Tuesday, August 07, 2012

do gesto cheio

para t.
sua palma da mão sobre as vestes da minha coxa esquerda
tem o peso exato do quarto
movimento da nona sinfonia de dvorak:
faz-me sentir viva.

Sunday, August 05, 2012

[quando eu morrer]


quando eu morrer
jamais plantem flores na terra sobre mim

não me dêem lápide sepultura não encravem
minhas datas em pedra nenhuma
deixem-me
ao léu

meu epitáfio será dente-de-leão
como praga
espalhando-se na terra.

Tuesday, July 17, 2012

morte encapsula tudo

cemitério faz que rima
mas não rima com velório.
rima com impropério, despautério, deletério

e contrariando normas
e tudo que me dizem de sério

tento fazer velório rimar
com o som do meu coração
esfacelado, em desespero

que espero transpareça quando rio.

Monday, May 14, 2012

carinho no rosto


quero a tua mudez
teu riso leve e frouxo
e as plantas que insistes aguar todas as manhãs.
quero as manhãs mornas ao seu lado
com pouco ou nenhum som.

quero teus cadernos preferidos do jornal
tua escova de dentes no banheiro
e teus fios de cabelo no chão.

não te quero perto senão quando te quero
pouco mais que três vezes na semana
quando te quero plena, inteira e entregue
sob a luz da janela que escolheres.

notívaga

parte da noite
toda ternura recebida
parte em ti meu desejo
parte da noite volúpia
parte sono da noite em fuga
parte teu olhar sobre mim
parte da noite sagaz
teu corpo em tato
que jaz
todo outro sentido
parte da noite
deixa vestígios
parte da noite calor
e não durmo
não dormimos
sei que não dormes
parte da noite sufoca
teu corpo quando lembrança
parte da noite me arranca
suspiro, suspiros e parte
parte da noite é dureza
quando da noite fugaz
parte tudo quanto toco
na noite parte da noite
meu amor,
meu amor, parte
da noite, meu amor.

Tuesday, April 24, 2012

sobre linhas I


peço-te que imagine uma linha.
imagine o diâmetro exato de seu fio
e se existe ou não um buraco possível de agulha para se fazer travessia.

imagine sua cor, nuançada entre um tom de céu ou areia
ou talvez nenhum desses mas aproximadas cores de lembrança
ou precisas e irresolutas, inelutáveis cores de sonho
quando num continuum diálogo de vigília e só se sabe sonho porque
não sentes dor
o absurdo denuncia
o despertar deixa a dúvida e portanto: sonho

peço-te que então imagine de que é feita essa linha.
se do mais comum material encontrado na natureza
encapsulado e doravante produzido
em fábricas por homens comuns
em vilas por eco-propostas
e consumido como requinte;
se de um raro material;
quão denso;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se num emendo artesanal;
mais ou menos longo;
se sob intervenção infantil multicolorida e dura (pintada com guache) [e esgarçada (do contato com as unhas);
quão maleável.

não me diga nada dessa linha e não a tente reproduzir.
essa linha é o que te é e não me é possível compreendê-la ou imaginá-[la.

podemos, contudo, tomar aulas de arte
e aprender teorias contemporâneas e estudar produções de [assemblage
estudar construção de esgoto e sustentação de casa (é claro que a [linha pode vingar)
enforcar um inimigo
dançar melodias e bater palmas ritmadas
saltar do ônibus no ponto errado
suar a camisa ao passar por alfândegas
cozinhar massas acompanhadas de peixe fresco
colecionar rótulos de importados e pedras não-lapidadas
arriscar um lançamento de pedra e receber bombas que nos fazem [correr
tirar roupas do varal
tamborilar na espera

e fazer, no descanso, ponto-cruz.

Monday, April 23, 2012

à parte as objeções


meu tempo é o abafado das caixas de sapato
de bico-fino sob outras caixas tantas
que se logra abrir com cuidado
em tardes amenas,
antevésperas de grandes eventos.

meu tempo é o embaçado desigual da vidraça do banco de trás
quando as crianças fazem apostas mentais sobre a corrida das gotas de chuva
e desenham até onde a mão alcança
repetidas sempre vezes
e a gordura se encrusta.

meu tempo é o encurvado de uma persiana
da janela central de uma pequena casa
onde por apreço à claridade essa persiana não tem uso
e seus cantos suspensos sustentam
o bicho todo, envergado em simetria.

meu tempo podem ser coleções comuns
como vinis empoeirados,
promoções de salgadinho,
pontas de lápis, papéis.

desde que tão bem-guardadas,
lembresquecidas
como os entres, os desiguais, os desusos,
em que a sutileza impera e desarma mas
pungentes que são, não perdoam.

de uma noite de abril

ela ri como deve dançar (suponho): cheia de si.
a ela desfio teoremas de vida que arremata, tenaz:
“nega acertos de uma vida tão dual!”

liquefaz meus misterinhos e me esbofeteia a cara;
me ensina: tampouco é original acreditar no erro;
rebato com meu silêncio clamando por um carinho

desponta cumplicidade e extravasa e finjo
desperceber o esboço de nós;
é croqui, desenho atravancado.

Monday, April 16, 2012

'sampa'

só me aconselham a sair dessa cidade
eu finco o pé e finjo não te ter saudade
digo que o certo é vaguear enquanto posso
e a multidão me acalenta

e digo e volto pro calor do teu regaço
na pouca fé restante nessa parceria
no sono meu desejo errante se vicia
e a prontidão me atormenta

e te assemelhas em virtude injuriada
à retidão da fumaça que me alimenta
e é por isso que vagueio e só tropeço
na mansidão que alardeia enquanto arde

ps: essa é uma letra de música que fiz pra uma amiga musicar!

