Wednesday, October 01, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (3)

Confesso, também, que nada mais me recordo de sua história. Peço desculpas; seria hipocrisia culpar o tempo, pois acabo de tomar conhecimento dela e ela já me escapa pelas mãos. Cada palavra que me assombra é responsável pelo adormecimento das anteriores. Mas também não posso exigir recordações de algo que me forma apenas no imaginário. Hoje, toda história ouvida é também história olvida, pois não passa da imaginação, talvez aliada à vontade da preservação, e, melhor ainda, da elaboração do passado – legitimada pelos acenos positivos de cabeça do interlocutor (consciente ou não do que lhe está sendo despejado e esperado).

E, apesar de você me contar de sua voz rouca, o que me marca e persiste na memória são seus olhos e o movimento de suas sobrancelhas – o que não deve ser surpresa, depois de explicitado meu elogio à verdade e minha busca. As sobrancelhas, expressão feliz da intocável procissão de harmonia, celebrada por você. A cumplicidade instaurada pela troca sobrancelhas-percepção abriu um novo mundo de liberdades, para mim. Mundo este agora governado, então, por um novo tempo: o tempo de liberdade. Tempo infinito, não-finito; se um outro tempo for um dia definido por outro elemento que não a liberdade, ele será somente um outro tempo definido por outro elemento que não a liberdade. A mecânica entre a outra definição e a ausência de liberdade é, assim, uma falácia: o tempo outro não exclui o tempo de liberdade. A liberdade não se extravia, mas os tempos tampouco se sobrepõem; acumulam-se – mas não em camadas, nem contínua nem linear (tampouco caoticamente). O acúmulo é progressivo e harmonioso. Os elementos se sobressaem não porque nos salta aos olhos, mas porque nos salta a. A nada. Sinto, não sei dizer por que os elementos se sobressaem. Talvez seja a minha neurose, ou a necessidade inculcada da sistematização para que a comunicação seja possível entre nós. Mas dizia eu do acúmulo progressivo, ele é síntese mágica e profunda, sem preocupações com funcionalidades perseguições ou erros. É promessa, assunção e percepção de desejo e de conceito. É a não separação entre esferas do mundo, é pensar a totalidade em conjunto com a especificidade do que se pensa, de tudo que se pensa, e, mais do que isso, é não se limitar ao pensamento. É entender e consentir a corporeidade: mente, espírito e corpo em ensaio perene de compreensão.

E, quando insisto na plenitude inatingível, sei do seu caminhar lento, da sua voz rouca e deus cabelos quebradiços. Sei de sua voz rouca antes do início da conversa, e, convém lembrar, não te exigi nenhuma explicação. Como não te exijo justificativa, clamo apenas por gratidão. Gratidão sem sujeito e sem objeto, gratidão como movimento, dádiva, dom e, principalmente, gratidão como reconhecimento. A gratidão, ensino-te, pode ser tão bonita quanto a valsa, quando no embalo não se espera um salão nobre ou baile de máscaras para encerrar grandiosidades medíocres ou fracassos. A gratidão pode ser a valsa bonita que soa com o caminhar sobre o gramado em dia de sol não tão quente, o ritmo cardíaco e a respiração em compassos que até o padre duvida. Gratidão explode, ainda que tímida; gratidão derrama lágrimas e sorrisos e beijos e abraços e sal e doçura. Gratidão não é quando nem como, é deixar ser e estar. Consciente e confortavelmente, sentir-tocar. Gratidão não se ensaia – embora os ensaios também contenham dose cavalar de improviso, emoção e doação genuína – e o genuíno é a construção coletiva e particular, os pesares, os processos, a história.

Sunday, September 21, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (2)

O sexo não explicitado. Sinceramente, pouco importa a parcela de intenção sexual presente em seus olhares a mim direcionados: jamais foram explicitados. Poder-se-ia dizer que é mero cavalheirismo, ou, pior, quão galanteador ou cafajeste você é. Mas não, nada disso: calado. Ainda que sensual, tenho certeza que nosso contato jamais se desenrolaria no entrelaçar de corpos embriagados ou apaixonados. Ainda que revestido de tensão sexual, interrompido por vermelhos e calor a percorrerem os corpos e o ambiente e conduzido por silêncios meus outrora impensáveis – que a olhos inábeis seriam o entendimento sutil da expressão do desejo –, ausente o toque. Ausente qualquer possibilidade de toque. O sonho de suas mãos sobre as minhas, o desejo do toque, o ímpeto de acompanhar, com meus dedos em movimentos sutis, seus desenhos, a impressão permanente de seus traços em minhas retinas: nada. Não é ausência de vontade, jamais fora ausência de desejo meu. É ausência, intransitivo, incompleto e incompletável. Ausência.

Confesso, sua história a tal ponto me encantou que desconfiei, confesso, desconfiei de sua veracidade. Envergonho-me mais pela importância por mim atribuída à desconfiança do que pela desconfiança em si. Nua e crua (o desejo de sentir seus ossos em minha pele), a desconfiança da veracidade é o papel principal de uma peça de teatro mainstream, eu diria. Ou de qualquer teatro político que se reivindique brechtiano, dizem. A vergonha daí depreendida, por mim, é mais do que o desejo da unicidade; é expressão escamoteada de busca infinita pela incoerência. O anseio do reconhecimento pela totalidade e da totalidade; e se toda totalidade engendra contradições, por que, em geral, busca-se o conhecimento de cada ladrilho da casa, em detrimento da apreensão consciente do processo de construção como um todo?

Sunday, August 31, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (1)

Sabia
Que você ia trazer seus instrumentos
E invadir minha cabeça
Onde um dia tocava uma orquestra
Pra companhia dançar
(Chico Buarque, Lola)

Depois da longa perturbação, vem a oscilação até a volta à sensação original, vivida em contexto diferente. Por mais que seja essa uma das funções primordiais de um balcão de bar, confesso que são raras as noites em que estranhos me dirigem a palavra sem aguardo de resposta. A ausência de expectativa, tanto no seu tom de voz como na sua sinceridade em cantar sua vida, por acaso, a mim. A ausência de expectativa e o saber ser escolhida a esmo, sem nenhuma particular afetação. Isso performou, em mim, o encantamento.

(Nota: é o primeiro parágrafo de um conto-resposta que estou escrevendo)

Friday, August 22, 2008

É a terra que querias ver dividida

Vocês sabiam que há um outro PAC (não é o da suposta aceleração de desenvolvimento) que é Programa de Atuação em Cortiços e que é financiado pelo BID, banco internacional?

Registro

Ontem eu fui a campo, dar um "pontapé inicial" pra minha pesquisa.
Foi bem legal. :) :)

"A gente resiste pra não morrer mais rápido", fala de uma senhora, professora de História na rede pública estadual, ao se apresentar.

Thursday, August 14, 2008

Notas a partir de "Fool for love", de Robert Altman

(Filme baseado na peça de teatro homônima de Sam Shepard).

1. O silêncio é leve e pesado.
2. Ao omitir a última fala da peça de teatro, a intenção do diretor me parece ser manter a história aberta. A última cena é a May caminhando pela estrada, imagem ampliando até a imensidão e ela se dissolvendo no cenário. A indefinição como sentimento e sensação sem dúvida objetivados ali são cerne do filme.
3. Tenho a impressão de que os finais 'abertos' nos filmes começam a ser recorrentes. Ou, pelo menos, a ganhar espaço. Isso se deve a i) a problemática da narrativa destruída (em termos superficialmente benjaminianos) ser assumida pelos diretores, que não sabem como resolver e, enfim, 'o que não tem solução...'?
4. Ou a ii) maior desejo de proximidade entre espectador e ator/diretor/filme, na tentativa de não subestimar o público?
5. (Estou sendo demasiado otimista? Para contrabalancear, então:)
6. iii) A impressão de recorrência do recurso 'final aberto' nos filmes não passa de ilusão; o que há é, de fato, a mais cruel ação (se mal-intencionada ou não, não sei dizer) de desindividuação do espectador a partir de histórias supostamente universais. O que há é o nivelamento a partir de critérios grosseiramente pré-estabelecidos para o sucesso de público.
7. Não é bem assim. Recomendo 'Do outro lado', de Fatih Akin.

(pausa para o jantar)

Monday, July 28, 2008

Simplicidade harmoniosa (ou harmônica, faz sentir)

As letras de bossa nova são, em sua maioria e num primeiro momento, singelas. Algumas transbordam lugares-comuns, outras apontam para abordagens ingênuas de temas tão presentes nas canções, como o amor. O sorriso e a flor, por excelência, dominam o que se convencionou chamar de 'primeira fase' do movimento bossa nova: jovens de classe média que compunham bonitezas à beira-mar.

Tanta simplicidade, um quase-bucolismo, um neoarcadismo? Mas a bossa nova, aos poucos, deixa de ser só um 'ritmo' - as aspas são para amenizar o sentido do termo; 'ritmo' é o que menos poderia caracterizar a bossa nova. Mais correto seria, talvez, falar de estilo. Porque a bossa nova torna-se adjetivo e estilo de vida: há televisores, lava-louças, automóveis bossa nova. Tom Jobim (ou Vinicius de Moraes; posso estar confundindo), num dos vídeos que assisti na exposição '50 anos de bossa', diz que ouve num anúncio, na rádio, que há um 'pente bossa nova', e arremata, em inglês (o programa não era gravado no Brasil): "Isso não faz bem para a música..."
Por trás da simplicidade da bossa está o que é, então, um dos motivos - talvez o principal - do sucesso nacional do termoestilo bossa nova e que leva os Estados Unidos e a Europa à loucura: a harmonia das canções.

O que dá à bossa nova caráter extraordinário é a harmonia. A execução sutilmente sensível e livre da obra musical, que não deixa, porém, de ceder a improvisos, a vertigens, e culmina na subversão da métrica rítmica, na voz fluida e nos desembaraços extrapola as noções musicais de até então e proporciona o frisson e a novidade que a bossa nova engendra, representa e propõe. Subversão essa, convém lembrar, possível fundamentalmente por conta do profundo conhecimento de teoria musical e de composição por parte de alguns dos compositores-ícones do movimento.

E é justamente essa criação única - a partir de influências de música clássica, samba e jazz - na forma de tocar que desmente a aparente simplicidade da bossa nova. É lamentável que as músicas de protesto tenham sido, nos anos 60 e 70, consideradas antagônicas à bossa nova: a mudança é desejo e operação de ambas. Talvez as limitações (perdoem-me o possível escracho) tanto da bossa nova quanto da tropicália, por exemplo, encontrem seus limites na mal-sucedida fusão entre forma e conteúdo.

O fato de a excepcionalidade da bossa estar profudamente enraizada na harmonia (na forma de executar a música) demonstra a unicidade de cada apresentação e execução. Ainda que o próprio Tom Jobim toque e cante Garota de Ipanema milhares de vezes, cada toque e cada canto será único, por sutilezas nos movimentos do próprio intérprete e reinvenções constantes: experimentações no ato, inevitavelmente bem-sucedidas.

