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Sunday, April 30, 2017

leite liberalism | greve geral


28 de abril de 2017

by ‘late liberalism’ (...) I mean the shape that liberal governmentality has taken as it responds to a series of legitimacy crisis in the wake of anticolonial, new social movements, and new islamic movements | elisabeth povinelli

minha fala nordestina, quero esquecer o francês | belchior

eu sei e você sabe que um cão
é um universo entre poodle
pastor belga salsichinhas e claro
as cãs e cada uma à sua maneira
late

os canis africanus
latem sempre para a lua cheia
suas donas geralmente são mulheres
brancas muito brancas de pele branca feito
leite

o governo do estado de são paulo oferece leite
se a criança vai à escola mas
em pó que o pó é
armazenável diluível mais durável distribuível com
menos pressa do que o
leite

ordenhado embora os ossos das crianças tenham
pressa muita pressa como o fogo que lambe
tantas casas e deixa pra gente ver
um gato um braço de boneca uma
geladeira e
leite

– porque pó – indiscernível do carvão
que nos confunde sobre morder
os próprios lábios
um pano embebido em
vinagre
uma tampa de caneta que calcula
a aposentadoria

entre um apito com fôlego de mulher
fogo no cruzamento um coquetel molotov um
orgasmo a conta de luz e do material escolar
e além das crianças três gatinhos pra dar
leite

Saturday, October 27, 2012

haikai VI


calçada, cimento fresco.
com árvore, o vento
fossiliza a primavera

haikai V


dobra vinca prende fura
como já nascida
bailarina da costura

haikai IV


manhã de feriado
meu despertador
maritacas no telhado

haikai III

risos de crianças
no pátio do prédio:
prelúdio de domingo

Friday, August 24, 2012

comoção durante uma assembleia


fiquei tomado. a senhora parece muito a falecida da senhora minha mãe, deus a tenha, esses olhos, lá na bahia, nossa senhora, fiquei arrepiado. o que é que eu dizia? que nossa mentora é nossa cabeça. nós vamos com nossos pés pra onde nossa cabeça destina. eu sei o que é o sofrimento de cada um de vocês. e eu vou estar junto com cada um de vocês, se vocês estiverem junto comigo, junto com o movimento, lutando também pelo seu companheiro. eu me sinto bem quando posso fazer alguém feliz. obrigada pelo presente, matei, matei sim um pouquinho da saudade da minha mãe, quantos anos, meu deus, obrigado.

Thursday, August 23, 2012

uma história possível do jardim em frente ao bradesco


eu fui atropelado. fiz aquele jardim ali, vê como está bonito, as mudinhas, o desenho da terra todo alinhado, vê. dá gosto olhar, né não? aqui debaixo é tudo buraco. é tudo buraco debaixo dessa cidade, sabe, eu não bebia, cavei esses buracos todinho. mas você é bonita, hein? me lembra minha filha quando moça, ela me deu três netos, tudo homem, varão. nenhum deles sabe fazer jardim. sabe, pra fazer jardim tem que ter muito silêncio dentro de você. não é saber que planta que pega bem, é saber que planta o jardim ali quer, fazer todos os convites, sabe, honraria? jardim precisa de honraria. fui muito mais feliz fazendo jardim do que cavando buracos. claro que falar que fiz essa buracaiada aí impressiona, né, eu e meus companheiros, mas a gente nem anda nesses trem, não. eu gosto é do jardim. ninguém olha pro jardim, só querem saber do trem mais rápido e mais moderno, dizque tem trem que nem motorista tem. é que não bate sol, já basta eu não ver o sol nunca nunca nunca porque agora bato ponto de segunda a sexta, já basta acordar no escuro, sair de casa no escuro e voltar já tá escuro de novo, quando é folga eu faço jardim. não me meto nos buraco pra ir lá pra zona norte, nos churrasco dos companheiro, ah não. gente também precisa de sol. a honraria do meu jardim é eles receberem meu sol todos os dias. e me convidarem quando é folga, é. pois fui atropelado, menina, então, é por isso que tô pedindo pra você usar essa tesoura e podar aquele galho ali pra mim, faz favor.

Thursday, August 16, 2012

da brandura à espreita

todo concreto quando em calçada
deveria por lei receber
(quando fresco ainda, é importante)
folhas na caducagem

o carimbo alinhavado
seria a prova dos nove
da brandura, sempre à espreita,
revelada a olhos atentos.

quando o mundo convida


amei alguém que me deixou
não amei quem me deu o conselho mais valioso:
confie no movimento da vida.

