicos que a ditadura e a repressão era o que os estudantes não queriam. Não estavam contra a ordem a priori, ou per si. Queriam viver, transformar, revolucionar, fazer história – sem esquecer seus mortos. Tomaram contato com Marcuse, Benjamin, Simone de Beauvoir, Sartre e Althusser. Politizava-se tudo: o sexo, as festas, o amor, a liberdade – tão almejada e reivindicada – e a própria política. A politização da política, a argumentação embasada, a experimentação de limites.


E não é porque os jovens foram os protagonistas desse ano – que, segundo o título do livro de Zuenir Ventura, é O ano que não terminou – que essa ânsia pela mudança deve ser considerada natural da juventude. O Brasil viveu o golpe de 1964 e a instauração de sua sui generis ditadura, que funcionou com o Congresso não-esfacelado (ou menos institucionalmente) durante um bom tempo; a cultura beat influenciava padrões comportamentais, bem como desafiava qualquer discurso moral o advento das mini-saias. E a influência do estrangeiro não se deu de mão única. A Tropicália[1] de Gil e Caetano buscou re-significar aquilo que vinha de outro continente e invaida a música brasileira – invasão que alguns chamavam de influência e outros, de imperialismo –, aliando às guitarras elétricas a sonoridade brasileira. A esquerda ortodoxa condenou tal atitude, e a falsa dicotomia criada entre a Bossa Nova e a Tropicália – reproduzindo, aliás, as taxações maniqueístas da época, comuns dentro da esquerda, como revolucionário ou reformista; povo organizado ou povo armado – contribuiu para a ira de Caetano, que foi vaiado ao entoar o que seria atribuído a posteriori como símbolo da geração de 68: o hino É proibido proibir. Sua resposta às vaias? “Se as idéias que vocês têm em política são as mesmas que vocês têm em estética, estamos feitos!”


E enquanto a esquerda se degladiava internamente (qualquer semelhança com o movimento estudantil de hoje é mera coincidência?), buscava a unidade contra aquilo que elegeram como inimigo comum: a ditadura e o imperialismo. À parte as diferentes interpretações e sutilezas (ou não) do imperialismo, como dito no parágrafo interior, faltavam coesão e estratégias conjuntas. Pensar a política como a arte da estratégia parecia ser pouco visceral, limitado demais para os estudantes, artistas e até mesmo intelectuais que, quando se tratavam de limites, preferiam a radicalidade à racionalidade – talvez o eclipse da razão, para usar o termo de Horkheimer, formasse também um maniqueísmo simplificado: as condições subjetivas para a revolução, a contemporaneidade de Fidel Castro, Mao e Che facilitavam a crença na vontade e a negligência – nem sempre velada – à razão. Ser radical é tomar as coisas pela raiz. O problema era a confusão de qual era e onde estava a raiz. A raiz era o povo brasileiro? O conceito vazio de nação? A cultura internacional era uma afronta às nossas raízes? Se “a raiz é o próprio homem”[2], há essencialmente um substrato comum que engendra a humanidade?


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Notas


[1] Assim como Augusto de Campos, prefiro falar em Tropicália no lugar de Tropicalismo. O sufixo “ismo” denota, das duas, uma: caráter pejorativo ou historicidade. E, apesar de não deixar de enxergar a Tropicália com historicidade, seus integrantes preferiam dizer que estavam fazendo nascer, conscientemente, o novo. Atribuir à Tropicália uma temporalidade é algo que eles não desejavam; limitar, ainda que no espaço-tempo, é confinar e restringir. (ver CAMPOS, Augusto de. É proibido proibir os baianos, 1968. In: CAMPOS, Augusto de, Balanço da bossa e outras bossas. São Paulo: Perspectiva, 1978.)

[2] MARX, Karl.

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Eu devia escrever "continua", mas não sei, não. Talvez to be continued.

Saturday, September 15, 2007

Tá lá o corpo estendido no chão...