Finalmente, nem só de amor vive a bossa nova: ela é também a rosa de hiroshima e a marcha da quarta-feira de cinzas. Carcará, opinião. E - por que não? - o amor, o sorriso e a flor. A sentimentalidade e a política caminham juntas - coerentemente com um movimento tão potencial e verdadeiramente subversivo (ainda que a subversão não se dê em termos ortodoxos - o paradoxo aqui é proposital). Sem subordinações de tempos e períodos: cada um com sua grandeza, grandiosidade e profunda sensibilidade.

P.S.: Texto em suspensão e em processo de reavaliação, depois dos comentários do Lucas!

Wednesday, July 23, 2008

De memória e constituição

O passado, amassado e forçosamente esquecido ou desapercebido, desdobro e transborda.
Quanto da gente é construído e constituído a partir das negações, das não-escolhas, da passividade?
Fico pensando o que podia ser o presente se coexistissem, em outras dimensões, diferentes passados e futuros
(no mundo como um todo e no meu pequeno tempoespaço de vida). Quando digo 'diferentes', quero dizer diferentes do que se conhece, percebe e interpreta hoje.
Aliás, o que é a vida senão leituras e releituras de momentos sob ópticas próprias e singulares?
E quando essas ópticas sofrem (ou causam) refração? É o caos, são desejos proibidos, incongruentes, incoerentes? Vontades contraditórias ou complementares (ou suplementares, para não pressupor a plenitude)?
Talvez seja confusão, indecisão, ou excesso de sentimentalidade. Desejo, consideração. Saudade. Vontade de palavras, olhares e toques daqueles hoje tão distantes.
Fica aqui o suspiro.

(Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim)

Tuesday, July 08, 2008

Vinte anos

Nos últimos dias, penso nos meus recém-chegados vinte anos de vida e busco sínteses e entendimentos de processos. Busco palavras e conceitos que possam expressar o que é uma vida no contínuo desta existência.
Vinte anos é pouco e é muito. É pouco porque nada sei da vida, é muito porque tanto sinto apreender.

E me vêm as descobertas, as permanências e as transições, em processos e explosões. Implosões rendidas e assumidas. O contato com as temporalidades, tanto aprendizado!
O amor mais puro e genuíno, desde sempre, no porto seguro que é meu lar. A preocupação entendida, de todos os lados. A felicidade compartilhada, multiplicada nas conquistas. O apoio desejado, implícito e por vezes explicitado: segurança. O cuidado fraterno (de irmão, mesmo) e a cumplicidade.
O caminhar para a conquista de autonomia e auto-sustentação (e afirmação), desde o deixar de andar de mãos dadas com os pais em lugares públicos, até a escolha do que cursar na faculdade: aprender a decidir por mim mesma os meus desejos.
No processo de adquirir segurança de si, voltar a andar de mãos dadas com os pais em lugares públicos. Andar lado a lado com os pais, em lugares públicos e nos rumos particularmente escolhidos dentre possibilidades limitadas.
A experimentação de relações, o descobrimento das diferenças e o maravilhamento com a diversidade: a amizade; a descoberta do amor também tão genuíno, sem laços de sangue ou de família.
A percepção do desejo, a coragem da sinceridade.
A oscilação entre o cuidado de si e o zelar pelos outros.
Performances, ressignificações constantes: é a dinâmica processual tão bonita e tão cheia de si, de cor, de oscilação e equilíbrio.
É corda-bamba com sombrinha: braços abertos.
Felicidade, tristeza, angústia, sofrimento, impotência, descrença; as dores, é claro.
Contorno dos caminhos, salto de pedras: beira do mar. (Pular ondas, sorrir, confiar, acreditar.)
A busca incessante de preenchimento. O entendimento do preenchimento por si. O alívio no não-preenchimento, na plenitude impossível e na percepção de vontades, sempre originais, em transformação. O cuidado de si, agora leve. O zelar pelos outros, sem peso.
A história, as histórias. O horizontalizar relações, a solidão: vislumbrar novos horizontes.
A leveza e o peso do amor. Enfrentamentos, encantamentos e digressões. Paixão, terra, mar.

O amor como arremate, su(b)stância e fundamento: é esse o elemento espiralante do balanceio de vinte anos.
(Com um pouco de café, doces, lágrimas e abraços.)
Minha vida é matéria de sonhos - e os sonhos direcionam meu olhar crítico à realidade.
(A crítica da transformação com manutenção; a síntese como processo e como transitoriedade.
Num tempo que é meu. Concomitante a intersecções e encontros os mais bonitos. Em tempos.)

Sunday, June 08, 2008

'You better take off your homburg'

Eu gosto muito quando, no meio de uma conversa com alguém, consigo obter um esclarecimento pra mim mesma de algo referente à minha vida, minha história de vida, meu momento presente, minha personalidade ou alguma coisa que paira ou se transporta entre essas categorias e o que elas sugerem.

Ontem vivi uma experiência desse tipo. Eu não costumo fazer deste blog um diário explícito, expressamente. Mas acho que hoje o post vai caminhar pra isso. Até porque, se forma e conteúdo não se dissociam e o como dizer importa tanto quanto o o quê dizer, um post um pouco mais intimista e ativo na construção de laço expresso entre o escritor e o leitor vem a calhar.

Pois bem, quando acreditamos ou sentimos que estamos entrando numa fase de crise (ressalva aos que se dizem sempre em crise: me refiro a uma crise específica), é de engrandecer perceber como essa fase se liga com seu passado, sua formação, seu ser.

Como a gente faz quando se percebe preso, e quando não nota mais nenhuma possibilidade de ação ao seu redor? Nenhuma possibilidade de ação que expresse - por corpo, alma, letras, canções, conversas! - uma forma de pensamento e de organização de mundo alternativa. Explico: depois de entrar com contato com uma relativa gama de organizações, instituições, movimentos sociais, partidos políticos, grupos de discussão, coletivos de ação direta etc., que têm (ou dizem ter) em comum uma visão de mundo alternativa à dominante (ou seja, alternativa à instrumentalizada, à que se regula pela análise calculista do custo-benefício), vejo que as práticas de tais grupos, quando analisadas a fundo, levadas ao extremo ou simplesmente entendidas e internalizadas, não propõem outra forma de pensamento que não essa do cálculo custo-benefício, que acabei de explicitar. Ora, se forma e conteúdo são indissociáveis, o não-abandono do pensamento puramente estratégico não te coloca em nível diferente do seu oposto só porque 'seu fim é mais nobre que o do Outro'. Ou, para não me restringir a juízos de valor (do tipo 'mais nobre que'), posso formular da seguinte maneira: ainda que o conteúdo seja radicalmente diferente, se a forma através da qual este conteúdo é aplicado - ou, ainda, a própria noção de necessidade de aplicabilidade do conteúdo - esvaziam a proposta 'alternativa', 'revolucionária', ou o nome que vocês quiserem dar a isso.

Digressões à parte, o imobilismo ou a inação me angustiam. Angustiam porque - e isso foi o que descobri ontem, numa performance fantástica - durante minha adolescência, minhas maiores angústias diziam respeito à impotência. Os problemas que me vinham chegavam prontos, e eu não percebia nem vivia seus surgimentos, suas formações. O que me restava era o aguardo do curso da vida para resolvê-los ou sedimentá-los, em dimensões processuais muito lentas - o que faz sofrer muito a qualquer um disposto a questionar origens, causas e conseqüências.
Deixando um pouco de lado a dimensão psicológica e a 'sessão terapia', a questão da qual trato hoje, incessantemente, é se é possível à política e à vida transcender a dimensão meramente estratégica.

Penso 'política' como relações de poder. Imbuídas, sempre, de referenciais simbólicos, de significações. É possível um mundo onde as relações de poder se horizontalizem? Em que cada ser humano possa desenvolver suas potencialidades e realizar seus desejos à sua maneira? É claro que é possível política sem opressão. Mas a limitação da dimensão estratégica ainda me parece longe de ser superada.

Não prego, de modo algum, o abandono do pensamento estratégico. Tampouco o abandono da técnica, das reproduções, daquilo que alguns chamam de massificação e a minha pitada de otimismo quer defender como democratização. Quero é ver a criatura se rebelar contra o criador.

As coisas que escrevi aqui estão longe de estarem esgotadas. Pelo contrário! São indicações de algumas temáticas que estarão e estão por detrás do meu discurso nos últimos e próximos tempos.

E, pra finalizar, música bonita:

Your multilingual business friend
has packed her bags and fled
leaving only ash-filled ashtrays
and the lipsticked unmade bed.

The mirror on reflection
has climbed back upon the wall
for the floor she found descended
and the ceiling was too tall,

Your trouser cuffs are dirty
and your shoes are laced up wrong.
You'd better take off your homburg
'cause your overcoat is too long.

The town clock in the market square
stands waiting for the hour
when its hands they both turn backwards
and on meeting will devour
both themselves and also any fool
who dares to tell the time.

And the sun and moon will shatter
And the signposts cease to sign.

Procol Harum - Homburg

Wednesday, May 28, 2008

contestation

Sejamos realistas, exijamos o impossível.

Em francês, contestation. O ápice da negação descarada e convicta e, talvez por isso mesmo (e isso já é inserção minha), rumo à proposição da construção do novo pela negação do atual.
É bonito, mas não é só bonito, ver Marx e Valery e Breton e Debord e Godard juntos, esculpidos e ordenados em paralelepípedos e em harmonioso compasso de idéias! - note-se: não é retórica vazia.

Por hora é só um prelúdio de alguma melhor elaboração formalconteudística e uma nota de recomendação do livro de Carlos Fuentes, Em 68 - Paris, Praga e México. Publicado aqui pela Rocco, neste ano.

Sunday, May 18, 2008

Música do mundo

Vou-me embora desta terra
segunda-feira que vem

"Os músicos que recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair as forças dos espíritos", segundo os hausa, um povo do norte da nigéria: Mawaca.
A banda reinterpreta músicas do mundo todo, e mostra pra gente. É bem legal.
Eu recomendo.

Friday, May 16, 2008

Vibe dos baianos e do livre

Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer

Por curiosidade, na Last.fm fui ver as tags mais populares para 'Novos Baianos - Preta, Pretinha'. Eis o resultado:

mpb, tropicalia, brazilian, brasil, samba, psychedelic, 70s, brazil, musica brasileira, experimental, novos baianos, musica popular brasileira, brazilian music, tropicália, choro, Bossa Nova, brasileira, World Music, suinge, Psychedelic Rock, rock, delicia, braziliantogettoknow, unamerican, cantor, vocal masculino, brazilian alternative, musica regional, just a bit of fun, novosbahianos, never gonna see live, charlie brown jr, flexstudio, mpbeousambadoidao, Boas Festas, Novos Bainos, capao, brasil samba rock, Paulinho Boca de Cantor, trem baum, vibe brasilidade, recomendo, rudiexplore, baianos, hippongagem, porreiro, baby consuelo, ronxi, alternative, Rock and Roll, Favorite, 60s, world, spanish, Recommended, sophisticated, kick-ass, Favoritos, Bossanova, Brasilian, South American, Bra, Brazilian Pop, tropical, brasileiro, 60, lesser known yet streamable artists, Bahia, far too good, lil brasil, lil best, cantora, anomia, melhor banda, latin

Eu acho o máximo esse lance de tag e brianstorm internético, sabe aquelas nuvenzinhas que ficam, em alguns sites, com várias palavras de vários tamanhos? Lembro da minha perplexidade quando vi pela primeira vez.