é tudo aberto demais, ou quase.

Tuesday, April 24, 2012

sobre linhas I


peço-te que imagine uma linha.
imagine o diâmetro exato de seu fio
e se existe ou não um buraco possível de agulha para se fazer travessia.

imagine sua cor, nuançada entre um tom de céu ou areia
ou talvez nenhum desses mas aproximadas cores de lembrança
ou precisas e irresolutas, inelutáveis cores de sonho
quando num continuum diálogo de vigília e só se sabe sonho porque
não sentes dor
o absurdo denuncia
o despertar deixa a dúvida e portanto: sonho

peço-te que então imagine de que é feita essa linha.
se do mais comum material encontrado na natureza
encapsulado e doravante produzido
em fábricas por homens comuns
em vilas por eco-propostas
e consumido como requinte;
se de um raro material;
quão denso;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se num emendo artesanal;
mais ou menos longo;
se sob intervenção infantil multicolorida e dura (pintada com guache) [e esgarçada (do contato com as unhas);
quão maleável.

não me diga nada dessa linha e não a tente reproduzir.
essa linha é o que te é e não me é possível compreendê-la ou imaginá-[la.

podemos, contudo, tomar aulas de arte
e aprender teorias contemporâneas e estudar produções de [assemblage
estudar construção de esgoto e sustentação de casa (é claro que a [linha pode vingar)
enforcar um inimigo
dançar melodias e bater palmas ritmadas
saltar do ônibus no ponto errado
suar a camisa ao passar por alfândegas
cozinhar massas acompanhadas de peixe fresco
colecionar rótulos de importados e pedras não-lapidadas
arriscar um lançamento de pedra e receber bombas que nos fazem [correr
tirar roupas do varal
tamborilar na espera

e fazer, no descanso, ponto-cruz.

Monday, April 23, 2012

de uma noite de abril

ela ri como deve dançar (suponho): cheia de si.
a ela desfio teoremas de vida que arremata, tenaz:
“nega acertos de uma vida tão dual!”

liquefaz meus misterinhos e me esbofeteia a cara;
me ensina: tampouco é original acreditar no erro;
rebato com meu silêncio clamando por um carinho

desponta cumplicidade e extravasa e finjo
desperceber o esboço de nós;
é croqui, desenho atravancado.

Tuesday, February 07, 2012

da vida gentil: segundos de menino na rua

o menino de uniforme escolar pergunta por que o violinista toca na rua; o pequeno corpo do menino conduzido pela mãe com precisão, o pescoço insistindo na direção do estridente que inundava também os meus ouvidos. páram no cruzamento.
- para ganhar dinheiro, responde a mãe.
o menino aceita: é desfeito o absurdo do cenário. há motivo e razão e, dessa feita, harmonia. ele atenta ao semáforo de pedestres e prepara o corpo para o impulso. atravessará à minha frente quando da luz verde, segurando obstinado sua mochila de rodinhas.

Saturday, November 05, 2011

benvinda

o que denuncia um novo amor não é um novo orgasmo (isso é transa casual), um novo velho mesmo jeito de atender ao telefone (pode ser timidez), nem as tão batidas borboletas no estômago (é claro que las hay, pero desde a pré-escola). o que denuncia um novo amor é aprender um novo jeito, o jeito dela, de arrumar a cama. e tomar gosto. e zelar pela cama arrumada, vez ou outra, antes de sair.

Sunday, July 24, 2011

domingo no parque

um bocejo se confunde com um piscar d'olhos
e cores me impressionam
(sedutores artifícios):

fogos
arco-íris casual sob medida a meus olhos
filmes fotográficos para derreter o céu
(o sol ofusca e meus óculos dão ao dia ares de praia)

cuja brisa me traz
o sol nos meus cabelos
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o sol me faz mais loira ternamente mais loira
e a brisa é mais um bocejo.