Não era uma madrugada tediosa de domingo, nem uma tarde odiosa de segunda-feira. Era uma tarde de sábado. Bucólica, crianças brincando na rua, adultos discutindo a política internacional no almoço, a vó botando panos quentes entre a tigela do pernil e as discussões calorosas entre gerações, a neta virando os olhos enquanto o vô dissertava sobre as utopias dessa juventude; discordavam e admiravam, nem sempre veladamente, as argumentações de um e outro.

Passa o tempo. Pode ter sido numa tarde de sábado, também, nem tão bucólica como aquelas. Caíram nas mãos da menina algumas palavras que lhe tiraram o chão. Fulana, poesia, marxismo, desejo, mar e violão.

O corpo estendido no chão tornou-se natural. Ela deixou, sem arrependimento, cair uma lágrima pelo sem-nome interrompido. Sequer atrapalhava o sábado. Não vislumbrava possibilidade de acreditar – dotada de racionalidade, emotividade e senso crítico, ainda – em qualquer coisa.




E não pendurei na parede do meu quarto o pôster do Che Guevara.

Thursday, September 13, 2007

You say you want a revolution...


Neurose do passado. Desmesura do mal praticado. Deslumbramento. Alienação da memória. Esquecimento, ressentimento, culpa. Elaborar o passado. Theodor Adorno, em seu texto O que significa elaborar o passado, faz uso de todos esses termos para, a partir da experiência do nazismo alemão, incursar-se na discussão sobre memória de um povo, sua construção identitária e urgência alemã de elaboração do passado. “O nazismo sobrevive”, diz ele, e cabe aqui uma conjunção explicativa, e não de oposição: sobrevive justamente porque dele não se fala. Não sucumbiu à própria morte.

Qual a relação entre o indizível e o ser humano? Uma relação de fascinação? Seria o indizível marcante nas relações humanas? Seria, por exemplo, o indizível destrinchado por poetas e resumido por leigos em ‘amor’? – embora não com menor intensidade, mas com restrita significação ao transbordar o indizível em palavras. Foucault, em sua História da sexualidade, pondera que o silencio sobre o sexo denunciava o pudor existente na sociedade sobre o assunto. Hoje, fala-se tanto em sexo, mas será esse alarde genuíno ou expressão de necessidade – pautada por tentativa e erro – de autoconvencimento da (reivindicada) naturalidade do sexo? Wittgenstein proclamava a linguagem como uma multiplicidade de usos e que celebrava a interação de significados. Significados dotados de atributos sociais, mas também de historicidade individual – já que cada um preenche, a partir de sua história de vida, as palavras e as suas relações com os homens e as coisas. Ao engendrar historicidade no indizível, este adquire significação mais universal em relação a um determinado grupo de pessoas. A história e a cultura tornam-se elementos-chave para a construção de identidade de um grupo social: fazer do indizível, assim, característica fortemente social e de coesão, e não mero atributo subjetivo.

A não-elaboração do passado contém não somente um caráter subjetivo de negação da tragédia a partir da desmesura do mal praticado. A negação do embrutecimento pessoal – brutal e, segundo Freud, fatal em determinadas experiências traumáticas –, por exemplo, é fator importante na não-elaboração de um passado individual. Mas um passado de proporções como o nazismo não é factível de ser analisado apenas sob o viés individual e pessoal. Adquire expressão social também, assim, a neurose do passado. (vide post anterior)


...well you know
we all want to change the world.

Friday, August 31, 2007

que pousou na sopa

A sua mesquinharia se faz sentir em mim. Seu anti-desejo de não perceber quão terrível é a queda. Meu medo de machucar ao ver o chão mais de perto se desfez; somos dois bebês encantados com o mundo exterior que de nós se separa instante por instante – já. Por mais que a gente se machuque, se estrepe, se foda. A gente tem esperança. E sonha. A sua presença me mutila, e não me abandona. Meu medo se desfez; o que a gente quer é a intensidade. Ai de quem não rasga o coração.



Quem sou eu pra falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim.
Chico, aquele lá, sempre, claro, o Buarque de Hollanda.