E já que o assunto é internet, outra coisa que tem me instigado muito são os softwares livres. Quero divulgar (embora este blog esteja longe de ser uma boa fonte de divulgação, rs) isso aqui, o Saravá.

Hm, vou escrever um texto sobre a vibe do livre. Amor livre, Curso Livre, conhecimento livre, podução livre...
Acho que tô me tornando uma entusiasta da internet. Vou ver se entro no rolê das tags.

A verdade do universo e a prestação que vai vencer

No fim das contas, como diz uma pessoa querida, é só uma tentativa de unir teoria e prática.
Ou, então, olhar ora pro universal, ora pro particular. E a busca da síntese. Ou do equilíbrio.

Ou da explosão.

Thursday, April 24, 2008

Abril despedaçado

Quando enfim esteve certo de seus sentimentos, chorou.
Não assim repentinamente; ele continuou caminhando, o ritmo da desaceleração pulsando. Andava lento e sentia o coração pulsar na cabeça. Parou. Procurou um espaço, na sarjeta, eu não estivese extremamente sujo aos olhos e sentou. Rabiscou, com um galho, umas letrinhas que logo viraram círculos, no asfalto estranhamente meio molhado - tinha chovido?
Largou o galho, apoiou os cotovelos nos joelhos dobrados. A cabeça firme, olhos na linha do horizonte, as lágrimas.
Depois disso, percebeu que os corpos todos choram. E ninguém (quase) nunca percebe.

Monday, April 07, 2008

Sobre o esboço, tanta arte

Normativamente, é importante dizer, um esboço é caracterizado pela sua incompletude. Por não estar terminado, concluído e acabado. Incrível, talvez contraditória mas – creio – justamente pelo traço da fragilidade, um esboço contém sempre algo de mais instigante, de deliciosa obtusiodade [o ato de ser obtuso], de encantamento. O esboço é a arte feita e por fazer, é a dialética de preenchimento e vazio, o encontro transcendente entre escritor e leitor, formadores e conformadores, talvez a partir – mas tendo a crer que apesar – da experiência.

Porque vejo a experiência como destruidora da criatividade e da esperança. Humildemente tomo esta idéia emprestada de um pensador maior, visto que não brotou em mim, mas fui por ela contagiada através de uma de muitas leituras que me chegam, oportunamente, através de pessoas queridas, momentos imprevisíveis, arroubos de sensitivismo ou qualquer outra coincidência que alguns insistem que a conjunção dos astros pode justificar ou explicar – eu não duvido.

Digo, não duvido, mas tampouco creio. Os índios, li em um antropólogo arrogante, inventam suas verdades a todo o tempo, quer por brincadeira, quer por ingenuidade, quer por serem elas mesmas as verdades, quer por serem as mentiras que devem – e são, portanto – contadas. Pois bem, também não creio em bruxas, mas que elas existem, existem. Suspendamos a discussão de cunho estrita e explicitamente espiritual e religiosa e continuemos.

Após introduzir o esboço como encantamento, permita-me a exaltação de qualquer tipo de deslumbre. Encantar-me, hoje, é meta primeira de minha vida. Rechaçar os padrões de cultura, os domínios do capital e a superficialidade das relações. Embriagar-me das virtudes que eu, e somente eu, vejo em cada mulher e em cada homem. Deliciar-me com os carinhos e as sutilezas – envoltas, explícitas, enlameadas, dissimuladas e dissolutas – de cada qual que me cruza o caminho e me pede – ou peço eu – um pouco de tempo.

Porque o tempo, ensinaram-me, é único de cada relação. São os tempos, por assim dizer, os estruturantes das peculiaridades de cada relação humana. Relação indefinida, não só por toque, respiro, suspiro, brisa, olhar ou verborragia; relação indefinida. Escrevo apenas na negatividade de uma passível limitação, para estender o caráter humano às mais maravilhosas unicidades possíveis. Embora não viva só no tempo do possível. O tempo do desejo, o tempo da tolerância, da autonomia e do cuidado, das mediações entre ser, mostrar e parecer; são todos tempos do não-possível. Por serem tempo são também realidade.

É o ato do concreto, a respiração ouvida que faz meus anseios crescerem exponencialmente. Não quero a intolerância dos infelizes, quero as experimentações sem precedentes, as experiências sem opressões. Quero a magia de um mundo sonhado, imaginado e vivido e sentido e apalpado. Dentro da realidade que construímos, esse mundo também tem seus tempos. E suas realidades.

É o mundo que dói, sim, ainda dói, e a dor pode, sim, continuar insuportável. Não é um mundo mais aceitável; nem ele por nós nem nós por ele. As concretudes das dores tornam a vivência ainda mais insuportável, tanto aos olhos de quem as vive como aos de quem as sente. E, embora a crueza da realidade soe tão dura a ponto de furar os tímpanos, não se desiste nem se desespera.

Desespero é para os que não tiveram, ainda, coragem de encarar o mundo com os pés fincados no chão e o olhar no horizonte, atravessando perceptivelmente as portas, janelas, os muros e construções no caminho. Desistência não enfraquece, nem tira a força dos persistentes; desistência é estado de espírito; não estado de ser. Desistência nos acomete diariamente, mas é justamente por sua falta de consistência que não deve nos consumir (e não consome). A esperança não-aniquilada não cede à desistência, ainda que seja este o seu desejo.

Porque a magia persiste no mundo, talvez nas consciências individuais, talvez em sentidos, subjetivos e objetivos, encontrados nos mais diversos lugares, espaços e tempos. Talvez a magia persista porque o estado da magia é o estado da busca. E o estado da busca é o estado da esperança não-aniquilada. E por mais que o raciocínio esteja circular, não me desespero. Isso é só o esboço de tanto que está por vir.

Sunday, March 30, 2008

Círculos, espirais, amargor e doçura

Um desconhecido parou bem em frente a mim, na madrugada, me estendendo a mão. Eu não soube o que fazer. O que são contatos físicos, hoje, na brasilidade? Entre quem beijos, abraços e apertos de mão são passíveis de aceitação, inofensivos e quiçá desejados?
E pontapés, aforismos, ofensas, injúrias, calúnias, fobias?
Notar os apesares de: a gente gira na mesma órbita e não se comunica. Se não gira, sequer se encontra. Os desencontros anulam o amargor, mas não trazem a doçura do compartilhar.
É uma questão de flutuar, oscilar e saber apaziguar. Quase esperar.

Sunday, March 16, 2008

Sincronicidade

... é o tempo mudar assim, bruscamente.
Calor de 38 graus às seis da tarde, não mais.
Agora é domingo e chuva. E muito café.
(Espirros e pé gelado; cadê o cobertor?)

Friday, March 14, 2008

Sexta-feira chuvosa.

Os meses pingam
encontram-se
aglomeram constroem cultivam criam! sentidos.

É o café, o chá,
as mãos frias,
as mãos quentes,
os espantos (mundos atordoam
e cegam e praticam a desmesura do que clamam
[alteradamente
de maneira que não entendo).

O abraço dissipa o cinza.
Quero cores definidas.
O beijo me lembra inteira,

presente excesso cais e o barco!,
no mais é tudo e somos
vida estrada carinho alento
saliva. Flor, contentamento.

Sunday, March 02, 2008

Breve ensaio (e sobre a gratidão)

Ensaio não é aglomerado de palavras; é treinar, experimentar e cada vez descobrir um novo ou uma nova. Não o novo ou a nova, porque nova e novo são indefinidos por definição. Este ensaio é breve por ser quase apenas os primeiros minutos de uma valsa, a Valsa dos cisnes ou o Danúbio, embora levemente contemporaneizados. Não-livres de clichês, contudo, pois embora as atualizações (forçadas e genuínas) aconteçam de maneira cada vez mais forte, há que se manter a beleza das valsas, o oscilar lânguido e perfeito e o semi-cerrar de olhos tão bem encaixado(s).
A gratidão pode ser tão bonita quanto a valsa, quando nela (digo, na valsa) não se espera um salão nobre ou baile de máscaras para encerrar grandiosidades medíocres ou fracassos. A gratidão pode ser a valsa bonita que soa com o caminhar sobre o gramado em dia de sol não tão quente, o ritmo cardíaco e a respiração em compassos que até o padre duvida.
Gratidão não se ensaia - embora os ensaios também contenham dose cavalar de improviso, emoção e doação genuína (e quando me refiro ao genuíno, não nego a construção, a história, os pesares e pensares). Gratidão explode, ainda que tímida; gratidão derrama lágrimas e sorrisos e beijos e abraços e sal e doçura. Gratidão não é quando nem como, gratidão é e é deixar ser e estar. Consciente e confortavelmente, sentir-tocar.

Saturday, February 23, 2008

Merda, Caetano Veloso

Nem a loucura do amor,
da maconha, do pó,
do tabaco e do álcool
vale a loucura do ator
quando abre-se em flor
sob as luzes no palco.

Bastidores, camarins
coxias e cortinas
são outras tantas pupilas,
pálpebras e retinas.

Nem uma doce oração,
nem sermão, nem comício
à direita ou à esquerda
fala mais ao coração
do que a voz de um colega
que sussurra "merda!"

Noite de estréia, tensão,
medo, deslumbramento,
feitiço e magia:
tudo é uma grande explosão
mas parece que não
quando é o segundo dia...

Já se disse, não foi uma vez,
nem três, nem quatro:
Não há gente como a gente,
gente de teatro!
Gente que sabe fazer
a beleza vencer
prá além de toda perda.
Gente que pôde inverter
para sempre o sentido
da palavra "merda"!

Merda! Merda prá você!
Desejo merda!
Merda prá você também
Diga 'merda' e tudo bem!
Merda toda noite
e sempre! a merda!
Amém!

Wednesday, February 13, 2008

Carnavália

A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão, desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.
Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.

A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.

Brancos, negros e mulatos. Pobres, ricos, classe média. É clichê dizer que o Carnaval é a festa nacional, que une todo mundo. Mas é assim, e então parece que a vida é um pouco clichê, também. Constatei isso aqui em Recife.

