Monday, February 05, 2007

C.R.A.Z.Y. diamond, shine on

“This is Major Tom to Ground Control.
I'm stepping through the door,
and I'm floating in a most peculiar way.
And the stars look very different today.”

A coragem de olhar o mundo sob outro ponto de vista, expressa especialmente nesse trecho de “Space Oddity”, de David Bowie, é um dos assuntos predominantes em “C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor”, de Jean-Marc Vallée. Zachary Beaulieu, quando dubla o clássico de Bowie – em fase Ziggy Stardust, no auge dos anos 1970 – vestido e maquiado como tal, escancara-se ao mundo – ou ao menos à sua vizinhança – por ter deixado aberta a janela do quarto, palco principal das epifanias adolescentes.
O garoto é o sétimo filho da família Bealieu, mas tem quatro irmãos – três foram abortados. E de acordo com as superstições canadenses – que têm suas correspondentes na cultura brasileira, como o mito bem divulgado em histórias do Chico Bento, de Maurício de Souza, de que o sétimo filho tende a tornar-se lobisomem –, sua mãe acredita que ele tem um dom. Soma-se a isso o nascimento do menino no dia 25 de dezembro e sua capacidade de acalmar o choro dos bebês com cólicas quando os segura.
Nascer no Natal é experiência traumática para as crianças, desde cedo imersas na lógica capitalista: é o fim do mundo receber apenas um presente no combo “Natal+aniversário” enquanto todos os amigos recebem dois ao longo do ano. Como se não bastasse, não é permitido a um menino ganhar um carrinho de bonecas. Pergunta-se a uma menina porque ela ganha bonecas, e não bola de futebol. Ela responde, naturalizando: “Porque eu gosto de bonecas. E bola é coisa de menino.” E ela não deve gostar de “coisas de menino”. Poda-se o interesse genuíno e inocente de menino por bonecas. No filme, o pai de Zac tenta contornar a situação, dando-lhe de presente uma vitrola, um banjo, uma bateria... E vê-se formada a banda completa antes mesmo do garoto completar dez anos de idade.
Conforme cresce, Zac vive um romance com uma amiga, para tentar enquadrar-se ao permitido e fugir de seus desejos por “coisas de meninas”. A homossexualidade do rapaz é percebida, mas não aceita pela família – principalmente pelo pai. O orgulho viril masculino de ter concebido cinco filhos homens não pode ser atacado nem desconstruído dessa maneira. A dependência química de Raymond, irmão mais velho de Zac, é mais facilmente aceita pelo pai do que o desonroso filho homossexual.
“Há dois tabus aqui em casa. Eu e Raymond.”, diz Zachary. Poderia ter dito: “as drogas e a homossexualidade”, mas ao personificar e, conseqüentemente, fundir o tabu às respectivas personas estampa um significado de irreversilibidade e aceitação dos fatos e características intrínsecas aos dois. Caberia, então, a todos, lidarem com o que não tem remédio.
A relação do menino com a mãe também é emblemática, e caricatura as mães compreensivas e mediadoras dos conflitos domésticos. O filme ultrapassa o lugar-comum de famílias de classe média e suas crises burguesas quando Zac, num ímpeto, vai para Jerusalém buscando uma espécie de retiro e compreensão de si mesmo. Mas a escolha do lugar para a viagem é fruto de influência direta da mãe, católica fervorosa, que sonhava em conhecer a terra santa. É nessa terra santa, enfim, onde Zac vive uma paixão homossexual e se entrega – com o perdão do trocadilho – aos pecados da carne. Agoniado, telefona para a mãe. Ela sabe que é o filho ao telefone, bem como sabe da inquietude do menino, como bem o sabem sempre, as mães. Segue-se uma das mais belas cenas, quando Zac, descoberto, por fim, deixa o quarto e, no amanhecer, vislumbramos um corpo masculino, por fim, semi-coberto espreguiçando em sua cama.
O diretor consegue, ainda, transmitir beleza original e espontânea a cada cena. O figurino, os carros, o Canadá dos anos 1970, a capa de “The dark side os the moon”, álbum clássico pink floydiano desenhada na parede do quarto de Zac e a trilha sonora também composta de clássicos de Rolling Stones e dos já citados Bowie e Floyd são expressões muito bem desenvolvidas do momento histórico.

