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Sunday, April 30, 2017

leite liberalism | greve geral


28 de abril de 2017

by ‘late liberalism’ (...) I mean the shape that liberal governmentality has taken as it responds to a series of legitimacy crisis in the wake of anticolonial, new social movements, and new islamic movements | elisabeth povinelli

minha fala nordestina, quero esquecer o francês | belchior

eu sei e você sabe que um cão
é um universo entre poodle
pastor belga salsichinhas e claro
as cãs e cada uma à sua maneira
late

os canis africanus
latem sempre para a lua cheia
suas donas geralmente são mulheres
brancas muito brancas de pele branca feito
leite

o governo do estado de são paulo oferece leite
se a criança vai à escola mas
em pó que o pó é
armazenável diluível mais durável distribuível com
menos pressa do que o
leite

ordenhado embora os ossos das crianças tenham
pressa muita pressa como o fogo que lambe
tantas casas e deixa pra gente ver
um gato um braço de boneca uma
geladeira e
leite

– porque pó – indiscernível do carvão
que nos confunde sobre morder
os próprios lábios
um pano embebido em
vinagre
uma tampa de caneta que calcula
a aposentadoria

entre um apito com fôlego de mulher
fogo no cruzamento um coquetel molotov um
orgasmo a conta de luz e do material escolar
e além das crianças três gatinhos pra dar
leite

Thursday, April 24, 2014

desse tempo


hoje não choveu
ninguém morreu
perdeu a casa
o colchão a TV que ainda faltam
oito prestações
nenhum bebê
de mãe endividada irmã passando a infância passando
roupas num tempo que diz
que há trabalho por fazer é preciso trabalhar é preciso pagar
as prestações comprar leite e um chinelo para
a escola que não ensina quantas roupas engomadas quantas golas
cabem numa hora em que nenhum
nenhum bebê foi levado pela enchente
que não aconteceu.

Thursday, September 26, 2013

diagnóstico


é vertigem que me dá esmaga
uma das vértebras da
minha cervical estanca
proíbe segura é barreira para
meu sangue correr livre lívida
o armário dança
dançam livros coloridos dança
qualquer coisa fora do lugar é na minha cabeça, é tudo
na sua cabeça mas o sangue
o sangue não flui não jorra não ferve
o sangue não é meu
sangue sangue em meu próprio corpo
é fluido e não flui no entanto
embaça

mas é só vertigem, vertigem pouca

poema feito de chá


minha espera permite
o aprendizado da água –

ebulição é espetáculo
de tanto ensaio de ritmo

minha espera exige
o aprendizado do corpo:

estar montanha,
saber de si

minha espera ensina
permissiva

meu coração em fervura.

Monday, August 19, 2013

trabalho

mastigo esse batom amanteigado
sei que sua pele quase chora
coisas, coisas, coisas passam em sonho
              (a bolsa de tecido mais bonito
              presente ofertado por tabela sob
              força das circunstâncias)

não se maltrate eu te digo em mantra
acendo – acenda – uma vela branca
cuide do corpo e da casa

perfumar-se é oração

que sorte ter alguém no quarto ao lado.

amar de dia e, de noite, ser cavalo alado.

Sunday, April 14, 2013

I – precisão de desertos


por causa de tati fadel

preciso dos desertos e é por isso que
atraso meu relógio
trabalho na madrugada
finjo que durmo quando me beijas.

preciso dos desertos para estar no mundo.

preciso dos desertos. neles me permito,
neles me concentro,
neles flui toda rebeldia que invento.

são emudecedores
estarrecedores
assombrosos;
só assim cuido da casa,
reviso textos,
tomo coragem e saio de casa,
pego o metrô, trabalho.

o deserto é um gel no meu cabelo
um sobretudo em clima ameno
abundância de moedas empilhadas na estante

o deserto contém meus livros
e a concentração para lê-los
o deserto expulsa notas comprovantes recibos
e seus bilhetinhos de amor.

no deserto estou só,
sem reconhecimento
nem possibilidade,
sem alarme nem surpresa
nem quentura de companhia
pra suportar o peso do mundo

deserto, preciso;
assim precisa ser.

Thursday, February 21, 2013

ficou jardim


passei o dia vendo o céu da janela do meu quarto.

vibrante paleta de cores
calmas nuvens desatinos
soturno luar em senda

entendi
quando do quase sem-luz
mas era
desviei, olhei cimento e gramado e
entendi
na permanência sutil do fora

entendi o que você quis me dizer quando disse que ficou jardim.

Tuesday, February 12, 2013

por ocasião da descoberta de uma nascente


nasce-se
diante de encantados
– não pelo mistério nascente, mas pela beleza –

sem história (nasce-se
                   com o peso
                   do encontro tácito suposto

– mas nascer é brotar e só se sabe
                    do fundo da terra
                    da terra
                    celeuma magma placas tectônicas.

o brotar é em-si-mesmo
e é por isso que o rio flui.

Monday, February 11, 2013

[quando eu morrer]


quando eu morrer
jamais plantem flores na terra sobre mim

não me dêem lápide sepultura não encravem
minhas datas em pedra nenhuma
deixem-me
ao léu

meu epitáfio será dente-de-leão
como praga
espalhando-se na terra.

Saturday, October 27, 2012

haikai VI


calçada, cimento fresco.
com árvore, o vento
fossiliza a primavera

haikai V


dobra vinca prende fura
como já nascida
bailarina da costura

haikai IV


manhã de feriado
meu despertador
maritacas no telhado

haikai III

risos de crianças
no pátio do prédio:
prelúdio de domingo

haikai II

no escuro do brejo
sobra desencontro
entre coaxos e ecos

haikai I

para a saudade futura
restar doce no peito
a mansidão do tempo

Saturday, August 25, 2012

do luto, ainda


basta a convalescência
que o mar não ensina
tampouco o tempo, a bebida,
maltratar-se (corpo e alma),
a meditação, o sexo: nada
convalesce um coração estilhaçado.

só a fome.
só a fome pode ensinar a convalescer do irreparável.

Thursday, August 16, 2012

da brandura à espreita

todo concreto quando em calçada
deveria por lei receber
(quando fresco ainda, é importante)
folhas na caducagem

o carimbo alinhavado
seria a prova dos nove
da brandura, sempre à espreita,
revelada a olhos atentos.

quando o mundo convida


amei alguém que me deixou
não amei quem me deu o conselho mais valioso:
confie no movimento da vida.

é tudo aberto demais, ou quase.

Friday, August 10, 2012

arte é movimento


não me olhe com espanto.
se enegreço o desenho tão bonito,
é tudo feito com brandura:
cai a noite na cidade.

Tuesday, August 07, 2012

do gesto cheio

para t.
sua palma da mão sobre as vestes da minha coxa esquerda
tem o peso exato do quarto
movimento da nona sinfonia de dvorak:
faz-me sentir viva.