Tuesday, July 17, 2007

Catando a poesia que entornas no chão

Se, para além de manter-nos, os sonhos nos desenham possibilidades a serem vasculhadas, e, bolhas de sabão que são, a nos rodopiar nos confundem, o que resta é entrar na roda de dança. Cirandear, como crianças. Perguntar, com a esperança de ser ouvido e a crença na resposta, a construir verdades imaginadas, roubadas e desvendadas. Vendavais desconseguem assustar àqueles que têm suas certezas amparadas em bases frágeis não-fixadas; pode-se começar por qualquer canto onde haja uma restinha de sol. De sol. Bom dia.

Saturday, July 14, 2007

Da liberdade

Vivemos numa sociedade onde, apesar de marcados traços nacionalistas e forte propaganda nacional de enaltecer a auto-imagem do brasileiro, somos migrantes. Desde o simples trajeto diário casa-trabalho-casa até as excepcionais viagens de férias em família, ou viagens ao exterior para negócios; nos deslocamos para cumprir nossos papéis na sociedade – os quais se transformam de acordo com os locais de destino. Assim, o pai de família é o empresário bem-sucedido, o patrão autoritário e o sobrinho inconveniente. O trabalhador pobre é pai de família, empregado explorado e ajudante de pedreiro nas horas vagas. A filha mais velha é a neta favorita, a melhor aluna na escola e uma turista aspirante à jornalista nas praias do Nordeste, em janeiro.

Ironicamente, a geração dos anos 90 é tida como a “geração dos filhos de pais liberais” (liberais no sentido de não-autoritários, flexíveis e compreensivos), mas é a todo momento condicionada – por normas na maioria das vezes não-ditas, mas que pairam na sociedade. O espaço geográfico comporta peculiaridades, as quais nos impelem a cumprir os papéis exigidos por determinados ambientes e situações. Mas e quando estamos no ato de migrar? Os jovens, por exemplo, de classe média, alta e baixa, passam muito tempo no caminho de casa para a escola ou para o trabalho. Seja no ônibus, no carro ou à pé. Será que nesses momentos, são destituídos de qualquer papel social?

Alguns antropólogos caracterizam os meios de transporte e os caminhos por não-lugares. Mas e se passamos boa parte de nossos dias nesses não-lugares, passamos o dia sendo “ninguém”? Penso que não; afinal, se o espaço geográfico é importante, ele não é característica sine qua non para se formar uma identidade. Os diferentes papéis sociais que um indivíduo cumpre se entrelaçam e se co-determinam.
Além disso, se o não-lugar nos torna caminho diário e é incorporado à nossa rotina, passa a fazer parte de nossa vida e nos influencia e vice-versa. Quanto de nós pertence a um lugar, é reflexo do lugar, e vice-versa?

Entretanto, quando estamos na situação não-rotineira de migrantes, somos destituídos de laços consistentes; não estamos mais ligados ao lugar de onde saímos nem, ainda, ao destino. Experimentamos, assim, uma sensação de liberdade para criar quaisquer personas e assumir quaisquer papéis que se deseja. E nos atinge a problemática: “livre para fazer o quê?”.

Inseridos numa lógica segundo a qual tudo se transforma a tende à mercantilização e tem sua importância de acordo com sua finalidade – ainda que esta seja falseada para o hedonismo –, reproduzimos a lógica da busca pela necessidade de consumo da liberdade. Procuramos dar sentido; a liberdade não pode simplesmente ser condição para o homem ser homem, para o homem realizar plenamente suas faculdades, emancipar-se e ter consciência de si. Não. A liberdade é mais um bem consumido, e desprezado se não é nele encontrado sentido palpável, material e imediato. Não se pergunta mais o porquê da liberdade; mas para quê a liberdade. E essa inversão deve ser revertida, para a liberdade, enfim, poder constar em nosso ser.

Sunday, June 24, 2007

A noite desceu.
Que noite! Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes
cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio.
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave,
as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência,
um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce,
de tão necessário para colorir
tuas pálidas faces, aurora.


Drummond

Friday, June 22, 2007

A inversão dos números

A redução do número de professores e o aumento do número de estudantes exemplificam a política do governo estadual de redução dos investimentos na educação e os prejuízos para o ensino superior paulista.