Diferentemente dos times de futebol (o Sport de maior torcida, de classe média; o elitista Náutico e o popular - indo na raiz do termo - Santa Cruz), fanatismo de recifenses como, talvez (novamente clichê constatado) da maioria dos brasileiros, os blocos que desfilam e fazem a festa e a história no Recife não são segmentados por estrato ou classe social.

Na festa de abertura, o prefeito é "vaiado só pelos ricos. Eu aplaudo mesmo", me grita no ouvido a Marina, moradora de periferia e amiga de minha grande amiga Aline (em cuja casa de família estou me hospedando e sendo super bem acolhida). Quando pergunto se a prefeitura é boa, ela é assertiva: "Os dois mandatos de João Paulo fizeram foi melhorar muito Recife". E de qual partido ele é? Do PT.

Depois de palanque, o palco acolhe todos os santos e muito batuque, e me vejo no meio de uma ciranda colorida que "só faz aumentar" e preenuncia a alegria, os sorrisos, a expansão e o frevo da cabeça ao pé que percorrem e marcam todo o Carnaval daqui. Elza Soares e Marisa Monte também abençoam os foliões, com direito inclusive a homenagear Chico Science.

O maracatu, ao lado do frevo, é um dos ritmos dominantes. Tambores, cores, chapéus preenchem Olinda, e quando olho para cima, os bonecos gigantes assumem contornos nítidos no céu azul, azul. Lembro-me das histórias, das tradições, e me sinto preenchida e acolhida, fazendo parte de tudo aquilo e tudo isso. No lugar certo, na hora certa - e na embriaguez do frevo. Abençoado por todos os santos, todos os olhos e todas as cores.

Sunday, January 20, 2008

Veementindo

As horas não passam em dias chuvosos. Sequer passam os pensamentos. Ameaçam ir embora, rodopiam e não se desfazem. Voltam e permanecem, displicentes, sem nenhum pudor.
O sol já era fraco, ah, era tão bom de ouvir você cantar aqui, ela dissera.
A chuva cessando quanta vida urbana junta que canseira de barulho café telefone internet literatura noir.
Senti que alguns olhos me observavam, o sol sumia, nem uma cor das sete bonitas no céu.
Olhava quase com ternura.

Saturday, January 05, 2008

Mas o golpe estava dado.

"... disse apenas: "Ai! meu Deus!", soltou um suspiro e perdeu os sentidos. Estava morta! Foi um espanto!
Quando tudo terminou, no cemitério, Carlos voltou para casa. Embaixo não achou ninguém; subiu ao primeiro andar, foi ao quarto e viu ainda um vestido pendurado ao lado da cama; então, apoiando-se na secretária, permaneceu por muito tempo perdido num devaneio dolosoro. Ela, afinal, amara-o."

Gustave Flaubert, Madame Bovary.

Friday, December 07, 2007

- Que lindo que é sonhar

, ela tinha dito, os olhos risonhos sem medo de abismos ou de abismar-se, as mãos quentes e suaves entrelaçando.
A respiração ofegante, os cabelos bagunçando qualquer resquício de sensatez. A névoa enebriante dos olhos marejados, da neblina ou do cigarro, não saberia dizer.
Começou a desfiar teorias e contentamentos vários, a porta entreaberta e olhares cuidadosos.
O sonho faz a porta de papel, e a pele de metal - a carne que arde. Alma flutua, voa leve, rasante, pá(i)ra.
Não, não são paixões contadas em narrativas intimistas nem sopro de vida. Torna-se alva a solidez destemida, calafrios e arvoredos. E braços, uns poucos braços.

Thursday, November 29, 2007

Caminhos tortos (mortos?)

"6.
Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo "como ele de fato foi". Significa apropriar-se de uma remi-niscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito his-tórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominan-tes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no pas-sado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do histo-riador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer."

BENJAMIN, W. Sobre o conceito da História. In: Walter Benjamin - Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987.

Sunday, October 28, 2007

Bucolismo revolucionário

Crianças dançando em roda
energia transbordante
do fantástico vir a ser.

Saturday, October 20, 2007

Chorinho

- Trabalhadeira, ela sorriu e disse, caracterizando a mãe. Minha mãe é trabalhadeira.
E a mãe a ninou, antes de sair pé ante pé enfrentar os ventos e brisas de ares tão bem explorados e conhecidos, embora ironicamente negligenciados.

Tuesday, October 16, 2007

Ruptura

Um pierrot retrocesso,
meio bossa-nova e rock'n'roll.

Tuesday, October 09, 2007

Resposta do sambista (ou pedantismo intelectual)

Tá legal, eu aceito o argumento
(mas não me altere o samba tanto assim).

Wednesday, October 03, 2007

É samba que eles querem e nada mais (Homenagem ao samba)

Desde que o samba é samba, é assim: cantar manda a tristeza embora. Nos dias de feijoada completa, às vezes tudo o que se quer é morar no interior.
As pessoas andam tristes, e no meio de um planalto vazio - como se houvesse faca no ar - é imperativo dizer: chega de saudade.
Quanto a mim, eu vou fazer, ao meu jeito, eu vou fazer um samba sobre o infinito.

Tuesday, September 25, 2007

Choque

Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar
por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque,
um batuque com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui.
(Gilberto Gil)


Acabo de assistir a um vídeo que mostra a brutalidade a ação arbitrária da polícia norte-americana. Um estudante, ao fazer uma fala durante um evento com a presença do senador John Kerry, é interrompido pela polícia, agredido pela polícia e leva um choque elétrico da polícia. O porquê da interrupção? Segundo o comentário de alguém que assistiu ao vídeo e quis deixar sua opinião aos internautas:

This is hilarious. It's hilarious because people actually see this as police brutality. It isn't. It's also hilarious because the dumbass kept asking "what did I do? What did I do?" Let me enlighten you then dumbass:
You asked too many questions, especially the ones you're not supposed to ask, you're resisring arrest, you charged a cop afterwards and said it was police brutality when you got tazed?

Não sei dizer quais foram as perguntas que o estudante fez, mas num país que se vangloria de sua democracia pluralista, das iguais oportunidades que dá a todos e que assegura a todos os cidadãos, em sua Constituição, a “busca pela felicidade”, é possível que hajam perguntas que não possam ser feitas?

Ah, sim, é o mesmo país que comanda invasões em outros países alegando levar a tocha dourada e flamejante da democracia, enquanto seus soldados estupram mulheres e crianças na linha de fogo criada no Iraque. É o mesmo país que diz “lutar contra o terrorismo” e barra a entrada de muçulmanos em seus aeroportos. E barra mexicanos e brasileiros em suas fronteiras. O mesmo país que teve ônibus em que brancos se sentavam na frente e negros, atrás.

É, fundamentalmente, o país que se vangloria de respeitar, esticar e promover as liberdades individuais para seus cidadãos. Seus cidadãos? Aqueles brancos ricos que trabalhavam no World Trade Center e que também tiveram suas famílias destruídas no que chamaram de “ato terrorista de 11 de setembro”? Minimamente, a política norte-americana não consegue mais conter e sufocar os absurdos, e as desumanidades; a contradição entre o capital (a lógica do capital) e a vida humana extravasa os limites que – sendo otimista – qualquer chefe de Estado poderia prever.

Especulando. A polícia poderia alegar “perturbação da ordem” ou “desrespeito à nação”. “Nação”, este conceito vazio, cuja alegação de defesa serve para apaziguar e eufemizar violências e crimes cometidos inclusive à luz do dia numa universidade bem-conceituada do país. Lembro o recente massacre ocorrido recentemente numa universidade tecnológica norte-americana, também, quando um estudante atirou e matou vários colegas e depois também se matou.

Não podemos culpar este estudante, tampouco os policiais arbitrários. Tampouco a “burguesia” ou os “filhinhos de papai”. Fato é que nos é dada uma realidade imediata, na qual as relações entre pessoas são de plástico e tão “coisais” como a relação entre um controle remoto e a televisão. Inversamente, as coisas passam a ter vida própria: o carro novo nos dá alegria, o CD de jazz nos dá prazer. Estamos todos – trabalhadores, burgueses, classe média, operário, capitalista, funcionário público, estudante; utilize a nomenclatura e a categorização que quiser – submetidos a essa lógica de coisificar relações, tratá-las como coisas e nos subordinarmos às mercadorias. Cada um de nós, porém, apreende a realidade da maneira como ela nos é colocada. É como se existisse, objetivamente, uma só realidade; mas as percepções dela variassem de acordo com a localização da pessoa na estrutura social, ou na rede de relações, ou na esfera da produção, ou no papel religioso que essa pessoa possui, enfim. “A polícia”, como categoria social, cumpre sua parte no processo muito mais amplo de subordinar à idéia vazia de nação e à violência, a vida humana.

No país que lidera a consolidação do capitalismo global, não é difícil esperar uma atitude dessas. Mas que choca – com o perdão do trocadilho –, choca.

Monday, September 24, 2007

alô, Tião! 68?! Foste? Fui!

- Ô Tião!
- Oi?!
- Foste?
- Fui!
- Compraste?
- Comprei!
- Pagaste?
- Paguei!
- Me diz quanto foi.
- Foi quinhentos réis...

(Gilberto Gil)


A razão jamais dirigiu verdadeiramente a realidade social, mas hoje está tão completamente expurgada de quaisquer tendências ou preferências específicas que renunciou, por fim, até mesmo à tarefa de julgar as ações e o modo de vida do homem. Entregou-os à sanção suprema dos interesses em conflito aos quais nosso mundo parece estar realmente abandonado. (Horkheimer)


Escrevo estas linhas em setembro de 2007. Quase 40 anos desde o ano de 1968. Mil novecentos e sessenta e oito. Foi um ano de agitações, de questionamentos, de elaborações de idéias e de projeto de sociedade insaciáveis. No Brasil, quatro anos após o golpe militar, o ano de 68 foi despejar nas cabeças dos milicos que a ditadura e a repressão era o que os estudantes não queriam. Não estavam contra a ordem a priori, ou per si. Queriam viver, transformar, revolucionar, fazer história – sem esquecer seus mortos. Tomaram contato com Marcuse, Benjamin, Simone de Beauvoir, Sartre e Althusser. Politizava-se tudo: o sexo, as festas, o amor, a liberdade – tão almejada e reivindicada – e a própria política. A politização da política, a argumentação embasada, a experimentação de limites.


