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Monday, August 19, 2013

trabalho

mastigo esse batom amanteigado
sei que sua pele quase chora
coisas, coisas, coisas passam em sonho
              (a bolsa de tecido mais bonito
              presente ofertado por tabela sob
              força das circunstâncias)

não se maltrate eu te digo em mantra
acendo – acenda – uma vela branca
cuide do corpo e da casa

perfumar-se é oração

que sorte ter alguém no quarto ao lado.

amar de dia e, de noite, ser cavalo alado.

Sunday, April 14, 2013

I – precisão de desertos


por causa de tati fadel

preciso dos desertos e é por isso que
atraso meu relógio
trabalho na madrugada
finjo que durmo quando me beijas.

preciso dos desertos para estar no mundo.

preciso dos desertos. neles me permito,
neles me concentro,
neles flui toda rebeldia que invento.

são emudecedores
estarrecedores
assombrosos;
só assim cuido da casa,
reviso textos,
tomo coragem e saio de casa,
pego o metrô, trabalho.

o deserto é um gel no meu cabelo
um sobretudo em clima ameno
abundância de moedas empilhadas na estante

o deserto contém meus livros
e a concentração para lê-los
o deserto expulsa notas comprovantes recibos
e seus bilhetinhos de amor.

no deserto estou só,
sem reconhecimento
nem possibilidade,
sem alarme nem surpresa
nem quentura de companhia
pra suportar o peso do mundo

deserto, preciso;
assim precisa ser.

Thursday, February 21, 2013

ficou jardim


passei o dia vendo o céu da janela do meu quarto.

vibrante paleta de cores
calmas nuvens desatinos
soturno luar em senda

entendi
quando do quase sem-luz
mas era
desviei, olhei cimento e gramado e
entendi
na permanência sutil do fora

entendi o que você quis me dizer quando disse que ficou jardim.

Tuesday, February 12, 2013

por ocasião da descoberta de uma nascente


nasce-se
diante de encantados
– não pelo mistério nascente, mas pela beleza –

sem história (nasce-se
                   com o peso
                   do encontro tácito suposto

– mas nascer é brotar e só se sabe
                    do fundo da terra
                    da terra
                    celeuma magma placas tectônicas.

o brotar é em-si-mesmo
e é por isso que o rio flui.

Monday, February 11, 2013

[quando eu morrer]


quando eu morrer
jamais plantem flores na terra sobre mim

não me dêem lápide sepultura não encravem
minhas datas em pedra nenhuma
deixem-me
ao léu

meu epitáfio será dente-de-leão
como praga
espalhando-se na terra.