Friday, August 31, 2007

que pousou na sopa

A sua mesquinharia se faz sentir em mim. Seu anti-desejo de não perceber quão terrível é a queda. Meu medo de machucar ao ver o chão mais de perto se desfez; somos dois bebês encantados com o mundo exterior que de nós se separa instante por instante – já. Por mais que a gente se machuque, se estrepe, se foda. A gente tem esperança. E sonha. A sua presença me mutila, e não me abandona. Meu medo se desfez; o que a gente quer é a intensidade. Ai de quem não rasga o coração.



Quem sou eu pra falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim.
Chico, aquele lá, sempre, claro, o Buarque de Hollanda.

ac(l)ariceando(-te)

Eu lutava porque não queria uma alegria desconhecida. Ela seria tão proibida pela minha futura salvação quanto o bicho proibido que foi chamado de imundo - e eu abria e fechava a boca em tortura para pedir socorro, pois então ainda não me havia ocorrido inventar esta mão que agora inventei para segurar a minha. No meu medo de ontem eu estava sozinha, e queria pedir socorro contra a minha primeira desumanização.
A desumanização é tão dolorosa como perder tudo, como perder tudo, meu amor. eu abria e fechava a boca para pedir socorro mas não podia nem sabia articular.
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.

Saturday, August 25, 2007

"...e a gente pagou pra ver"

Que seja.
Estou farta de racionalizações que me impõem incondicionalmente. Estou farta de reproduzir racionalizações. De agora em diante, o meu horizontalizar não me preocupa mais; se há condição humana, que seja... Que seja a que nos faz ficar.
Se for pra comparações baratas, te digo da chuva de verão. Ou do arco-íris que vem depois dela. Deliciosos assim, displicentes assim.
Não quero me fazer entender, quero ouvir suas palavras bonitas, e quero nelas acreditar. Quero a sua sinceridade, seus olhos esbanjando descobertas, sua ansiedade, meus-nossos anseios e uma novidade com cheiro de armário, ou de alecrim, que me enche toda - a partir de você. Quero nós como sujeitos não-platafórmicos, reais, líricos, ingênuos - porquê não? - e sonhadores.
Que venha.

Tuesday, July 17, 2007

Catando a poesia que entornas no chão

Se, para além de manter-nos, os sonhos nos desenham possibilidades a serem vasculhadas, e, bolhas de sabão que são, a nos rodopiar nos confundem, o que resta é entrar na roda de dança. Cirandear, como crianças. Perguntar, com a esperança de ser ouvido e a crença na resposta, a construir verdades imaginadas, roubadas e desvendadas. Vendavais desconseguem assustar àqueles que têm suas certezas amparadas em bases frágeis não-fixadas; pode-se começar por qualquer canto onde haja uma restinha de sol. De sol. Bom dia.

Saturday, July 14, 2007

Da liberdade

Vivemos numa sociedade onde, apesar de marcados traços nacionalistas e forte propaganda nacional de enaltecer a auto-imagem do brasileiro, somos migrantes. Desde o simples trajeto diário casa-trabalho-casa até as excepcionais viagens de férias em família, ou viagens ao exterior para negócios; nos deslocamos para cumprir nossos papéis na sociedade – os quais se transformam de acordo com os locais de destino. Assim, o pai de família é o empresário bem-sucedido, o patrão autoritário e o sobrinho inconveniente. O trabalhador pobre é pai de família, empregado explorado e ajudante de pedreiro nas horas vagas. A filha mais velha é a neta favorita, a melhor aluna na escola e uma turista aspirante à jornalista nas praias do Nordeste, em janeiro.

Ironicamente, a geração dos anos 90 é tida como a “geração dos filhos de pais liberais” (liberais no sentido de não-autoritários, flexíveis e compreensivos), mas é a todo momento condicionada – por normas na maioria das vezes não-ditas, mas que pairam na sociedade. O espaço geográfico comporta peculiaridades, as quais nos impelem a cumprir os papéis exigidos por determinados ambientes e situações. Mas e quando estamos no ato de migrar? Os jovens, por exemplo, de classe média, alta e baixa, passam muito tempo no caminho de casa para a escola ou para o trabalho. Seja no ônibus, no carro ou à pé. Será que nesses momentos, são destituídos de qualquer papel social?