E não é porque os jovens foram os protagonistas desse ano – que, segundo o título do livro de Zuenir Ventura, é O ano que não terminou – que essa ânsia pela mudança deve ser considerada natural da juventude. O Brasil viveu o golpe de 1964 e a instauração de sua sui generis ditadura, que funcionou com o Congresso não-esfacelado (ou menos institucionalmente) durante um bom tempo; a cultura beat influenciava padrões comportamentais, bem como desafiava qualquer discurso moral o advento das mini-saias. E a influência do estrangeiro não se deu de mão única. A Tropicália[1] de Gil e Caetano buscou re-significar aquilo que vinha de outro continente e invaida a música brasileira – invasão que alguns chamavam de influência e outros, de imperialismo –, aliando às guitarras elétricas a sonoridade brasileira. A esquerda ortodoxa condenou tal atitude, e a falsa dicotomia criada entre a Bossa Nova e a Tropicália – reproduzindo, aliás, as taxações maniqueístas da época, comuns dentro da esquerda, como revolucionário ou reformista; povo organizado ou povo armado – contribuiu para a ira de Caetano, que foi vaiado ao entoar o que seria atribuído a posteriori como símbolo da geração de 68: o hino É proibido proibir. Sua resposta às vaias? “Se as idéias que vocês têm em política são as mesmas que vocês têm em estética, estamos feitos!”


E enquanto a esquerda se degladiava internamente (qualquer semelhança com o movimento estudantil de hoje é mera coincidência?), buscava a unidade contra aquilo que elegeram como inimigo comum: a ditadura e o imperialismo. À parte as diferentes interpretações e sutilezas (ou não) do imperialismo, como dito no parágrafo interior, faltavam coesão e estratégias conjuntas. Pensar a política como a arte da estratégia parecia ser pouco visceral, limitado demais para os estudantes, artistas e até mesmo intelectuais que, quando se tratavam de limites, preferiam a radicalidade à racionalidade – talvez o eclipse da razão, para usar o termo de Horkheimer, formasse também um maniqueísmo simplificado: as condições subjetivas para a revolução, a contemporaneidade de Fidel Castro, Mao e Che facilitavam a crença na vontade e a negligência – nem sempre velada – à razão. Ser radical é tomar as coisas pela raiz. O problema era a confusão de qual era e onde estava a raiz. A raiz era o povo brasileiro? O conceito vazio de nação? A cultura internacional era uma afronta às nossas raízes? Se “a raiz é o próprio homem”[2], há essencialmente um substrato comum que engendra a humanidade?


-----------------------
Notas


[1] Assim como Augusto de Campos, prefiro falar em Tropicália no lugar de Tropicalismo. O sufixo “ismo” denota, das duas, uma: caráter pejorativo ou historicidade. E, apesar de não deixar de enxergar a Tropicália com historicidade, seus integrantes preferiam dizer que estavam fazendo nascer, conscientemente, o novo. Atribuir à Tropicália uma temporalidade é algo que eles não desejavam; limitar, ainda que no espaço-tempo, é confinar e restringir. (ver CAMPOS, Augusto de. É proibido proibir os baianos, 1968. In: CAMPOS, Augusto de, Balanço da bossa e outras bossas. São Paulo: Perspectiva, 1978.)

[2] MARX, Karl.

----------------------

Eu devia escrever "continua", mas não sei, não. Talvez to be continued.

Saturday, September 15, 2007

Tá lá o corpo estendido no chão...

Não era uma madrugada tediosa de domingo, nem uma tarde odiosa de segunda-feira. Era uma tarde de sábado. Bucólica, crianças brincando na rua, adultos discutindo a política internacional no almoço, a vó botando panos quentes entre a tigela do pernil e as discussões calorosas entre gerações, a neta virando os olhos enquanto o vô dissertava sobre as utopias dessa juventude; discordavam e admiravam, nem sempre veladamente, as argumentações de um e outro.

Passa o tempo. Pode ter sido numa tarde de sábado, também, nem tão bucólica como aquelas. Caíram nas mãos da menina algumas palavras que lhe tiraram o chão. Fulana, poesia, marxismo, desejo, mar e violão.

O corpo estendido no chão tornou-se natural. Ela deixou, sem arrependimento, cair uma lágrima pelo sem-nome interrompido. Sequer atrapalhava o sábado. Não vislumbrava possibilidade de acreditar – dotada de racionalidade, emotividade e senso crítico, ainda – em qualquer coisa.




E não pendurei na parede do meu quarto o pôster do Che Guevara.

Thursday, September 13, 2007

You say you want a revolution...


Neurose do passado. Desmesura do mal praticado. Deslumbramento. Alienação da memória. Esquecimento, ressentimento, culpa. Elaborar o passado. Theodor Adorno, em seu texto O que significa elaborar o passado, faz uso de todos esses termos para, a partir da experiência do nazismo alemão, incursar-se na discussão sobre memória de um povo, sua construção identitária e urgência alemã de elaboração do passado. “O nazismo sobrevive”, diz ele, e cabe aqui uma conjunção explicativa, e não de oposição: sobrevive justamente porque dele não se fala. Não sucumbiu à própria morte.

Qual a relação entre o indizível e o ser humano? Uma relação de fascinação? Seria o indizível marcante nas relações humanas? Seria, por exemplo, o indizível destrinchado por poetas e resumido por leigos em ‘amor’? – embora não com menor intensidade, mas com restrita significação ao transbordar o indizível em palavras. Foucault, em sua História da sexualidade, pondera que o silencio sobre o sexo denunciava o pudor existente na sociedade sobre o assunto. Hoje, fala-se tanto em sexo, mas será esse alarde genuíno ou expressão de necessidade – pautada por tentativa e erro – de autoconvencimento da (reivindicada) naturalidade do sexo? Wittgenstein proclamava a linguagem como uma multiplicidade de usos e que celebrava a interação de significados. Significados dotados de atributos sociais, mas também de historicidade individual – já que cada um preenche, a partir de sua história de vida, as palavras e as suas relações com os homens e as coisas. Ao engendrar historicidade no indizível, este adquire significação mais universal em relação a um determinado grupo de pessoas. A história e a cultura tornam-se elementos-chave para a construção de identidade de um grupo social: fazer do indizível, assim, característica fortemente social e de coesão, e não mero atributo subjetivo.

A não-elaboração do passado contém não somente um caráter subjetivo de negação da tragédia a partir da desmesura do mal praticado. A negação do embrutecimento pessoal – brutal e, segundo Freud, fatal em determinadas experiências traumáticas –, por exemplo, é fator importante na não-elaboração de um passado individual. Mas um passado de proporções como o nazismo não é factível de ser analisado apenas sob o viés individual e pessoal. Adquire expressão social também, assim, a neurose do passado. (vide post anterior)


...well you know
we all want to change the world.

Saturday, September 08, 2007

parênteses - ou intervalo instrumental

Vem conquistar o que é seu
A gente sofre
A gente luta
Pois nossa palavra é sim.



Quem procura lembranças perdidas? Não sabe o que faz. O erro está na pergunta. Veja só.

Indiscutivelmente há muito de neurótico no que se refere ao passado: gestos de defesa onde não houve agressão; sentimentos profundos em situações que não os justificam; ausência de sentimentos em face de situações de maior gravidade; e não raro também a repressão do conhecido ou do semiconhecido.
Theodor Adorno.

Friday, August 31, 2007

que pousou na sopa

A sua mesquinharia se faz sentir em mim. Seu anti-desejo de não perceber quão terrível é a queda. Meu medo de machucar ao ver o chão mais de perto se desfez; somos dois bebês encantados com o mundo exterior que de nós se separa instante por instante – já. Por mais que a gente se machuque, se estrepe, se foda. A gente tem esperança. E sonha. A sua presença me mutila, e não me abandona. Meu medo se desfez; o que a gente quer é a intensidade. Ai de quem não rasga o coração.



Quem sou eu pra falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim.
Chico, aquele lá, sempre, claro, o Buarque de Hollanda.

ac(l)ariceando(-te)

Eu lutava porque não queria uma alegria desconhecida. Ela seria tão proibida pela minha futura salvação quanto o bicho proibido que foi chamado de imundo - e eu abria e fechava a boca em tortura para pedir socorro, pois então ainda não me havia ocorrido inventar esta mão que agora inventei para segurar a minha. No meu medo de ontem eu estava sozinha, e queria pedir socorro contra a minha primeira desumanização.
A desumanização é tão dolorosa como perder tudo, como perder tudo, meu amor. eu abria e fechava a boca para pedir socorro mas não podia nem sabia articular.
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.

Saturday, August 25, 2007

"...e a gente pagou pra ver"

Que seja.
Estou farta de racionalizações que me impõem incondicionalmente. Estou farta de reproduzir racionalizações. De agora em diante, o meu horizontalizar não me preocupa mais; se há condição humana, que seja... Que seja a que nos faz ficar.
Se for pra comparações baratas, te digo da chuva de verão. Ou do arco-íris que vem depois dela. Deliciosos assim, displicentes assim.
Não quero me fazer entender, quero ouvir suas palavras bonitas, e quero nelas acreditar. Quero a sua sinceridade, seus olhos esbanjando descobertas, sua ansiedade, meus-nossos anseios e uma novidade com cheiro de armário, ou de alecrim, que me enche toda - a partir de você. Quero nós como sujeitos não-platafórmicos, reais, líricos, ingênuos - porquê não? - e sonhadores.
Que venha.

Tuesday, July 17, 2007

Catando a poesia que entornas no chão

Se, para além de manter-nos, os sonhos nos desenham possibilidades a serem vasculhadas, e, bolhas de sabão que são, a nos rodopiar nos confundem, o que resta é entrar na roda de dança. Cirandear, como crianças. Perguntar, com a esperança de ser ouvido e a crença na resposta, a construir verdades imaginadas, roubadas e desvendadas. Vendavais desconseguem assustar àqueles que têm suas certezas amparadas em bases frágeis não-fixadas; pode-se começar por qualquer canto onde haja uma restinha de sol. De sol. Bom dia.

Saturday, July 14, 2007

Da liberdade

Vivemos numa sociedade onde, apesar de marcados traços nacionalistas e forte propaganda nacional de enaltecer a auto-imagem do brasileiro, somos migrantes. Desde o simples trajeto diário casa-trabalho-casa até as excepcionais viagens de férias em família, ou viagens ao exterior para negócios; nos deslocamos para cumprir nossos papéis na sociedade – os quais se transformam de acordo com os locais de destino. Assim, o pai de família é o empresário bem-sucedido, o patrão autoritário e o sobrinho inconveniente. O trabalhador pobre é pai de família, empregado explorado e ajudante de pedreiro nas horas vagas. A filha mais velha é a neta favorita, a melhor aluna na escola e uma turista aspirante à jornalista nas praias do Nordeste, em janeiro.

Ironicamente, a geração dos anos 90 é tida como a “geração dos filhos de pais liberais” (liberais no sentido de não-autoritários, flexíveis e compreensivos), mas é a todo momento condicionada – por normas na maioria das vezes não-ditas, mas que pairam na sociedade. O espaço geográfico comporta peculiaridades, as quais nos impelem a cumprir os papéis exigidos por determinados ambientes e situações. Mas e quando estamos no ato de migrar? Os jovens, por exemplo, de classe média, alta e baixa, passam muito tempo no caminho de casa para a escola ou para o trabalho. Seja no ônibus, no carro ou à pé. Será que nesses momentos, são destituídos de qualquer papel social?