A universidade pública, para a maioria dos jovens, tornou-se apenas um mito. A má qualidade da educação oferecida pelo governo para o ensino básico e médio e o fortalecimento das escolas e cursinhos privados não contribuem para a democratização do acesso à universidade pública. Soma-se a isto o contexto de competição expresso pelas regras do vestibular e o fato de 71% dos estudantes universitários estarem em instituições privadas.

Esta política de estímulo à privatização da educação é impulsionada desde a década de 90 por sucessivos governos neoliberais (Collor, Fernando Henrique e Lula da Silva em âmbito federal; além dos sucessivos mandatos estaduais do PSDB em São Paulo, por exemplo). É característica deste programa político a transformação da educação, que é – ou deveria ser, de acordo com a Constituição federal (art.205) – direito (obrigação do Estado para com toda a população) em serviço (passível de negociação, compra e venda, em esfera civil e individual). Esta política é um entrave à universalização do ensino superior público, gratuito e de qualidade.

Diante deste quadro de desmonte do sistema educacional público, neste ano se fortaleceu o processo de mobilização de estudantes, funcionários e professores contra estas políticas privatistas, e em São Paulo a greve de estudantes e funcionários persiste nas três universidades estaduais (USP, UNESP e UNICAMP). O estopim da crise foram os decretos do governador José Serra, que versam contra a manutenção da autonomia universitária financeira, administrativa e didático-científica; institucionalizam a separação entre ensino e pesquisa e entre trabalho intelectual e técnico, e submetem (quando não desprezam) a extensão – que, juntamente com o ensino e a pesquisa, forma o tripé funcional da universidade – a interesses privados. Com o Decreto Declaratório nº 1, fruto da forte mobilização popular, o governador mostra um recuo; porém o caráter prejudicial dos decretos e da política que eles explicitam para as universidades e centros de pesquisa estaduais foi mantido – expresso, por exemplo, na manutenção da secretaria de Ensino Superior.

Um dos decretos, o nº 51.471, afirma que ficam vedadas a admissão ou contratação de pessoal no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta, incluindo as autarquias, inclusive as de regime especial [as universidades públicas se encaixam nesta categoria], as fundações instituídas ou mantidas pelo Estado e as sociedades de economia mista. Apesar de recuada com o Decreto Declaratório nº1, o decreto nº 51.471 institucionaliza o problema da não contratação de funcionários e professores nas universidades estaduais paulistas, sem acompanhar o crescimento do número de estudantes nas mesmas, contribuindo para a queda da qualidade da educação e deficiência em seus aspectos estruturais.

A falta de professores é evidente, e os números são alarmantes. Na Unicamp, de acordo com a Diretoria Geral de Recursos Humanos (DGRH) e a Diretoria Acadêmica (DAC) desta universidade, o número de estudantes de graduação subiu de 7.280 para 17.275 entre os anos de 1989 e 2006. Neste mesmo período, o número de professores, de forma inversa, caiu de 2.103 para 1.827. Neste contexto, a relação aluno/professor, que em 1989 era de 6,5, passou para 17,4 em 2006. O que pode parecer algo vantajoso – aumento da produtividade docente – é, antes de tudo, indício de queda na qualidade do ensino e reproduz uma lógica produtivista, sem preocupação com a formação integral do estudante, visto que é humanamente impossível manter o mesmo nível de qualidade da educação com um aumento grosseiro do número de estudantes em relação à redução do número de docentes. Também exemplifica a redução dos gastos do governo com a universidade pública, privilegiando a entrada de capitais privados para financiamento de pesquisas.

Outros dados para exemplo: Na Faculdade de Educação (FE), o número de estudantes de graduação era 497 em 1996, e passou para 1.878 em 2006. No mesmo período, o número de docentes, caiu de 106 para 98; no mesmo tempo, o número de estudantes da Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo (FEC) passou de 402 para 654, enquanto o número de docentes manteve-se praticamente o mesmo (de 75 para 76). Também nestes dez anos, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o número de graduandos desde 1996 subiu de 649 para 1.037. Já o número de professores caiu de 116 para 94. É importante salientar que neste instituto foi construída pelos estudantes uma campanha pela contratação de 75 professores, segundo cálculo dos próprios discentes para manutenção da relação aluno/professor de dez anos atrás, visando a manutenção da qualidade das pesquisas e das disciplinas oferecidas.