Alguns antropólogos caracterizam os meios de transporte e os caminhos por não-lugares. Mas e se passamos boa parte de nossos dias nesses não-lugares, passamos o dia sendo “ninguém”? Penso que não; afinal, se o espaço geográfico é importante, ele não é característica sine qua non para se formar uma identidade. Os diferentes papéis sociais que um indivíduo cumpre se entrelaçam e se co-determinam.
Além disso, se o não-lugar nos torna caminho diário e é incorporado à nossa rotina, passa a fazer parte de nossa vida e nos influencia e vice-versa. Quanto de nós pertence a um lugar, é reflexo do lugar, e vice-versa?

Entretanto, quando estamos na situação não-rotineira de migrantes, somos destituídos de laços consistentes; não estamos mais ligados ao lugar de onde saímos nem, ainda, ao destino. Experimentamos, assim, uma sensação de liberdade para criar quaisquer personas e assumir quaisquer papéis que se deseja. E nos atinge a problemática: “livre para fazer o quê?”.

Inseridos numa lógica segundo a qual tudo se transforma a tende à mercantilização e tem sua importância de acordo com sua finalidade – ainda que esta seja falseada para o hedonismo –, reproduzimos a lógica da busca pela necessidade de consumo da liberdade. Procuramos dar sentido; a liberdade não pode simplesmente ser condição para o homem ser homem, para o homem realizar plenamente suas faculdades, emancipar-se e ter consciência de si. Não. A liberdade é mais um bem consumido, e desprezado se não é nele encontrado sentido palpável, material e imediato. Não se pergunta mais o porquê da liberdade; mas para quê a liberdade. E essa inversão deve ser revertida, para a liberdade, enfim, poder constar em nosso ser.

Sunday, June 24, 2007

A noite desceu.
Que noite! Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes
cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio.
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave,
as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência,
um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce,
de tão necessário para colorir
tuas pálidas faces, aurora.


Drummond

Friday, June 22, 2007

A inversão dos números

A redução do número de professores e o aumento do número de estudantes exemplificam a política do governo estadual de redução dos investimentos na educação e os prejuízos para o ensino superior paulista.

A universidade pública, para a maioria dos jovens, tornou-se apenas um mito. A má qualidade da educação oferecida pelo governo para o ensino básico e médio e o fortalecimento das escolas e cursinhos privados não contribuem para a democratização do acesso à universidade pública. Soma-se a isto o contexto de competição expresso pelas regras do vestibular e o fato de 71% dos estudantes universitários estarem em instituições privadas.

Esta política de estímulo à privatização da educação é impulsionada desde a década de 90 por sucessivos governos neoliberais (Collor, Fernando Henrique e Lula da Silva em âmbito federal; além dos sucessivos mandatos estaduais do PSDB em São Paulo, por exemplo). É característica deste programa político a transformação da educação, que é – ou deveria ser, de acordo com a Constituição federal (art.205) – direito (obrigação do Estado para com toda a população) em serviço (passível de negociação, compra e venda, em esfera civil e individual). Esta política é um entrave à universalização do ensino superior público, gratuito e de qualidade.

Diante deste quadro de desmonte do sistema educacional público, neste ano se fortaleceu o processo de mobilização de estudantes, funcionários e professores contra estas políticas privatistas, e em São Paulo a greve de estudantes e funcionários persiste nas três universidades estaduais (USP, UNESP e UNICAMP). O estopim da crise foram os decretos do governador José Serra, que versam contra a manutenção da autonomia universitária financeira, administrativa e didático-científica; institucionalizam a separação entre ensino e pesquisa e entre trabalho intelectual e técnico, e submetem (quando não desprezam) a extensão – que, juntamente com o ensino e a pesquisa, forma o tripé funcional da universidade – a interesses privados. Com o Decreto Declaratório nº 1, fruto da forte mobilização popular, o governador mostra um recuo; porém o caráter prejudicial dos decretos e da política que eles explicitam para as universidades e centros de pesquisa estaduais foi mantido – expresso, por exemplo, na manutenção da secretaria de Ensino Superior.