Alguns antropólogos caracterizam os meios de transporte e os caminhos por não-lugares. Mas e se passamos boa parte de nossos dias nesses não-lugares, passamos o dia sendo “ninguém”? Penso que não; afinal, se o espaço geográfico é importante, ele não é característica sine qua non para se formar uma identidade. Os diferentes papéis sociais que um indivíduo cumpre se entrelaçam e se co-determinam.
Além disso, se o não-lugar nos torna caminho diário e é incorporado à nossa rotina, passa a fazer parte de nossa vida e nos influencia e vice-versa. Quanto de nós pertence a um lugar, é reflexo do lugar, e vice-versa?

Entretanto, quando estamos na situação não-rotineira de migrantes, somos destituídos de laços consistentes; não estamos mais ligados ao lugar de onde saímos nem, ainda, ao destino. Experimentamos, assim, uma sensação de liberdade para criar quaisquer personas e assumir quaisquer papéis que se deseja. E nos atinge a problemática: “livre para fazer o quê?”.

Inseridos numa lógica segundo a qual tudo se transforma a tende à mercantilização e tem sua importância de acordo com sua finalidade – ainda que esta seja falseada para o hedonismo –, reproduzimos a lógica da busca pela necessidade de consumo da liberdade. Procuramos dar sentido; a liberdade não pode simplesmente ser condição para o homem ser homem, para o homem realizar plenamente suas faculdades, emancipar-se e ter consciência de si. Não. A liberdade é mais um bem consumido, e desprezado se não é nele encontrado sentido palpável, material e imediato. Não se pergunta mais o porquê da liberdade; mas para quê a liberdade. E essa inversão deve ser revertida, para a liberdade, enfim, poder constar em nosso ser.

Sunday, June 24, 2007

A noite desceu.
Que noite! Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes
cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio.
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave,
as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência,
um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce,
de tão necessário para colorir
tuas pálidas faces, aurora.


Drummond

Friday, June 22, 2007

A inversão dos números

A redução do número de professores e o aumento do número de estudantes exemplificam a política do governo estadual de redução dos investimentos na educação e os prejuízos para o ensino superior paulista.

A universidade pública, para a maioria dos jovens, tornou-se apenas um mito. A má qualidade da educação oferecida pelo governo para o ensino básico e médio e o fortalecimento das escolas e cursinhos privados não contribuem para a democratização do acesso à universidade pública. Soma-se a isto o contexto de competição expresso pelas regras do vestibular e o fato de 71% dos estudantes universitários estarem em instituições privadas.

Esta política de estímulo à privatização da educação é impulsionada desde a década de 90 por sucessivos governos neoliberais (Collor, Fernando Henrique e Lula da Silva em âmbito federal; além dos sucessivos mandatos estaduais do PSDB em São Paulo, por exemplo). É característica deste programa político a transformação da educação, que é – ou deveria ser, de acordo com a Constituição federal (art.205) – direito (obrigação do Estado para com toda a população) em serviço (passível de negociação, compra e venda, em esfera civil e individual). Esta política é um entrave à universalização do ensino superior público, gratuito e de qualidade.

Diante deste quadro de desmonte do sistema educacional público, neste ano se fortaleceu o processo de mobilização de estudantes, funcionários e professores contra estas políticas privatistas, e em São Paulo a greve de estudantes e funcionários persiste nas três universidades estaduais (USP, UNESP e UNICAMP). O estopim da crise foram os decretos do governador José Serra, que versam contra a manutenção da autonomia universitária financeira, administrativa e didático-científica; institucionalizam a separação entre ensino e pesquisa e entre trabalho intelectual e técnico, e submetem (quando não desprezam) a extensão – que, juntamente com o ensino e a pesquisa, forma o tripé funcional da universidade – a interesses privados. Com o Decreto Declaratório nº 1, fruto da forte mobilização popular, o governador mostra um recuo; porém o caráter prejudicial dos decretos e da política que eles explicitam para as universidades e centros de pesquisa estaduais foi mantido – expresso, por exemplo, na manutenção da secretaria de Ensino Superior.

Um dos decretos, o nº 51.471, afirma que ficam vedadas a admissão ou contratação de pessoal no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta, incluindo as autarquias, inclusive as de regime especial [as universidades públicas se encaixam nesta categoria], as fundações instituídas ou mantidas pelo Estado e as sociedades de economia mista. Apesar de recuada com o Decreto Declaratório nº1, o decreto nº 51.471 institucionaliza o problema da não contratação de funcionários e professores nas universidades estaduais paulistas, sem acompanhar o crescimento do número de estudantes nas mesmas, contribuindo para a queda da qualidade da educação e deficiência em seus aspectos estruturais.

A falta de professores é evidente, e os números são alarmantes. Na Unicamp, de acordo com a Diretoria Geral de Recursos Humanos (DGRH) e a Diretoria Acadêmica (DAC) desta universidade, o número de estudantes de graduação subiu de 7.280 para 17.275 entre os anos de 1989 e 2006. Neste mesmo período, o número de professores, de forma inversa, caiu de 2.103 para 1.827. Neste contexto, a relação aluno/professor, que em 1989 era de 6,5, passou para 17,4 em 2006. O que pode parecer algo vantajoso – aumento da produtividade docente – é, antes de tudo, indício de queda na qualidade do ensino e reproduz uma lógica produtivista, sem preocupação com a formação integral do estudante, visto que é humanamente impossível manter o mesmo nível de qualidade da educação com um aumento grosseiro do número de estudantes em relação à redução do número de docentes. Também exemplifica a redução dos gastos do governo com a universidade pública, privilegiando a entrada de capitais privados para financiamento de pesquisas.

Outros dados para exemplo: Na Faculdade de Educação (FE), o número de estudantes de graduação era 497 em 1996, e passou para 1.878 em 2006. No mesmo período, o número de docentes, caiu de 106 para 98; no mesmo tempo, o número de estudantes da Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo (FEC) passou de 402 para 654, enquanto o número de docentes manteve-se praticamente o mesmo (de 75 para 76). Também nestes dez anos, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o número de graduandos desde 1996 subiu de 649 para 1.037. Já o número de professores caiu de 116 para 94. É importante salientar que neste instituto foi construída pelos estudantes uma campanha pela contratação de 75 professores, segundo cálculo dos próprios discentes para manutenção da relação aluno/professor de dez anos atrás, visando a manutenção da qualidade das pesquisas e das disciplinas oferecidas.

Os problemas advindos da queda do número de professores e do aumento do número de estudantes, ambos significativos, podem ser até abafados na opinião pública com as informações que os reitores destas universidades expõem na mídia, como o crescimento porcentual das pesquisas desenvolvidas nestas instituições. Porém, dentro da universidade, muito longe do que surgem nas manchetes de jornais, estudantes percebem a queda da qualidade do ensino e o descaso do governo com a educação superior pública, explicitada também na falta de políticas de assistência estudantil – como moradia, transporte e alimentação –, na redução do número de funcionários contratados por concurso público (acompanhado por um latente processo de terceirização e conseqüente precarização do trabalho), nos processos de flexibilização curricular, e que em conjunto promovem uma universidade sem pensamento crítico-científico, de formação técnico-operacional e voltada única e exclusivamente para os interesses do mercado.
As mobilizações e greves que vemos surgem em resposta a esta política que não prioriza nem zela pelo ensino público. Não nos mobilizamos para manter “privilégios”, mas, pelo contrário, para universalizar o acesso ao ensino público de qualidade e para impedir que a universidade se afaste cada vez mais do sentido que atribuímos a ela: o de exercer uma função social, buscando soluções aos problemas da sociedade – em especial da população pobre e trabalhadora – e sendo, bem como diz a Constituição, um direito para todos.

Stella Paterniani e Sydnei Melo (estudantes de Ciências Sociais da Unicamp)

Saturday, June 09, 2007

Auto-retrato interno de uma tarde de segunda-feira

Enquanto passeava os olhos pelas linhas que, vez ou outra, diziam-lhe do mal do mundo e do afã humano da infelicidade, sentia seu corpo escorregando pelo banco frio. À medida em que seu corpo ia cedendo ao cansaço e tomado pela baixa temperatura exterior, crescia em si o desejo de alimentar-se intelectualmente. Crescia a ânsia pela mudança, a utopia de viver em um mundo diferente, com muitas cores, algumas certezas – diferentes das correntes – e outros segredos a serem desvendados. Um mundo repleto de sons, campos e possibilidades. Um mundo onde cada ser humano vivesse como tal e tivesse consciência disso. Onde a vida não fosse subjulgada por armas de fogo, por poder, pela violência ou por um corte de cabelo. Onde as vidas fossem contempladas pela vivência plena, e não – como são – sobrevidas (a partir da vivência do essencial, apenas – ou, às vezes, magicamente, nem isso).

Não que a plenitude signifique felicidade; o afã pela felicidade a qualquer custo, como é hoje tão concorrentemente disseminado, era outro ponto a ser desconstruído: que os sentimentos encontrassem, nos humanos, lealdade. Que a tristeza, a melancolia, a ansiedade, as frustrações fossem sentidas, e tivessem autoridade e aval para a entrega.

Retomada a consciência corporal, via estrelas à sua frente; seu corpo horizontal, integrante do banco, tornava-se insensível ao frio – (ou) unia-se a ele. A sensação submetia-se ao sentimento, e o entender o corpo não era mais sinônimo de sanidade.

Sunday, May 27, 2007

Buscas incessantes

O que é passível de sentido
é possível de sentido?

(Que importa o sentido se tudo vibra?)
(Alice Ruiz)

Wednesday, May 16, 2007

Desde que o samba é samba

... é assim.

Me disseram que só dói porquê tá vivo; propus que matássemos então.
Fui tentar e não consegui, e a pergunta que não quer calar: matar o quê?, ou morremos nós?

Têm coisas que nos compõe, outras que nos são essenciais.
Sim.

Cantando eu mando a tristeza embora.

Sunday, April 08, 2007

"Qual a parte da sua estrada no meu caminho?"

O filme 300, de Zack Snyder, recria a batalha das Termópilas, ocorrida em 480 a. C., na qual o rei Leônidas e 300 espartanos enfrentaram e venceram por 4 dias o exército persa de mais de cem mil soldados. No quinto e último dia da guerra, porém, são traídos por um espartano disforme que, por sua forma física, não é aceito em Esparta. Esse traidor alia-se ao exército persa, comandado pelo rei Xerxes, o qual – ainda que falsamente – elogia e dá valor, riqueza e mulheres àqueles que o reverenciam, a ele se curvam e se aliam. Assim, a negligência do rei para com aquele que deseja ser seu súdito mas não cumpre os requisitos necessários para pertencer à sociedade espartana culmina, enfim, no fracasso da batalha.

Quanto de egoísmo, ânsia individual pelo poder, desejo de se manter lembrado na história e vaidade humana estão presentes numa guerra? No caso da batalha das Termópilas, o álibi para o enfrentamento começar é a ordem que traz o mensageiro persa aos espartanos: água e terra. Que Esparta ceda território e água ao povo persa.