Os problemas advindos da queda do número de professores e do aumento do número de estudantes, ambos significativos, podem ser até abafados na opinião pública com as informações que os reitores destas universidades expõem na mídia, como o crescimento porcentual das pesquisas desenvolvidas nestas instituições. Porém, dentro da universidade, muito longe do que surgem nas manchetes de jornais, estudantes percebem a queda da qualidade do ensino e o descaso do governo com a educação superior pública, explicitada também na falta de políticas de assistência estudantil – como moradia, transporte e alimentação –, na redução do número de funcionários contratados por concurso público (acompanhado por um latente processo de terceirização e conseqüente precarização do trabalho), nos processos de flexibilização curricular, e que em conjunto promovem uma universidade sem pensamento crítico-científico, de formação técnico-operacional e voltada única e exclusivamente para os interesses do mercado.
As mobilizações e greves que vemos surgem em resposta a esta política que não prioriza nem zela pelo ensino público. Não nos mobilizamos para manter “privilégios”, mas, pelo contrário, para universalizar o acesso ao ensino público de qualidade e para impedir que a universidade se afaste cada vez mais do sentido que atribuímos a ela: o de exercer uma função social, buscando soluções aos problemas da sociedade – em especial da população pobre e trabalhadora – e sendo, bem como diz a Constituição, um direito para todos.

Stella Paterniani e Sydnei Melo (estudantes de Ciências Sociais da Unicamp)

Sunday, April 08, 2007

"Qual a parte da sua estrada no meu caminho?"

O filme 300, de Zack Snyder, recria a batalha das Termópilas, ocorrida em 480 a. C., na qual o rei Leônidas e 300 espartanos enfrentaram e venceram por 4 dias o exército persa de mais de cem mil soldados. No quinto e último dia da guerra, porém, são traídos por um espartano disforme que, por sua forma física, não é aceito em Esparta. Esse traidor alia-se ao exército persa, comandado pelo rei Xerxes, o qual – ainda que falsamente – elogia e dá valor, riqueza e mulheres àqueles que o reverenciam, a ele se curvam e se aliam. Assim, a negligência do rei para com aquele que deseja ser seu súdito mas não cumpre os requisitos necessários para pertencer à sociedade espartana culmina, enfim, no fracasso da batalha.

Quanto de egoísmo, ânsia individual pelo poder, desejo de se manter lembrado na história e vaidade humana estão presentes numa guerra? No caso da batalha das Termópilas, o álibi para o enfrentamento começar é a ordem que traz o mensageiro persa aos espartanos: água e terra. Que Esparta ceda território e água ao povo persa.

Conhecida por seu caráter bélico aliado a um forte sentimento patriótico, Esparta tinha como um de seus principais objetivos fazer de seus cidadãos bons soldados: bem treinados fisicamente, corajosos e obedientes às leis e às autoridades estatais. O mensageiro, no filme 300, é morto por desafiar e insultar o rei Leônidas. Tivesse ele um pouco mais de tato e menos “desrespeito para com as autoridades e o povo de Esparta”, evitar-se-ia a guerra? Tivesse o povo persa pedido – e não exigido – água e terra, Esparta teria, amistosa e generosamente, atendido à necessidade de seus vizinhos?

Não se pode pautar a História pelo que poderia ter sido, mas qual é a responsabilidade do orgulho e da vaidade humana e das relações pessoais nas relações políticas e em seus desdobramentos? Há grandes tragédias cujo início foi um rompimento diplomático – a própria segunda guerra mundial, por exemplo. Afinal, os governantes são também seres humanos e têm suas paixões, interesses e sentimentos aflorados, questionados e contrariados constantemente.

Além do questionamento sobre a predominância da vaidade e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos, o filme de Zack Snyder nos faz pensar nos anacronismos existentes ao se adaptar ao cinema – ou à literatura, ou mesmo ao analisar academicamente – épocas históricas tão distantes da atual. Um exemplo disso é a dor expressa pela mãe de uma criança quando, aos sete anos, esta deixa os cuidados da mãe para viver sob a orientação do Estado, que tinha professores especializados para educar seus cidadãos desde pequenos (Hoje, inclusive, eu diria que o ditado “É de pequeno que se torce o pepino” é bem aplicado e diz muito sobre a educação espartana). Os jovens levavam vidas muito austeras, vivendo em pequenos grupos, realizando exercícios de treino com armas e aprendendo as táticas bélicas de formação.