Um dos decretos, o nº 51.471, afirma que ficam vedadas a admissão ou contratação de pessoal no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta, incluindo as autarquias, inclusive as de regime especial [as universidades públicas se encaixam nesta categoria], as fundações instituídas ou mantidas pelo Estado e as sociedades de economia mista. Apesar de recuada com o Decreto Declaratório nº1, o decreto nº 51.471 institucionaliza o problema da não contratação de funcionários e professores nas universidades estaduais paulistas, sem acompanhar o crescimento do número de estudantes nas mesmas, contribuindo para a queda da qualidade da educação e deficiência em seus aspectos estruturais.

A falta de professores é evidente, e os números são alarmantes. Na Unicamp, de acordo com a Diretoria Geral de Recursos Humanos (DGRH) e a Diretoria Acadêmica (DAC) desta universidade, o número de estudantes de graduação subiu de 7.280 para 17.275 entre os anos de 1989 e 2006. Neste mesmo período, o número de professores, de forma inversa, caiu de 2.103 para 1.827. Neste contexto, a relação aluno/professor, que em 1989 era de 6,5, passou para 17,4 em 2006. O que pode parecer algo vantajoso – aumento da produtividade docente – é, antes de tudo, indício de queda na qualidade do ensino e reproduz uma lógica produtivista, sem preocupação com a formação integral do estudante, visto que é humanamente impossível manter o mesmo nível de qualidade da educação com um aumento grosseiro do número de estudantes em relação à redução do número de docentes. Também exemplifica a redução dos gastos do governo com a universidade pública, privilegiando a entrada de capitais privados para financiamento de pesquisas.

Outros dados para exemplo: Na Faculdade de Educação (FE), o número de estudantes de graduação era 497 em 1996, e passou para 1.878 em 2006. No mesmo período, o número de docentes, caiu de 106 para 98; no mesmo tempo, o número de estudantes da Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo (FEC) passou de 402 para 654, enquanto o número de docentes manteve-se praticamente o mesmo (de 75 para 76). Também nestes dez anos, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o número de graduandos desde 1996 subiu de 649 para 1.037. Já o número de professores caiu de 116 para 94. É importante salientar que neste instituto foi construída pelos estudantes uma campanha pela contratação de 75 professores, segundo cálculo dos próprios discentes para manutenção da relação aluno/professor de dez anos atrás, visando a manutenção da qualidade das pesquisas e das disciplinas oferecidas.

Os problemas advindos da queda do número de professores e do aumento do número de estudantes, ambos significativos, podem ser até abafados na opinião pública com as informações que os reitores destas universidades expõem na mídia, como o crescimento porcentual das pesquisas desenvolvidas nestas instituições. Porém, dentro da universidade, muito longe do que surgem nas manchetes de jornais, estudantes percebem a queda da qualidade do ensino e o descaso do governo com a educação superior pública, explicitada também na falta de políticas de assistência estudantil – como moradia, transporte e alimentação –, na redução do número de funcionários contratados por concurso público (acompanhado por um latente processo de terceirização e conseqüente precarização do trabalho), nos processos de flexibilização curricular, e que em conjunto promovem uma universidade sem pensamento crítico-científico, de formação técnico-operacional e voltada única e exclusivamente para os interesses do mercado.
As mobilizações e greves que vemos surgem em resposta a esta política que não prioriza nem zela pelo ensino público. Não nos mobilizamos para manter “privilégios”, mas, pelo contrário, para universalizar o acesso ao ensino público de qualidade e para impedir que a universidade se afaste cada vez mais do sentido que atribuímos a ela: o de exercer uma função social, buscando soluções aos problemas da sociedade – em especial da população pobre e trabalhadora – e sendo, bem como diz a Constituição, um direito para todos.