Saturday, January 13, 2007

O alumbramento do olhar para TV num domingo

Ah, eu te amo, e como amo, se é que amo alguém, amo tanto, e acho que de amor me explodo, explodirei, enfim, com você perto de mim e nossas bocas e coxas e mãos e sentidos, nossas peles, o ar, a expiração, a inspiração, a respiração, o trabalho, o cansaço, a lua, a lua, a lua!, suas mãos, pequenas, sobre as minhas, sua arrogância e meu olhar de desprezo, minha força, meu domínio, sua subjugação, nossa prepotência. Nossas cores, nossos gostos, nossos gozos e os alheios. Os medos e os receios, os remorsos e os anseios. As noites claras, os dias fugazes, a cama, a lama, o caos, o chão, o corpo, o entulho, o escuro, a paixão. Minha alma resplandece, seu olhar te denuncia, nos rendemos, enfim, ao que já sabíamos, e não temíamos, apenas jogávamos e nunca havia um vencedor. Não há perdedor em nosso jogo, há dominação e amor e prepotência e paciência. E há, e falta, e falta reconhecimento. Pois do sereno nasce a flor, é como um cais ao pôr-do-sol preocupado com os navios que não atracam. E se atracamos, não nos atraquemos mais; o calor que não pode esperar, o olhar aflito e as mãos trêmulas de ansiedade perante o porvir - e o pôr-do-sol, onde é que estava, de onde veio? Não importa o tamanho das ondas ou das ondulações, oscilações, exageros; o que importa são seus dedos pelos cachos dos meus cabelos. É pra me fazer sentir o ali, o instante do ali, de nós, entregues, sem tempo, espaço, pudor, moral, rejeição, recolhimento, traição, competição. Somos nós. Sou eu. É você. Sou você. E os que virão depois de nós.

Monday, January 08, 2007

A internet e o espetáculo (parte I)

A Internet é o mais contemporâneo paradoxo. É, simultaneamente, o lugar onde muitas pessoas sentem-se incrivelmente à vontade, e um permanente não-lugar – a partir daí, torna-se ponto de não-retorno. Talvez pela intimidade e hospitalidade, por um lado, da rede poder fazer sentir(-se/lhe), seja despertado o sentimento – ou o sentido – de liberdade individual inalienável e quase que incondicional. Talvez por estarem no conforto de seus lares e protegidas por uma membrana (in)transparente, as pessoas – ou melhor, os internautas – sintam-se tão à vontade para mostrarem-se nus perante seus companheiros – e a intenção da frase era metafórica, mas o literal também se a carapuça serviu... A questão é se se mostram de fato, inteiros, íntegros e intrínsecos àquilo que são, ou se criam personas, personagens e facetas, inspirados em seus melhores, piores ou (im)possíveis.
Pois bem, o buraco é muito mais embaixo. Caímos no relativismo da discussão sobre o ser. Eu, particularmente, acredito que não somos; estamos. E, por estarmos, somos quase que polivalentes, ou multifacetados, ou divisíveis. É o constante estado de estar o responsável pela instabilidade de muitas mentes internéticas e perfis de orkut – vide os constantes ‘orkuticídios’ cometidos. Entretanto, a discussão entre o ser e o estar é convergente se comparada à já também exaustivamente discutida questão de regressão – à medida que desenvolvemo-nos – entre o ser/estar e o ter.
Li ontem na folha Mais! Um excelente artigo no qual o autor aprofunda essa digressão e faz-nos (de)cair: hoje, em nossa ocidentalóide sociedade, o que impera não é mais sequer o ter: é o parecer. Nesse sentido, completamos nosso esquema e a Internet torna-se extremamente lógica: é lá que criaremos nossas diferentes personas, é para lá que transportaremos nossas frustrações e as dividiremos e acharemos graça. É na Internet que as pessoas fogem da solidão e se masturbam simultaneamente diante de uma webcam. É lá que preconceitos nazistas, racistas e homofóbicos se espalham. Talvez a criatura tenha vencido o criador e, de fato, o homem tenha tornado escravo de seu caráter patético, o qual é devastadoramente inflado pela Internet.
Guy Debord escreveu, em 1992, um livro fascinante chamado “A sociedade do espetáculo”, no qual teoriza que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”, e explica: “do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também armas para o reforço constante das condições de isolamento das “multidões solitárias”. Pá-bum: a internet, o espetáculo.