Wednesday, June 08, 2011

retratos urbanos - a mulher do despachante

cruzou o meu caminho – e não o contrário – uma mulher de cabelos ressecados, talvez com corte, talvez ressecados apesar da devoção e do cuidado, talvez pelo tempo seco que vem com a chegada do outono, ou pelo uso equivocado de produtos de má qualidade que são o que ela pode comprar. ela, que trabalha num despachante, e antes das 16:00 tinha ainda um copo cheio de café ao seu lado. um copo americano, de bar, o mesmo que, aposto, ela enche de cerveja aos finais de semana. não reparei se fumava, talvez sim, para compor a personagem perfeita. talvez não. talvez tenha filhos, e um deles estude no exterior. talvez o marido – ou a amante – lhe presenteie com jóias vez ou outra. talvez ela já tenha visto um jogo do corinthians no estádio, talvez lido um romance do paulo coelho ou do machado de assis. talvez ela nutra uma paixão por comida asiática, talvez cozinhe muito durante seu final-de-semana para congelar parte da comida para comer durante a semana. talvez já tenha experimentado cocaína, tomado leite com manga, feito uma cirurgia de alto risco, visto o mar. cruzou o meu caminho, ela, que passa dos trinta e talvez beire os quarenta anos, uma pele amorenada, cruzou, ela, porque me despertou vontade de saber tanto a seu respeito. cruzou o meu caminho, e não contrário, porque enquanto passava eu defronte o despachante onde trabalha – desde quando? –, ela sequer desviou os olhos da tela do computador.

Sunday, May 08, 2011

em sagrada festa

os anjos que me circundam (eu sei)
são anjos desfigurados com cabelos cinzentos e
asas (como devem tê-las os anjos).
são fortes e sorriem e dançam e eu também sei
que se alegram quando me ilumino.

digo, por isso às vezes
me brotam lágrimas e falta o ar
- porque esses anjos querem
(esquecem sua condição celestial)
brindar a vida e no regozijo-tão se excedem
e vêm a mim todos alegres pelo tempo que há.

Tuesday, December 14, 2010

uma elaboração de sentires

cada vez que eu tomo um banho, sinto os cheiros de costume, eu me lembro de você. a sua ausência durou o tempo exato de um pote de condicionador. o tempo exato de experimentar outra regularidade, outro cheiro. outra reação e um diferente caimento dos meus cabelos depois de banhos extraordinários. com outros ritmos, outros cheiros, outras aflições e um risco diferente marcando o vapor no espelho.

quando eu era criança, acumulava desenhos nos espelhos e nos vidros embaçados. no banheiro, depois do banho, e dentro do carro, quando chovia. eu sempre percebia que os desenhos nunca sumiam. a marca leve de cada um voltava com o novo embaçado, e eu, temperamental, oscilava sempre entre reforçar os traços muitíssimo bem-acabados ou dedicar-me a novas expressões.

hoje meu banheiro guarda em relicário um mosaico. traços que se justapõem, às vezes se sobrepõem, algumas vezes uma emenda faz surgir um novo desenho que eu só reparo muito tempo depois. me orgulho do meu mosaico; se há desbotamentos, superposições, desrespeitos estéticos e repetições, sei que tudo aparentemente opaco e embaraçado tem seu lugar, e são esses lugares os mais nobres. todos, cada um. há quem diga que é impressionista demais, esse meu mosaico, que só a mim me diz respeito e pouco comunica ao mundo. pode ser. me delicio em saber da minha história, e só eu, e só dela.

Thursday, December 09, 2010

amarelinha

amarelinha é das brincadeiras mais gostosas: dá pra brincar sozinho, junto, misturado, competindo, ajudando. quando eu era criança, era difícil acertar a pedrinha nas casas mais longes (do sete em diante), então todo mundo juntava os pés, assim, e fazia casinha, que é como se fosse um gol (mas não é gol porque não tem trave nem rede, é só o pé, mesmo), pra segurar a pedrinha que a gente jogava (porque criança não sabe medir força, né, e as casas das amarelinhas também nem são tão grandes assim, então é fácil mesmo errar). e aí era só ir pulando, equilibrando, jogando a pedra e pegando, de um jeito tão ritmado que nem tem como confundir a ordem do que fazer.

Wednesday, September 22, 2010

cochilo no frio

clareia-se de luz vindoura não sei d'onde o cômodo mais úmido que o normal. respiro e é doloroso acordar, como o é em toda despedida travestida de ânsia adolescente por ritmo. há que se ouvir o corpo, penso, esfrego os olhos e me levanto com cuidado, retorcendo as costas. talvez já seja tarde demais, mas - num átimo minha sensatez de tempo-espaço toma as rédeas e me tranqüiliza: ainda é cedo. dá pra voltar a dormir e arriscar um sonho.