A dor maternal, entretanto, é fruto da interpretação de nossa sociedade atual do fato. Porque em Esparta, essa separação aos sete anos de idade era costume. Os costumes são raramente questionados e, por seu caráter universal e existente na consciência coletiva da população, são facilmente aceitados e naturalizados. Assim, não há porque a mãe do menino sofrer por não mais conviver com seu filho: seus laços não são estabelecidos da mesma maneira como o são os nossos, atualmente. O amor – no caso, o maternal – e a afeição, como construções sociais e culturais, são diferentes entre sociedades e entre épocas.

Problematizações históricas à parte, não se deve esquecer que o filme é belíssima adaptação cinematográfica da história em quadrinhos de Henry Miller, a qual retratou o caráter mítico adquirido pela batalha dos 300 homens de Esparta. Seja por vaidade, orgulho, segurança ou patriotismo; seja por motivos coletivos ou individuais, os 300 cidadãos/homens/soldados espartanos “saíram da vida para entrar na História”.
(E Rodrigo Santoro não deixa a desejar.)

Saturday, March 24, 2007

Sobre o ser e o estar

"Neste instante-já estou envolvida por um vagueante desejo difuso de maravilhamento e milhares de reflexos do sol na água que corre da bica na relva de um jardim todo maduro de perfumes, jardim e sombras que invento já e agora e que são o meio concreto de falar neste meu instante de vida. Meu estado é o de jardim com água correndo. Descrevendo-o tento misturar palavras para que o tempo se faça. O que te digo deve ser lido rapidamente como quando se olha."
Clarice Lispector, "Água viva"


O verbo ser não existe em tupi. Talvez porque eles tenham consciência da pretensão que o verbo exprime e, ao mesmo tempo, de sua comodidade. O que é, é. Permanentemente. O verbo ser expressa uma certeza, necessária a uma certa serenidade – ainda que aparente e ilusória – buscada pelo ser humano na nossa sociedade ocidental capitalista, onde definições são procuradas e distribuídas. Entretanto, o ser é pautado pelo ter: o que se pode consumir é aquilo que define o ser, aparentemente para a vida toda – que acaba por tornar-se um acúmulo de definições vitalícias que se superpõem mas não necessariamente se substituem.

Na nossa gramática, o verbo ser define as frases subordinativas. Ele compõe, essencialmente, a oração principal. Assim, exprime-se uma lógica hierarquizada, na qual o ser exige um predicado e, no momento em que esse predicado é definido, a limitação pautada por ele é gigante. No momento em que se passa a ser, deixa-se de ser, também, o que outrora poderia tornar-se. Na vida social, deixa de ser verbo de ligação para ser verbo intransitivo.

Mas se o verbo ser não existe em tupi, é porque a existência não é pautada por definições permanentes e excludentes. Expressa-se não a essência das coisas, mas o seu estado: o uso crucial e comum é o do verbo estar. As situações parecem se caracterizar como mais flexíveis e passíveis de adjetivações flutuantes. Não se é; está-se. O estar passa a definir momentos, talvez com maior relatividade de classificações e sem receios de atitudes das quais não se possa desprender ou arrepender-se.

Se na nossa sociedade, percebe-se, o ser é definido pelo ter, e este nos define essencial e imutavelmente, há que se lutar contra esses tipos de aprisionamentos e defender uma sociedade na qual o ser seja flutuante e não deposite em si tanta responsabilidade. Uma sociedade na qual o estar assuma a intransitividade. Onde as pessoas não sejam definidas pelo que possuem; onde as pessoas não sejam definidas, sejam apenas sentidas em seus diferentes estados de estar. Onde o verbo ser conste apenas no dicionário, com explicações ininteligíveis e impossíveis de serem compreendidas, numa sociedade onde não se é. Está-se.