Wednesday, October 04, 2006

Tilin

Sinto o véu caindo.
Tenho dúvidas se cai pela física,
metafísica
ou patafísica.

Se alguém o puxa,
se eu me desvencilho,
se vários o puxam,
se é o vento que venta que o faz deslizar.

Se eu me seguro,
seguro
ou se pulo.
No quase -
No escuro.

Monday, September 25, 2006

O mar e o sertão. Ou amar Lisbela.

Dizer que é amor às vezes é significante.
Às vezes, não.
Pode corresponder a dizer 'bom dia', e isso não precisa ser, necessariamente, coisa de tia. Ou coisa de quem mente. Ou exagera o sentimento, ou o que tem em mente.
Pode sentir que ama e não dizer, pode amar o sentir e não dizer! Porque a partir do momento em que diz e personifica, puf! a palavra vira pessoa e Pessoa que é amor é rara de encontrar. Pode atá existir várias Pessoas, mas algumas nem amam. Outras se amam. Outras ignoram.
Enfim, o dizer é por vezes desnecessário.

Parodiando o príncipe (muito estudado por mim nesse semestre!), o essencial é inexistente nas palavras.

Saturday, September 09, 2006

Roda viva

Tem dias em que tudo faz sentido e a gente, felizmente, se sente contente. Como se a nuvem negra nos deixasse, ou até nos acalmasse, quiçá fizesse parte da parte que agora existe.
Nesses dias, tudo basta. Tudo completa, ou se completa.
Eucompletovocê.

Friday, August 25, 2006

A borboleta voou (como na cena do Patch Adams)

Shakespeare disse, já, que somos feitas das mesmas matérias de nossos sonhos.
Será que se a gente tiver um sonho bem denso e passível de realidade, a efemeridade da nossa vida diminui?

Efêmera assim, a vida.
Praticamente se desmancha no ar.

E quando você percebe que não vai mais poder conversar futilidades e amenidades com alguém, já é tarde demais pra ter vontade de fazer com que a pessoa sinta-se bem e saiba o carinho que vc tem por ela. Será?

Ainda assim, eu não compreendo. E ainda acho que é uma pena, e é triste.
Só espero que ela pense o contrário e esteja melhor agora.

Wednesday, August 23, 2006

As estrelas observavam a menina, estarrecidas. Jamais outro ser tão etéreo as tinha chamado tanto a atenção. A menina Luzia, encantada com sua sombra provocada pelo luar, sorria embevecida em seu mundo recém-descoberto. Sua sombra sempre parecera atônita e alheia a tudo, o que por vezes chateara a menina. Mas agora descobrira o motivo disso tudo: ninguém nunca tinha ensinado a ela, pobre criatura das trevas, as expressões. Não sabia o que fazer para expressar felicidade ou tristeza. Luzia compreendera, e agora pensava uma técnica para ensinar sua sombra a se expressar.

[Ela está pensando.]