Stella Paterniani e Sydnei Melo (estudantes de Ciências Sociais da Unicamp)

Saturday, June 09, 2007

Auto-retrato interno de uma tarde de segunda-feira

Enquanto passeava os olhos pelas linhas que, vez ou outra, diziam-lhe do mal do mundo e do afã humano da infelicidade, sentia seu corpo escorregando pelo banco frio. À medida em que seu corpo ia cedendo ao cansaço e tomado pela baixa temperatura exterior, crescia em si o desejo de alimentar-se intelectualmente. Crescia a ânsia pela mudança, a utopia de viver em um mundo diferente, com muitas cores, algumas certezas – diferentes das correntes – e outros segredos a serem desvendados. Um mundo repleto de sons, campos e possibilidades. Um mundo onde cada ser humano vivesse como tal e tivesse consciência disso. Onde a vida não fosse subjulgada por armas de fogo, por poder, pela violência ou por um corte de cabelo. Onde as vidas fossem contempladas pela vivência plena, e não – como são – sobrevidas (a partir da vivência do essencial, apenas – ou, às vezes, magicamente, nem isso).

Não que a plenitude signifique felicidade; o afã pela felicidade a qualquer custo, como é hoje tão concorrentemente disseminado, era outro ponto a ser desconstruído: que os sentimentos encontrassem, nos humanos, lealdade. Que a tristeza, a melancolia, a ansiedade, as frustrações fossem sentidas, e tivessem autoridade e aval para a entrega.

Retomada a consciência corporal, via estrelas à sua frente; seu corpo horizontal, integrante do banco, tornava-se insensível ao frio – (ou) unia-se a ele. A sensação submetia-se ao sentimento, e o entender o corpo não era mais sinônimo de sanidade.

Sunday, May 27, 2007

Buscas incessantes

O que é passível de sentido
é possível de sentido?

(Que importa o sentido se tudo vibra?)
(Alice Ruiz)

Wednesday, May 16, 2007

Desde que o samba é samba

... é assim.

Me disseram que só dói porquê tá vivo; propus que matássemos então.
Fui tentar e não consegui, e a pergunta que não quer calar: matar o quê?, ou morremos nós?

Têm coisas que nos compõe, outras que nos são essenciais.
Sim.

Cantando eu mando a tristeza embora.

Sunday, April 08, 2007

"Qual a parte da sua estrada no meu caminho?"

O filme 300, de Zack Snyder, recria a batalha das Termópilas, ocorrida em 480 a. C., na qual o rei Leônidas e 300 espartanos enfrentaram e venceram por 4 dias o exército persa de mais de cem mil soldados. No quinto e último dia da guerra, porém, são traídos por um espartano disforme que, por sua forma física, não é aceito em Esparta. Esse traidor alia-se ao exército persa, comandado pelo rei Xerxes, o qual – ainda que falsamente – elogia e dá valor, riqueza e mulheres àqueles que o reverenciam, a ele se curvam e se aliam. Assim, a negligência do rei para com aquele que deseja ser seu súdito mas não cumpre os requisitos necessários para pertencer à sociedade espartana culmina, enfim, no fracasso da batalha.

Quanto de egoísmo, ânsia individual pelo poder, desejo de se manter lembrado na história e vaidade humana estão presentes numa guerra? No caso da batalha das Termópilas, o álibi para o enfrentamento começar é a ordem que traz o mensageiro persa aos espartanos: água e terra. Que Esparta ceda território e água ao povo persa.

Conhecida por seu caráter bélico aliado a um forte sentimento patriótico, Esparta tinha como um de seus principais objetivos fazer de seus cidadãos bons soldados: bem treinados fisicamente, corajosos e obedientes às leis e às autoridades estatais. O mensageiro, no filme 300, é morto por desafiar e insultar o rei Leônidas. Tivesse ele um pouco mais de tato e menos “desrespeito para com as autoridades e o povo de Esparta”, evitar-se-ia a guerra? Tivesse o povo persa pedido – e não exigido – água e terra, Esparta teria, amistosa e generosamente, atendido à necessidade de seus vizinhos?