Tuesday, April 10, 2012

(sem título)

detesto acordar e ver seus cabelos brancos.
detesto porque me lembram:
tempo é resoluto e impiedoso
não fui ensinada
velórios
amores
auroras

detesto seus cabelos brancos
dizem
coração despedaçado não se cura
até o fim há novidade
(desespera-me)
nada permanece

e é por isso
que durmo tanto pelas manhãs.

seus cabelos dizem cabelos brancos
e ainda não sei dizer que te amo.

Friday, March 02, 2012

azulejo

azulejo é um céu longínquo,
é o pássaro que ri no gorjeio hábil.
pode ser apelido carinhoso de banzo
vermelho, preto,
negro, índio,

azulejo é rastro e cheio
da incertitude é mestre.

azulejo reina com mastro e véu
e é café num copo sujo.
é sempre sempre intimidade
e também por isso sufoca:
azulejo encrustra.

azulejo pode ser
carrinho de bebê ao sol,
meneio de namorada
e seu sabor quando lento.

azulejo é todo-somente sublime
corpo em profunda terra
ou não é.

Sunday, February 12, 2012

da fruição


durmo, acordo e
te beijo
nessa ordem:
em fogo e paina
a vida flui.

não sonho e não
se inundam meus olhos quando
te sinto os lábios nos meus:
em febre e letargia
a vida paira.
em café, sons, pudores.
acordo em sebo e não é teu corpo
não é teu corpo em meu tato e
sei numa virada brusca:
é
afogar e logo
a vida plana.

movimento-me
por me saber tua
numa desordem qualquer
logro-te um afago:
a vida flui.

Tuesday, February 07, 2012

da vida gentil: segundos de menino na rua

o menino de uniforme escolar pergunta por que o violinista toca na rua; o pequeno corpo do menino conduzido pela mãe com precisão, o pescoço insistindo na direção do estridente que inundava também os meus ouvidos. páram no cruzamento.
- para ganhar dinheiro, responde a mãe.
o menino aceita: é desfeito o absurdo do cenário. há motivo e razão e, dessa feita, harmonia. ele atenta ao semáforo de pedestres e prepara o corpo para o impulso. atravessará à minha frente quando da luz verde, segurando obstinado sua mochila de rodinhas.

Friday, December 30, 2011

descompasso

ele sempre foi delicadíssimo
e praticante de triathlon
numa prova ousada
jogou-se de helicóptero mais de uma vez
caiu no mar em pose de cinema: junto com o outro
que, braços em concha, o preparava para recebê-lo
e eu soube em sonho que se receberam, na lentidão do sob a água
emergiram e continuaram

e como sempre é quando
quebra-se o ritmo quando
não se reconhece a mudança do em-torno
quando emergiram e continuaram
machucaram calcanhares

Sunday, November 27, 2011

breve ensaio sobre as estações (iii)

outono

não se sabe que é outono olhando pro céu; no outono a gente olha pra dentro como quem olha pro chão pra não tropeçar. não tem encontro, não tem susto, não tem paixão. outono é vento e vento e vento e tempo do prazer de pisar em folhas secas. é vernal o prazer fugidio e sutil porque suspenso e portanto enganador: transmutar volatilidade em permanência não é justo. e por isso a ventania.

expiração

'qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura'.
guimarães rosa

é no seu abraço que eu sou um pouquinho mais sã,
quando sinto sua pele dar alento à loucura.
é seu corpo todo que me benze, me dá febre curadoura
e me restaura em graça, riso e paz.
é seu sorriso que me oferece mais
confiança no mundo que ancora
minha coragem rainha,
descoberta e fugidia
num tempo de soluço
é no seu braço meu reino destemido,

e em fé e força esgarço, sem pudor nem ranço de cansaço,
a bainha da sua roupa em que cravo
minh'alma e minhas unhas, quando no seu abraço.

Saturday, November 05, 2011

benvinda

o que denuncia um novo amor não é um novo orgasmo (isso é transa casual), um novo velho mesmo jeito de atender ao telefone (pode ser timidez), nem as tão batidas borboletas no estômago (é claro que las hay, pero desde a pré-escola). o que denuncia um novo amor é aprender um novo jeito, o jeito dela, de arrumar a cama. e tomar gosto. e zelar pela cama arrumada, vez ou outra, antes de sair.

olavo bilac

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e alma de sonhos povoada eu tinha.

E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida,
nem o pranto os teus olhos humedece,
nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.

Thursday, October 13, 2011

um dia

meu amor, eu quero ao seu lado
um dia amarelo
um dia desses em que a luz do sol já nos amanhece amarela
e logo em seguida o prédio que espio da janela se amarela
amarelo é o menino que grita sob a mangueira
e as águas que ela esguicha só refletem douradas o amarelo
e é assim um dia de carinho confortável
o amarelo que acarinha as plantas do parapeito da sua janela
que tombam e se esticam e esgueiram todas pra espiar
essa sua toda luz que também estica ressoa e escorre
e preenche de amarelo meus olhos fechados e minha rouquidão
é amarela minha ausência de voz
qualquer movimento doce e cheio da mais sincereza possível
é inteiro amarelo um dia assim
que, infindo, não tem meio nem duração:
suspende-se e fica pelo tempo que for.

Monday, August 08, 2011

mourning

enquanto ouço confissões a olhos brilhantes
de sonhos reveladores
transbordantes d'alento
fico eu cá com minh'aflição:
sonho elefantes rajados de rosa
que esguicham água em silêncio
e nem sei se me respingo;
não porque acordo, mas porque decorre
sono pesado e sem sonhos,
e nada recordo ao amanhecer.