Saturday, June 24, 2006

A vida inteira que podia ter sido e que não foi

E depois de tanto sofrer, quem adivinhar ganha um doce.
É, perdi.
(batata)
Logo ele.
Logo eu.
Pra nunca mais.
E saudade entra e faz morada no meu peito.
Saudade do que podia ter sido e que não foi.

Sunday, May 28, 2006

A chuva que (não) limpa

Deixa eu brincar de inventar, eu não consigo mais olhar pras gotas na janela a escorrer.
E nem adianta a brincadeira, eu sei que a tarde inteira eu vou pensar em você.

De repente na janela, as gotas verde-e-amarelas se fundem e me confundem, e delas eu vejo uma flor.
E vejo que foram meus olhos criadores da confusão:
As lágrimas me deixaram, do verde-amerelo a desbotar, criar a flor - da ilusão.

Monday, April 17, 2006

Dá licença, seu moço, que a poesia vai passar.

Minha tia uma vez me disse que não lia mais jornal, porque quando o fazia, sentia que morria um pouquinho dela a cada dia.

Já me senti assim também, no vai-e-vem das marmeladas políticas e das fotos peladas das crianças raquíticas morrendo de fome enquanto dizem 'amém'.

Amém pra uma promessa qualquer, porque quando não se tem esperança o jeito é entrar na dança e tentar pôr na balança o sonho, o olhar e a comida pra matar (todos os tipos de) fome de criança.

Chega uma hora, enfim, que essa esperança equilibrista quase cai, e a gente sente que o 'sim' é que não vamos ouvir mais...

...mas é porque nós é que não somos mais crianças, a ponto de não mais sentir a dança que não é a da solidão, mas a que diz que basta usar o coração pra se entender que viver é sentimento, e não é pra ser descontentamento.

"De graça, o povo não quer mais injeção na testa. Cansou de ser testado, pisoteado e humilhado. Sabe que não é a cabeça de um que comanda a vingança contra muitos."

E aí eu acordei.

Tuesday, February 21, 2006

Um a menos

Acho que foi em algum filme. Ou livro. Sempre que o pai terminava de fazer a barba, ele dizia 'uma a menos'.
Imagina só. A filosofia.
Sempre que acordar, um a menos.
Sempre que for dormir, um a menos.
Sempre que beijar, um a menos.
Sempre que se decepcionar, uma a menos.
Sempre que...
Imagina só.

Nem um fio de cabelo. A mais. Ou a menos.

Nem um choro na madrugada.
Nem uma confusão entre as vidraças do carro em dia de chuva e seus olhos
(é o vidro embaçado!)
Nem uma mão sobre o seu ombro com a força certa pra te manter perto do chão
(eu disse perto. Porque se voa, ah, como se voa ao som dos não-metais)
Nem um 'olá' a mais.

Ou a menos.



(eu, hein!)

Tuesday, January 31, 2006

Repeteco

Sentir o contato com o nada, ou com o tudo; sentir uma onda quente vindo de dento de mim pra mim mesma. Não nadar contra a corrente só pra provar pra todo mundo que eu não preciso provar nada pra ninguém.

De repente estar num barco tornou-se tão mais agradável... E ir onde o vento me levar não é mais indício de desespero. Apesar que desespero nunca foi; nunca nem te disse que fora de olhos tão abertos. Sei que assim falando pensam que essa confusão é moda em 2006, mas eu quero mesmo é correr e abraçar e beijar todos vocês.

"Quando vejo o mar
existe algo que diz
que a vida continua
e se entregar é uma bobagem"
Legião Urbana

Tuesday, December 27, 2005

Sereníssima


Felicidade.
É o que permeia minha mente, meus momentos e pensamentos.
Parece um campo, como uma aura estendida, ao meu redor.
É o que o famigerado fim de ano faz comigo.
Sempre.
E eu gosto.


"Ela pensa em casamento
e eu nunca mais fui à escola.
(...)
Eu tomo uma coca-cola
e ela pensa em casamento!"