Conhecida por seu caráter bélico aliado a um forte sentimento patriótico, Esparta tinha como um de seus principais objetivos fazer de seus cidadãos bons soldados: bem treinados fisicamente, corajosos e obedientes às leis e às autoridades estatais. O mensageiro, no filme 300, é morto por desafiar e insultar o rei Leônidas. Tivesse ele um pouco mais de tato e menos “desrespeito para com as autoridades e o povo de Esparta”, evitar-se-ia a guerra? Tivesse o povo persa pedido – e não exigido – água e terra, Esparta teria, amistosa e generosamente, atendido à necessidade de seus vizinhos?

Não se pode pautar a História pelo que poderia ter sido, mas qual é a responsabilidade do orgulho e da vaidade humana e das relações pessoais nas relações políticas e em seus desdobramentos? Há grandes tragédias cujo início foi um rompimento diplomático – a própria segunda guerra mundial, por exemplo. Afinal, os governantes são também seres humanos e têm suas paixões, interesses e sentimentos aflorados, questionados e contrariados constantemente.

Além do questionamento sobre a predominância da vaidade e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos, o filme de Zack Snyder nos faz pensar nos anacronismos existentes ao se adaptar ao cinema – ou à literatura, ou mesmo ao analisar academicamente – épocas históricas tão distantes da atual. Um exemplo disso é a dor expressa pela mãe de uma criança quando, aos sete anos, esta deixa os cuidados da mãe para viver sob a orientação do Estado, que tinha professores especializados para educar seus cidadãos desde pequenos (Hoje, inclusive, eu diria que o ditado “É de pequeno que se torce o pepino” é bem aplicado e diz muito sobre a educação espartana). Os jovens levavam vidas muito austeras, vivendo em pequenos grupos, realizando exercícios de treino com armas e aprendendo as táticas bélicas de formação.

A dor maternal, entretanto, é fruto da interpretação de nossa sociedade atual do fato. Porque em Esparta, essa separação aos sete anos de idade era costume. Os costumes são raramente questionados e, por seu caráter universal e existente na consciência coletiva da população, são facilmente aceitados e naturalizados. Assim, não há porque a mãe do menino sofrer por não mais conviver com seu filho: seus laços não são estabelecidos da mesma maneira como o são os nossos, atualmente. O amor – no caso, o maternal – e a afeição, como construções sociais e culturais, são diferentes entre sociedades e entre épocas.

Problematizações históricas à parte, não se deve esquecer que o filme é belíssima adaptação cinematográfica da história em quadrinhos de Henry Miller, a qual retratou o caráter mítico adquirido pela batalha dos 300 homens de Esparta. Seja por vaidade, orgulho, segurança ou patriotismo; seja por motivos coletivos ou individuais, os 300 cidadãos/homens/soldados espartanos “saíram da vida para entrar na História”.
(E Rodrigo Santoro não deixa a desejar.)

Saturday, March 24, 2007

Sobre o ser e o estar

"Neste instante-já estou envolvida por um vagueante desejo difuso de maravilhamento e milhares de reflexos do sol na água que corre da bica na relva de um jardim todo maduro de perfumes, jardim e sombras que invento já e agora e que são o meio concreto de falar neste meu instante de vida. Meu estado é o de jardim com água correndo. Descrevendo-o tento misturar palavras para que o tempo se faça. O que te digo deve ser lido rapidamente como quando se olha."
Clarice Lispector, "Água viva"


O verbo ser não existe em tupi. Talvez porque eles tenham consciência da pretensão que o verbo exprime e, ao mesmo tempo, de sua comodidade. O que é, é. Permanentemente. O verbo ser expressa uma certeza, necessária a uma certa serenidade – ainda que aparente e ilusória – buscada pelo ser humano na nossa sociedade ocidental capitalista, onde definições são procuradas e distribuídas. Entretanto, o ser é pautado pelo ter: o que se pode consumir é aquilo que define o ser, aparentemente para a vida toda – que acaba por tornar-se um acúmulo de definições vitalícias que se superpõem mas não necessariamente se substituem.

Na nossa gramática, o verbo ser define as frases subordinativas. Ele compõe, essencialmente, a oração principal. Assim, exprime-se uma lógica hierarquizada, na qual o ser exige um predicado e, no momento em que esse predicado é definido, a limitação pautada por ele é gigante. No momento em que se passa a ser, deixa-se de ser, também, o que outrora poderia tornar-se. Na vida social, deixa de ser verbo de ligação para ser verbo intransitivo.

Mas se o verbo ser não existe em tupi, é porque a existência não é pautada por definições permanentes e excludentes. Expressa-se não a essência das coisas, mas o seu estado: o uso crucial e comum é o do verbo estar. As situações parecem se caracterizar como mais flexíveis e passíveis de adjetivações flutuantes. Não se é; está-se. O estar passa a definir momentos, talvez com maior relatividade de classificações e sem receios de atitudes das quais não se possa desprender ou arrepender-se.

Se na nossa sociedade, percebe-se, o ser é definido pelo ter, e este nos define essencial e imutavelmente, há que se lutar contra esses tipos de aprisionamentos e defender uma sociedade na qual o ser seja flutuante e não deposite em si tanta responsabilidade. Uma sociedade na qual o estar assuma a intransitividade. Onde as pessoas não sejam definidas pelo que possuem; onde as pessoas não sejam definidas, sejam apenas sentidas em seus diferentes estados de estar. Onde o verbo ser conste apenas no dicionário, com explicações ininteligíveis e impossíveis de serem compreendidas, numa sociedade onde não se é. Está-se.

Saturday, March 10, 2007

"Meu grito inimigo é: cê foi mó rata comigo"

Ratos permeiam minha mente. Talvez somente pelo lirismo, talvez pela sua comedida situação de estar só no mundo e mal-viver. Talvez pelo desprezo que sofrem e pelos caminhos que, ébrios, traçam e seguem à risca, a esmo. Esmola é o que ratos não pedem. Dependem, quiçá, do desprendimento alheio. Ouvidos atentos, tosados, pelados, olvidos do mundo. Domésticos, quase, nesta semi-pós-modernidade difusa, perversa, invertida, atordoada. Doada até os dentes por aqueles que não têm valor. Loucos, trapezistas, equilibristas oscilantes ante a vida e perante a esperança e a desgraça. Graça. Graça de manipular, de pular e mergulhar e tecer os meneios dos impunes hospedeiros. Eiras e beiras, bancos pra que te quero! Esmero meu, nosso, vosso, e bendito é o fruto da macieira àquele de eira, ao sem beira. Beirando a estupidez segue-se, seco e arrogantemente rumo ao quintal. Tal é a música a ser dançada; exigem-se rodopios, frevos e lambadas. Mais nada.

Wednesday, February 21, 2007

Moralmente estafado

É. Cinzas.
Tem gente que acredita que tem um pássaro, uma tal de fênix, que renasce delas.

Eu não sei se acredito.

Monday, February 05, 2007

C.R.A.Z.Y. diamond, shine on

“This is Major Tom to Ground Control.
I'm stepping through the door,
and I'm floating in a most peculiar way.
And the stars look very different today.”

A coragem de olhar o mundo sob outro ponto de vista, expressa especialmente nesse trecho de “Space Oddity”, de David Bowie, é um dos assuntos predominantes em “C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor”, de Jean-Marc Vallée. Zachary Beaulieu, quando dubla o clássico de Bowie – em fase Ziggy Stardust, no auge dos anos 1970 – vestido e maquiado como tal, escancara-se ao mundo – ou ao menos à sua vizinhança – por ter deixado aberta a janela do quarto, palco principal das epifanias adolescentes.
O garoto é o sétimo filho da família Bealieu, mas tem quatro irmãos – três foram abortados. E de acordo com as superstições canadenses – que têm suas correspondentes na cultura brasileira, como o mito bem divulgado em histórias do Chico Bento, de Maurício de Souza, de que o sétimo filho tende a tornar-se lobisomem –, sua mãe acredita que ele tem um dom. Soma-se a isso o nascimento do menino no dia 25 de dezembro e sua capacidade de acalmar o choro dos bebês com cólicas quando os segura.
Nascer no Natal é experiência traumática para as crianças, desde cedo imersas na lógica capitalista: é o fim do mundo receber apenas um presente no combo “Natal+aniversário” enquanto todos os amigos recebem dois ao longo do ano. Como se não bastasse, não é permitido a um menino ganhar um carrinho de bonecas. Pergunta-se a uma menina porque ela ganha bonecas, e não bola de futebol. Ela responde, naturalizando: “Porque eu gosto de bonecas. E bola é coisa de menino.” E ela não deve gostar de “coisas de menino”. Poda-se o interesse genuíno e inocente de menino por bonecas. No filme, o pai de Zac tenta contornar a situação, dando-lhe de presente uma vitrola, um banjo, uma bateria... E vê-se formada a banda completa antes mesmo do garoto completar dez anos de idade.
Conforme cresce, Zac vive um romance com uma amiga, para tentar enquadrar-se ao permitido e fugir de seus desejos por “coisas de meninas”. A homossexualidade do rapaz é percebida, mas não aceita pela família – principalmente pelo pai. O orgulho viril masculino de ter concebido cinco filhos homens não pode ser atacado nem desconstruído dessa maneira. A dependência química de Raymond, irmão mais velho de Zac, é mais facilmente aceita pelo pai do que o desonroso filho homossexual.
“Há dois tabus aqui em casa. Eu e Raymond.”, diz Zachary. Poderia ter dito: “as drogas e a homossexualidade”, mas ao personificar e, conseqüentemente, fundir o tabu às respectivas personas estampa um significado de irreversilibidade e aceitação dos fatos e características intrínsecas aos dois. Caberia, então, a todos, lidarem com o que não tem remédio.
A relação do menino com a mãe também é emblemática, e caricatura as mães compreensivas e mediadoras dos conflitos domésticos. O filme ultrapassa o lugar-comum de famílias de classe média e suas crises burguesas quando Zac, num ímpeto, vai para Jerusalém buscando uma espécie de retiro e compreensão de si mesmo. Mas a escolha do lugar para a viagem é fruto de influência direta da mãe, católica fervorosa, que sonhava em conhecer a terra santa. É nessa terra santa, enfim, onde Zac vive uma paixão homossexual e se entrega – com o perdão do trocadilho – aos pecados da carne. Agoniado, telefona para a mãe. Ela sabe que é o filho ao telefone, bem como sabe da inquietude do menino, como bem o sabem sempre, as mães. Segue-se uma das mais belas cenas, quando Zac, descoberto, por fim, deixa o quarto e, no amanhecer, vislumbramos um corpo masculino, por fim, semi-coberto espreguiçando em sua cama.
O diretor consegue, ainda, transmitir beleza original e espontânea a cada cena. O figurino, os carros, o Canadá dos anos 1970, a capa de “The dark side os the moon”, álbum clássico pink floydiano desenhada na parede do quarto de Zac e a trilha sonora também composta de clássicos de Rolling Stones e dos já citados Bowie e Floyd são expressões muito bem desenvolvidas do momento histórico.