Saturday, March 10, 2007

"Meu grito inimigo é: cê foi mó rata comigo"

Ratos permeiam minha mente. Talvez somente pelo lirismo, talvez pela sua comedida situação de estar só no mundo e mal-viver. Talvez pelo desprezo que sofrem e pelos caminhos que, ébrios, traçam e seguem à risca, a esmo. Esmola é o que ratos não pedem. Dependem, quiçá, do desprendimento alheio. Ouvidos atentos, tosados, pelados, olvidos do mundo. Domésticos, quase, nesta semi-pós-modernidade difusa, perversa, invertida, atordoada. Doada até os dentes por aqueles que não têm valor. Loucos, trapezistas, equilibristas oscilantes ante a vida e perante a esperança e a desgraça. Graça. Graça de manipular, de pular e mergulhar e tecer os meneios dos impunes hospedeiros. Eiras e beiras, bancos pra que te quero! Esmero meu, nosso, vosso, e bendito é o fruto da macieira àquele de eira, ao sem beira. Beirando a estupidez segue-se, seco e arrogantemente rumo ao quintal. Tal é a música a ser dançada; exigem-se rodopios, frevos e lambadas. Mais nada.

Monday, February 05, 2007

C.R.A.Z.Y. diamond, shine on

“This is Major Tom to Ground Control.
I'm stepping through the door,
and I'm floating in a most peculiar way.
And the stars look very different today.”

A coragem de olhar o mundo sob outro ponto de vista, expressa especialmente nesse trecho de “Space Oddity”, de David Bowie, é um dos assuntos predominantes em “C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor”, de Jean-Marc Vallée. Zachary Beaulieu, quando dubla o clássico de Bowie – em fase Ziggy Stardust, no auge dos anos 1970 – vestido e maquiado como tal, escancara-se ao mundo – ou ao menos à sua vizinhança – por ter deixado aberta a janela do quarto, palco principal das epifanias adolescentes.
O garoto é o sétimo filho da família Bealieu, mas tem quatro irmãos – três foram abortados. E de acordo com as superstições canadenses – que têm suas correspondentes na cultura brasileira, como o mito bem divulgado em histórias do Chico Bento, de Maurício de Souza, de que o sétimo filho tende a tornar-se lobisomem –, sua mãe acredita que ele tem um dom. Soma-se a isso o nascimento do menino no dia 25 de dezembro e sua capacidade de acalmar o choro dos bebês com cólicas quando os segura.
Nascer no Natal é experiência traumática para as crianças, desde cedo imersas na lógica capitalista: é o fim do mundo receber apenas um presente no combo “Natal+aniversário” enquanto todos os amigos recebem dois ao longo do ano. Como se não bastasse, não é permitido a um menino ganhar um carrinho de bonecas. Pergunta-se a uma menina porque ela ganha bonecas, e não bola de futebol. Ela responde, naturalizando: “Porque eu gosto de bonecas. E bola é coisa de menino.” E ela não deve gostar de “coisas de menino”. Poda-se o interesse genuíno e inocente de menino por bonecas. No filme, o pai de Zac tenta contornar a situação, dando-lhe de presente uma vitrola, um banjo, uma bateria... E vê-se formada a banda completa antes mesmo do garoto completar dez anos de idade.
Conforme cresce, Zac vive um romance com uma amiga, para tentar enquadrar-se ao permitido e fugir de seus desejos por “coisas de meninas”. A homossexualidade do rapaz é percebida, mas não aceita pela família – principalmente pelo pai. O orgulho viril masculino de ter concebido cinco filhos homens não pode ser atacado nem desconstruído dessa maneira. A dependência química de Raymond, irmão mais velho de Zac, é mais facilmente aceita pelo pai do que o desonroso filho homossexual.
“Há dois tabus aqui em casa. Eu e Raymond.”, diz Zachary. Poderia ter dito: “as drogas e a homossexualidade”, mas ao personificar e, conseqüentemente, fundir o tabu às respectivas personas estampa um significado de irreversilibidade e aceitação dos fatos e características intrínsecas aos dois. Caberia, então, a todos, lidarem com o que não tem remédio.
A relação do menino com a mãe também é emblemática, e caricatura as mães compreensivas e mediadoras dos conflitos domésticos. O filme ultrapassa o lugar-comum de famílias de classe média e suas crises burguesas quando Zac, num ímpeto, vai para Jerusalém buscando uma espécie de retiro e compreensão de si mesmo. Mas a escolha do lugar para a viagem é fruto de influência direta da mãe, católica fervorosa, que sonhava em conhecer a terra santa. É nessa terra santa, enfim, onde Zac vive uma paixão homossexual e se entrega – com o perdão do trocadilho – aos pecados da carne. Agoniado, telefona para a mãe. Ela sabe que é o filho ao telefone, bem como sabe da inquietude do menino, como bem o sabem sempre, as mães. Segue-se uma das mais belas cenas, quando Zac, descoberto, por fim, deixa o quarto e, no amanhecer, vislumbramos um corpo masculino, por fim, semi-coberto espreguiçando em sua cama.
O diretor consegue, ainda, transmitir beleza original e espontânea a cada cena. O figurino, os carros, o Canadá dos anos 1970, a capa de “The dark side os the moon”, álbum clássico pink floydiano desenhada na parede do quarto de Zac e a trilha sonora também composta de clássicos de Rolling Stones e dos já citados Bowie e Floyd são expressões muito bem desenvolvidas do momento histórico.