Não se pode pautar a História pelo que poderia ter sido, mas qual é a responsabilidade do orgulho e da vaidade humana e das relações pessoais nas relações políticas e em seus desdobramentos? Há grandes tragédias cujo início foi um rompimento diplomático – a própria segunda guerra mundial, por exemplo. Afinal, os governantes são também seres humanos e têm suas paixões, interesses e sentimentos aflorados, questionados e contrariados constantemente.

Além do questionamento sobre a predominância da vaidade e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos, o filme de Zack Snyder nos faz pensar nos anacronismos existentes ao se adaptar ao cinema – ou à literatura, ou mesmo ao analisar academicamente – épocas históricas tão distantes da atual. Um exemplo disso é a dor expressa pela mãe de uma criança quando, aos sete anos, esta deixa os cuidados da mãe para viver sob a orientação do Estado, que tinha professores especializados para educar seus cidadãos desde pequenos (Hoje, inclusive, eu diria que o ditado “É de pequeno que se torce o pepino” é bem aplicado e diz muito sobre a educação espartana). Os jovens levavam vidas muito austeras, vivendo em pequenos grupos, realizando exercícios de treino com armas e aprendendo as táticas bélicas de formação.

A dor maternal, entretanto, é fruto da interpretação de nossa sociedade atual do fato. Porque em Esparta, essa separação aos sete anos de idade era costume. Os costumes são raramente questionados e, por seu caráter universal e existente na consciência coletiva da população, são facilmente aceitados e naturalizados. Assim, não há porque a mãe do menino sofrer por não mais conviver com seu filho: seus laços não são estabelecidos da mesma maneira como o são os nossos, atualmente. O amor – no caso, o maternal – e a afeição, como construções sociais e culturais, são diferentes entre sociedades e entre épocas.

Problematizações históricas à parte, não se deve esquecer que o filme é belíssima adaptação cinematográfica da história em quadrinhos de Henry Miller, a qual retratou o caráter mítico adquirido pela batalha dos 300 homens de Esparta. Seja por vaidade, orgulho, segurança ou patriotismo; seja por motivos coletivos ou individuais, os 300 cidadãos/homens/soldados espartanos “saíram da vida para entrar na História”.
(E Rodrigo Santoro não deixa a desejar.)

Saturday, March 24, 2007

Sobre o ser e o estar

"Neste instante-já estou envolvida por um vagueante desejo difuso de maravilhamento e milhares de reflexos do sol na água que corre da bica na relva de um jardim todo maduro de perfumes, jardim e sombras que invento já e agora e que são o meio concreto de falar neste meu instante de vida. Meu estado é o de jardim com água correndo. Descrevendo-o tento misturar palavras para que o tempo se faça. O que te digo deve ser lido rapidamente como quando se olha."
Clarice Lispector, "Água viva"


O verbo ser não existe em tupi. Talvez porque eles tenham consciência da pretensão que o verbo exprime e, ao mesmo tempo, de sua comodidade. O que é, é. Permanentemente. O verbo ser expressa uma certeza, necessária a uma certa serenidade – ainda que aparente e ilusória – buscada pelo ser humano na nossa sociedade ocidental capitalista, onde definições são procuradas e distribuídas. Entretanto, o ser é pautado pelo ter: o que se pode consumir é aquilo que define o ser, aparentemente para a vida toda – que acaba por tornar-se um acúmulo de definições vitalícias que se superpõem mas não necessariamente se substituem.

Na nossa gramática, o verbo ser define as frases subordinativas. Ele compõe, essencialmente, a oração principal. Assim, exprime-se uma lógica hierarquizada, na qual o ser exige um predicado e, no momento em que esse predicado é definido, a limitação pautada por ele é gigante. No momento em que se passa a ser, deixa-se de ser, também, o que outrora poderia tornar-se. Na vida social, deixa de ser verbo de ligação para ser verbo intransitivo.