Saturday, January 13, 2007

O alumbramento do olhar para TV num domingo

Ah, eu te amo, e como amo, se é que amo alguém, amo tanto, e acho que de amor me explodo, explodirei, enfim, com você perto de mim e nossas bocas e coxas e mãos e sentidos, nossas peles, o ar, a expiração, a inspiração, a respiração, o trabalho, o cansaço, a lua, a lua, a lua!, suas mãos, pequenas, sobre as minhas, sua arrogância e meu olhar de desprezo, minha força, meu domínio, sua subjugação, nossa prepotência. Nossas cores, nossos gostos, nossos gozos e os alheios. Os medos e os receios, os remorsos e os anseios. As noites claras, os dias fugazes, a cama, a lama, o caos, o chão, o corpo, o entulho, o escuro, a paixão. Minha alma resplandece, seu olhar te denuncia, nos rendemos, enfim, ao que já sabíamos, e não temíamos, apenas jogávamos e nunca havia um vencedor. Não há perdedor em nosso jogo, há dominação e amor e prepotência e paciência. E há, e falta, e falta reconhecimento. Pois do sereno nasce a flor, é como um cais ao pôr-do-sol preocupado com os navios que não atracam. E se atracamos, não nos atraquemos mais; o calor que não pode esperar, o olhar aflito e as mãos trêmulas de ansiedade perante o porvir - e o pôr-do-sol, onde é que estava, de onde veio? Não importa o tamanho das ondas ou das ondulações, oscilações, exageros; o que importa são seus dedos pelos cachos dos meus cabelos. É pra me fazer sentir o ali, o instante do ali, de nós, entregues, sem tempo, espaço, pudor, moral, rejeição, recolhimento, traição, competição. Somos nós. Sou eu. É você. Sou você. E os que virão depois de nós.

Monday, January 08, 2007

A internet e o espetáculo (parte I)

A Internet é o mais contemporâneo paradoxo. É, simultaneamente, o lugar onde muitas pessoas sentem-se incrivelmente à vontade, e um permanente não-lugar – a partir daí, torna-se ponto de não-retorno. Talvez pela intimidade e hospitalidade, por um lado, da rede poder fazer sentir(-se/lhe), seja despertado o sentimento – ou o sentido – de liberdade individual inalienável e quase que incondicional. Talvez por estarem no conforto de seus lares e protegidas por uma membrana (in)transparente, as pessoas – ou melhor, os internautas – sintam-se tão à vontade para mostrarem-se nus perante seus companheiros – e a intenção da frase era metafórica, mas o literal também se a carapuça serviu... A questão é se se mostram de fato, inteiros, íntegros e intrínsecos àquilo que são, ou se criam personas, personagens e facetas, inspirados em seus melhores, piores ou (im)possíveis.
Pois bem, o buraco é muito mais embaixo. Caímos no relativismo da discussão sobre o ser. Eu, particularmente, acredito que não somos; estamos. E, por estarmos, somos quase que polivalentes, ou multifacetados, ou divisíveis. É o constante estado de estar o responsável pela instabilidade de muitas mentes internéticas e perfis de orkut – vide os constantes ‘orkuticídios’ cometidos. Entretanto, a discussão entre o ser e o estar é convergente se comparada à já também exaustivamente discutida questão de regressão – à medida que desenvolvemo-nos – entre o ser/estar e o ter.
Li ontem na folha Mais! Um excelente artigo no qual o autor aprofunda essa digressão e faz-nos (de)cair: hoje, em nossa ocidentalóide sociedade, o que impera não é mais sequer o ter: é o parecer. Nesse sentido, completamos nosso esquema e a Internet torna-se extremamente lógica: é lá que criaremos nossas diferentes personas, é para lá que transportaremos nossas frustrações e as dividiremos e acharemos graça. É na Internet que as pessoas fogem da solidão e se masturbam simultaneamente diante de uma webcam. É lá que preconceitos nazistas, racistas e homofóbicos se espalham. Talvez a criatura tenha vencido o criador e, de fato, o homem tenha tornado escravo de seu caráter patético, o qual é devastadoramente inflado pela Internet.
Guy Debord escreveu, em 1992, um livro fascinante chamado “A sociedade do espetáculo”, no qual teoriza que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”, e explica: “do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também armas para o reforço constante das condições de isolamento das “multidões solitárias”. Pá-bum: a internet, o espetáculo.

Wednesday, October 04, 2006

Tilin

Sinto o véu caindo.
Tenho dúvidas se cai pela física,
metafísica
ou patafísica.

Se alguém o puxa,
se eu me desvencilho,
se vários o puxam,
se é o vento que venta que o faz deslizar.

Se eu me seguro,
seguro
ou se pulo.
No quase -
No escuro.

Monday, September 25, 2006

O mar e o sertão. Ou amar Lisbela.

Dizer que é amor às vezes é significante.
Às vezes, não.
Pode corresponder a dizer 'bom dia', e isso não precisa ser, necessariamente, coisa de tia. Ou coisa de quem mente. Ou exagera o sentimento, ou o que tem em mente.
Pode sentir que ama e não dizer, pode amar o sentir e não dizer! Porque a partir do momento em que diz e personifica, puf! a palavra vira pessoa e Pessoa que é amor é rara de encontrar. Pode atá existir várias Pessoas, mas algumas nem amam. Outras se amam. Outras ignoram.
Enfim, o dizer é por vezes desnecessário.

Parodiando o príncipe (muito estudado por mim nesse semestre!), o essencial é inexistente nas palavras.

Saturday, September 09, 2006

Roda viva

Tem dias em que tudo faz sentido e a gente, felizmente, se sente contente. Como se a nuvem negra nos deixasse, ou até nos acalmasse, quiçá fizesse parte da parte que agora existe.
Nesses dias, tudo basta. Tudo completa, ou se completa.
Eucompletovocê.

Friday, August 25, 2006

A borboleta voou (como na cena do Patch Adams)

Shakespeare disse, já, que somos feitas das mesmas matérias de nossos sonhos.
Será que se a gente tiver um sonho bem denso e passível de realidade, a efemeridade da nossa vida diminui?

Efêmera assim, a vida.
Praticamente se desmancha no ar.

E quando você percebe que não vai mais poder conversar futilidades e amenidades com alguém, já é tarde demais pra ter vontade de fazer com que a pessoa sinta-se bem e saiba o carinho que vc tem por ela. Será?

Ainda assim, eu não compreendo. E ainda acho que é uma pena, e é triste.
Só espero que ela pense o contrário e esteja melhor agora.

Wednesday, August 23, 2006

As estrelas observavam a menina, estarrecidas. Jamais outro ser tão etéreo as tinha chamado tanto a atenção. A menina Luzia, encantada com sua sombra provocada pelo luar, sorria embevecida em seu mundo recém-descoberto. Sua sombra sempre parecera atônita e alheia a tudo, o que por vezes chateara a menina. Mas agora descobrira o motivo disso tudo: ninguém nunca tinha ensinado a ela, pobre criatura das trevas, as expressões. Não sabia o que fazer para expressar felicidade ou tristeza. Luzia compreendera, e agora pensava uma técnica para ensinar sua sombra a se expressar.

[Ela está pensando.]

Saturday, June 24, 2006

A vida inteira que podia ter sido e que não foi

E depois de tanto sofrer, quem adivinhar ganha um doce.
É, perdi.
(batata)
Logo ele.
Logo eu.
Pra nunca mais.
E saudade entra e faz morada no meu peito.
Saudade do que podia ter sido e que não foi.

Sunday, May 28, 2006

A chuva que (não) limpa

Deixa eu brincar de inventar, eu não consigo mais olhar pras gotas na janela a escorrer.
E nem adianta a brincadeira, eu sei que a tarde inteira eu vou pensar em você.

De repente na janela, as gotas verde-e-amarelas se fundem e me confundem, e delas eu vejo uma flor.
E vejo que foram meus olhos criadores da confusão:
As lágrimas me deixaram, do verde-amerelo a desbotar, criar a flor - da ilusão.

Monday, April 17, 2006

Dá licença, seu moço, que a poesia vai passar.

Minha tia uma vez me disse que não lia mais jornal, porque quando o fazia, sentia que morria um pouquinho dela a cada dia.

Já me senti assim também, no vai-e-vem das marmeladas políticas e das fotos peladas das crianças raquíticas morrendo de fome enquanto dizem 'amém'.

Amém pra uma promessa qualquer, porque quando não se tem esperança o jeito é entrar na dança e tentar pôr na balança o sonho, o olhar e a comida pra matar (todos os tipos de) fome de criança.

Chega uma hora, enfim, que essa esperança equilibrista quase cai, e a gente sente que o 'sim' é que não vamos ouvir mais...

...mas é porque nós é que não somos mais crianças, a ponto de não mais sentir a dança que não é a da solidão, mas a que diz que basta usar o coração pra se entender que viver é sentimento, e não é pra ser descontentamento.

"De graça, o povo não quer mais injeção na testa. Cansou de ser testado, pisoteado e humilhado. Sabe que não é a cabeça de um que comanda a vingança contra muitos."

E aí eu acordei.

Tuesday, February 21, 2006

Um a menos

Acho que foi em algum filme. Ou livro. Sempre que o pai terminava de fazer a barba, ele dizia 'uma a menos'.
Imagina só. A filosofia.
Sempre que acordar, um a menos.
Sempre que for dormir, um a menos.
Sempre que beijar, um a menos.
Sempre que se decepcionar, uma a menos.
Sempre que...
Imagina só.

Nem um fio de cabelo. A mais. Ou a menos.

Nem um choro na madrugada.
Nem uma confusão entre as vidraças do carro em dia de chuva e seus olhos
(é o vidro embaçado!)
Nem uma mão sobre o seu ombro com a força certa pra te manter perto do chão
(eu disse perto. Porque se voa, ah, como se voa ao som dos não-metais)
Nem um 'olá' a mais.

Ou a menos.



(eu, hein!)

Tuesday, January 31, 2006

Repeteco

Sentir o contato com o nada, ou com o tudo; sentir uma onda quente vindo de dento de mim pra mim mesma. Não nadar contra a corrente só pra provar pra todo mundo que eu não preciso provar nada pra ninguém.

De repente estar num barco tornou-se tão mais agradável... E ir onde o vento me levar não é mais indício de desespero. Apesar que desespero nunca foi; nunca nem te disse que fora de olhos tão abertos. Sei que assim falando pensam que essa confusão é moda em 2006, mas eu quero mesmo é correr e abraçar e beijar todos vocês.

"Quando vejo o mar
existe algo que diz
que a vida continua
e se entregar é uma bobagem"
Legião Urbana