Monday, January 08, 2007

A internet e o espetáculo (parte I)

A Internet é o mais contemporâneo paradoxo. É, simultaneamente, o lugar onde muitas pessoas sentem-se incrivelmente à vontade, e um permanente não-lugar – a partir daí, torna-se ponto de não-retorno. Talvez pela intimidade e hospitalidade, por um lado, da rede poder fazer sentir(-se/lhe), seja despertado o sentimento – ou o sentido – de liberdade individual inalienável e quase que incondicional. Talvez por estarem no conforto de seus lares e protegidas por uma membrana (in)transparente, as pessoas – ou melhor, os internautas – sintam-se tão à vontade para mostrarem-se nus perante seus companheiros – e a intenção da frase era metafórica, mas o literal também se a carapuça serviu... A questão é se se mostram de fato, inteiros, íntegros e intrínsecos àquilo que são, ou se criam personas, personagens e facetas, inspirados em seus melhores, piores ou (im)possíveis.
Pois bem, o buraco é muito mais embaixo. Caímos no relativismo da discussão sobre o ser. Eu, particularmente, acredito que não somos; estamos. E, por estarmos, somos quase que polivalentes, ou multifacetados, ou divisíveis. É o constante estado de estar o responsável pela instabilidade de muitas mentes internéticas e perfis de orkut – vide os constantes ‘orkuticídios’ cometidos. Entretanto, a discussão entre o ser e o estar é convergente se comparada à já também exaustivamente discutida questão de regressão – à medida que desenvolvemo-nos – entre o ser/estar e o ter.
Li ontem na folha Mais! Um excelente artigo no qual o autor aprofunda essa digressão e faz-nos (de)cair: hoje, em nossa ocidentalóide sociedade, o que impera não é mais sequer o ter: é o parecer. Nesse sentido, completamos nosso esquema e a Internet torna-se extremamente lógica: é lá que criaremos nossas diferentes personas, é para lá que transportaremos nossas frustrações e as dividiremos e acharemos graça. É na Internet que as pessoas fogem da solidão e se masturbam simultaneamente diante de uma webcam. É lá que preconceitos nazistas, racistas e homofóbicos se espalham. Talvez a criatura tenha vencido o criador e, de fato, o homem tenha tornado escravo de seu caráter patético, o qual é devastadoramente inflado pela Internet.
Guy Debord escreveu, em 1992, um livro fascinante chamado “A sociedade do espetáculo”, no qual teoriza que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”, e explica: “do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também armas para o reforço constante das condições de isolamento das “multidões solitárias”. Pá-bum: a internet, o espetáculo.

Friday, November 25, 2005

Revendo conceitos

Nem isso, nem aquilo,
Cecília.
Que hoje é tudo-ao-mesmo-tempo-agora.