Mas se o verbo ser não existe em tupi, é porque a existência não é pautada por definições permanentes e excludentes. Expressa-se não a essência das coisas, mas o seu estado: o uso crucial e comum é o do verbo estar. As situações parecem se caracterizar como mais flexíveis e passíveis de adjetivações flutuantes. Não se é; está-se. O estar passa a definir momentos, talvez com maior relatividade de classificações e sem receios de atitudes das quais não se possa desprender ou arrepender-se.

Se na nossa sociedade, percebe-se, o ser é definido pelo ter, e este nos define essencial e imutavelmente, há que se lutar contra esses tipos de aprisionamentos e defender uma sociedade na qual o ser seja flutuante e não deposite em si tanta responsabilidade. Uma sociedade na qual o estar assuma a intransitividade. Onde as pessoas não sejam definidas pelo que possuem; onde as pessoas não sejam definidas, sejam apenas sentidas em seus diferentes estados de estar. Onde o verbo ser conste apenas no dicionário, com explicações ininteligíveis e impossíveis de serem compreendidas, numa sociedade onde não se é. Está-se.

Saturday, March 10, 2007

"Meu grito inimigo é: cê foi mó rata comigo"

Ratos permeiam minha mente. Talvez somente pelo lirismo, talvez pela sua comedida situação de estar só no mundo e mal-viver. Talvez pelo desprezo que sofrem e pelos caminhos que, ébrios, traçam e seguem à risca, a esmo. Esmola é o que ratos não pedem. Dependem, quiçá, do desprendimento alheio. Ouvidos atentos, tosados, pelados, olvidos do mundo. Domésticos, quase, nesta semi-pós-modernidade difusa, perversa, invertida, atordoada. Doada até os dentes por aqueles que não têm valor. Loucos, trapezistas, equilibristas oscilantes ante a vida e perante a esperança e a desgraça. Graça. Graça de manipular, de pular e mergulhar e tecer os meneios dos impunes hospedeiros. Eiras e beiras, bancos pra que te quero! Esmero meu, nosso, vosso, e bendito é o fruto da macieira àquele de eira, ao sem beira. Beirando a estupidez segue-se, seco e arrogantemente rumo ao quintal. Tal é a música a ser dançada; exigem-se rodopios, frevos e lambadas. Mais nada.

Wednesday, February 21, 2007

Moralmente estafado

É. Cinzas.
Tem gente que acredita que tem um pássaro, uma tal de fênix, que renasce delas.

Eu não sei se acredito.

Monday, February 05, 2007

C.R.A.Z.Y. diamond, shine on

“This is Major Tom to Ground Control.
I'm stepping through the door,
and I'm floating in a most peculiar way.
And the stars look very different today.”