(Pra quem pensou que teria algo mais profundo, sinto se não vê a profundidade nas coisas mais vãs e humanas - ou quem sabe essenciais e quase que divinas. Divinamente humanas. Essencialmente vãs. E assim por diante. )

Tuesday, December 06, 2005

Maria Rita, 'juízo e Carnaval'


"Pronto
Agora que voltou tudo ao normal
Talvez você consiga ser menos rei
e um pouco mais real"

Foi assim que começou, e eu sentia meu coração acelerar.
A cada nota mais escancarada eu arrepiei.

Meus olhos marejavam quando ela dizia que queria ver o pai. E quando pedia pros olhos da morena bonita esperarem, que ela estava chegando já. (E eu acredito que estava, mesmo).
Gostou (e gostei) da ciranda que fizeram, pro mal virar pro bem e pro não virar pro sim.

Meus pés passaram a ter vida própria, principalmente quando ela dizia pr'eu abrir meus armários, que ela estava a me esperar e que queria fazer da nossa voz uma só nota.
Mas ficaram mais independentes ainda quando ela se descabelava, indagando se tinha sido só amor ou medo de ficar sozinho outra vez. Eu também bradava dizendo que a chuva já tinha passado, e eu mesma tinha cuidado de secar.

Disse que era de canto que iria chegar. Mas ela já tinha chegado (de canto, com canto, no canto, é verdade, mas já tinha, oras!). E nem precisou cantar seu encanto pra me encantar; eu me encantei com tudo e com qualquer coisa sobre ela.

Foi embora. Mas depois voltou pra rir de alguém que não era de nada e vivia de cara amarrada, e perguntar onde é que estava o amor dela.
Foi de vez.

É que a noite chegara fazendo frio.

(E ainda bem que não me deixaram sentada na poltrona no domingo seguinte.)

Friday, November 25, 2005

... e se eu dissesse que sim, que sempre fora você, você voltava e me segurava e me abraçava e me protegia? e a gente agora era feliz e agora tinha um gato e um cachorro e um papagaio mas o papagaio tinha vergonha de falar na nossa frente, mas repetia tudo pra quem quisesse ouvir e aí o gato comeu o peixe do vizinho e agora a gente era bandido mas nada estava totalmente perdido, a gente só tinha que fechar os olhos e fazer um pedido praquela estrela que brilhava forte no céu, e agora a gente era juntos um só, mas eu cansei e agora a estrela trouxe a gente de volta pro que a gente nunca fora, e agora não tinha mais bandido, apesar de nunca ter tido, mas também não tinha mais o mocinho nem a noiva do caubói, e tudo ficou cinza demais, e apesar de cinza ser a sua cor favorita eu precisava de um pouco de lilás e azul e agora a gente tinha ido morar com os smurfs, mas eles expulsaram a gente e agora a gente num tem pra onde ir, e a estrela aparece de novo e de novo a gente faz um pedido, pensado e que no fundo era reprimido, e você que pede pra eu te abraçar, dizendo que meninos não choram,e eu digo que eles choram, e oram, e você fica em silêncio olhando com aqueles olhos azuis pras estrelas refletindo o mar refletido nelas, e agora o sol nasceu e a gente morreu pra nascer com ele, e assim a gente era agora a gente juntos de novo, e a vida deu um nó mas a gente segurou as pontas.

[it has always been you]

Revendo conceitos

Nem isso, nem aquilo,
Cecília.
Que hoje é tudo-ao-mesmo-tempo-agora.

Saturday, September 24, 2005

Agradecimento à Internet

Uma das pessoas
mais interessantes,
que melhor me conhece
que eu gosto muito (muito mesmo)
conheci pela internet.

Há males que vêm pra bem.

Sunday, August 07, 2005

Manuel Bandeira

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare


— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Woody Allen

"Trabalho é uma ilusão de que a existência tem algum propósito. Sexo é a ilusão de continuedade".

('Igual a Tudo na Vida')