A coragem de olhar o mundo sob outro ponto de vista, expressa especialmente nesse trecho de “Space Oddity”, de David Bowie, é um dos assuntos predominantes em “C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor”, de Jean-Marc Vallée. Zachary Beaulieu, quando dubla o clássico de Bowie – em fase Ziggy Stardust, no auge dos anos 1970 – vestido e maquiado como tal, escancara-se ao mundo – ou ao menos à sua vizinhança – por ter deixado aberta a janela do quarto, palco principal das epifanias adolescentes.
O garoto é o sétimo filho da família Bealieu, mas tem quatro irmãos – três foram abortados. E de acordo com as superstições canadenses – que têm suas correspondentes na cultura brasileira, como o mito bem divulgado em histórias do Chico Bento, de Maurício de Souza, de que o sétimo filho tende a tornar-se lobisomem –, sua mãe acredita que ele tem um dom. Soma-se a isso o nascimento do menino no dia 25 de dezembro e sua capacidade de acalmar o choro dos bebês com cólicas quando os segura.
Nascer no Natal é experiência traumática para as crianças, desde cedo imersas na lógica capitalista: é o fim do mundo receber apenas um presente no combo “Natal+aniversário” enquanto todos os amigos recebem dois ao longo do ano. Como se não bastasse, não é permitido a um menino ganhar um carrinho de bonecas. Pergunta-se a uma menina porque ela ganha bonecas, e não bola de futebol. Ela responde, naturalizando: “Porque eu gosto de bonecas. E bola é coisa de menino.” E ela não deve gostar de “coisas de menino”. Poda-se o interesse genuíno e inocente de menino por bonecas. No filme, o pai de Zac tenta contornar a situação, dando-lhe de presente uma vitrola, um banjo, uma bateria... E vê-se formada a banda completa antes mesmo do garoto completar dez anos de idade.
Conforme cresce, Zac vive um romance com uma amiga, para tentar enquadrar-se ao permitido e fugir de seus desejos por “coisas de meninas”. A homossexualidade do rapaz é percebida, mas não aceita pela família – principalmente pelo pai. O orgulho viril masculino de ter concebido cinco filhos homens não pode ser atacado nem desconstruído dessa maneira. A dependência química de Raymond, irmão mais velho de Zac, é mais facilmente aceita pelo pai do que o desonroso filho homossexual.
“Há dois tabus aqui em casa. Eu e Raymond.”, diz Zachary. Poderia ter dito: “as drogas e a homossexualidade”, mas ao personificar e, conseqüentemente, fundir o tabu às respectivas personas estampa um significado de irreversilibidade e aceitação dos fatos e características intrínsecas aos dois. Caberia, então, a todos, lidarem com o que não tem remédio.
A relação do menino com a mãe também é emblemática, e caricatura as mães compreensivas e mediadoras dos conflitos domésticos. O filme ultrapassa o lugar-comum de famílias de classe média e suas crises burguesas quando Zac, num ímpeto, vai para Jerusalém buscando uma espécie de retiro e compreensão de si mesmo. Mas a escolha do lugar para a viagem é fruto de influência direta da mãe, católica fervorosa, que sonhava em conhecer a terra santa. É nessa terra santa, enfim, onde Zac vive uma paixão homossexual e se entrega – com o perdão do trocadilho – aos pecados da carne. Agoniado, telefona para a mãe. Ela sabe que é o filho ao telefone, bem como sabe da inquietude do menino, como bem o sabem sempre, as mães. Segue-se uma das mais belas cenas, quando Zac, descoberto, por fim, deixa o quarto e, no amanhecer, vislumbramos um corpo masculino, por fim, semi-coberto espreguiçando em sua cama.
O diretor consegue, ainda, transmitir beleza original e espontânea a cada cena. O figurino, os carros, o Canadá dos anos 1970, a capa de “The dark side os the moon”, álbum clássico pink floydiano desenhada na parede do quarto de Zac e a trilha sonora também composta de clássicos de Rolling Stones e dos já citados Bowie e Floyd são expressões muito bem desenvolvidas do momento histórico.

Saturday, January 13, 2007

O alumbramento do olhar para TV num domingo

Ah, eu te amo, e como amo, se é que amo alguém, amo tanto, e acho que de amor me explodo, explodirei, enfim, com você perto de mim e nossas bocas e coxas e mãos e sentidos, nossas peles, o ar, a expiração, a inspiração, a respiração, o trabalho, o cansaço, a lua, a lua, a lua!, suas mãos, pequenas, sobre as minhas, sua arrogância e meu olhar de desprezo, minha força, meu domínio, sua subjugação, nossa prepotência. Nossas cores, nossos gostos, nossos gozos e os alheios. Os medos e os receios, os remorsos e os anseios. As noites claras, os dias fugazes, a cama, a lama, o caos, o chão, o corpo, o entulho, o escuro, a paixão. Minha alma resplandece, seu olhar te denuncia, nos rendemos, enfim, ao que já sabíamos, e não temíamos, apenas jogávamos e nunca havia um vencedor. Não há perdedor em nosso jogo, há dominação e amor e prepotência e paciência. E há, e falta, e falta reconhecimento. Pois do sereno nasce a flor, é como um cais ao pôr-do-sol preocupado com os navios que não atracam. E se atracamos, não nos atraquemos mais; o calor que não pode esperar, o olhar aflito e as mãos trêmulas de ansiedade perante o porvir - e o pôr-do-sol, onde é que estava, de onde veio? Não importa o tamanho das ondas ou das ondulações, oscilações, exageros; o que importa são seus dedos pelos cachos dos meus cabelos. É pra me fazer sentir o ali, o instante do ali, de nós, entregues, sem tempo, espaço, pudor, moral, rejeição, recolhimento, traição, competição. Somos nós. Sou eu. É você. Sou você. E os que virão depois de nós.

Monday, January 08, 2007

A internet e o espetáculo (parte I)

A Internet é o mais contemporâneo paradoxo. É, simultaneamente, o lugar onde muitas pessoas sentem-se incrivelmente à vontade, e um permanente não-lugar – a partir daí, torna-se ponto de não-retorno. Talvez pela intimidade e hospitalidade, por um lado, da rede poder fazer sentir(-se/lhe), seja despertado o sentimento – ou o sentido – de liberdade individual inalienável e quase que incondicional. Talvez por estarem no conforto de seus lares e protegidas por uma membrana (in)transparente, as pessoas – ou melhor, os internautas – sintam-se tão à vontade para mostrarem-se nus perante seus companheiros – e a intenção da frase era metafórica, mas o literal também se a carapuça serviu... A questão é se se mostram de fato, inteiros, íntegros e intrínsecos àquilo que são, ou se criam personas, personagens e facetas, inspirados em seus melhores, piores ou (im)possíveis.
Pois bem, o buraco é muito mais embaixo. Caímos no relativismo da discussão sobre o ser. Eu, particularmente, acredito que não somos; estamos. E, por estarmos, somos quase que polivalentes, ou multifacetados, ou divisíveis. É o constante estado de estar o responsável pela instabilidade de muitas mentes internéticas e perfis de orkut – vide os constantes ‘orkuticídios’ cometidos. Entretanto, a discussão entre o ser e o estar é convergente se comparada à já também exaustivamente discutida questão de regressão – à medida que desenvolvemo-nos – entre o ser/estar e o ter.
Li ontem na folha Mais! Um excelente artigo no qual o autor aprofunda essa digressão e faz-nos (de)cair: hoje, em nossa ocidentalóide sociedade, o que impera não é mais sequer o ter: é o parecer. Nesse sentido, completamos nosso esquema e a Internet torna-se extremamente lógica: é lá que criaremos nossas diferentes personas, é para lá que transportaremos nossas frustrações e as dividiremos e acharemos graça. É na Internet que as pessoas fogem da solidão e se masturbam simultaneamente diante de uma webcam. É lá que preconceitos nazistas, racistas e homofóbicos se espalham. Talvez a criatura tenha vencido o criador e, de fato, o homem tenha tornado escravo de seu caráter patético, o qual é devastadoramente inflado pela Internet.
Guy Debord escreveu, em 1992, um livro fascinante chamado “A sociedade do espetáculo”, no qual teoriza que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”, e explica: “do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também armas para o reforço constante das condições de isolamento das “multidões solitárias”. Pá-bum: a internet, o espetáculo.

Wednesday, October 04, 2006

Tilin

Sinto o véu caindo.
Tenho dúvidas se cai pela física,
metafísica
ou patafísica.

Se alguém o puxa,
se eu me desvencilho,
se vários o puxam,
se é o vento que venta que o faz deslizar.

Se eu me seguro,
seguro
ou se pulo.
No quase -
No escuro.

Monday, September 25, 2006

O mar e o sertão. Ou amar Lisbela.

Dizer que é amor às vezes é significante.
Às vezes, não.
Pode corresponder a dizer 'bom dia', e isso não precisa ser, necessariamente, coisa de tia. Ou coisa de quem mente. Ou exagera o sentimento, ou o que tem em mente.
Pode sentir que ama e não dizer, pode amar o sentir e não dizer! Porque a partir do momento em que diz e personifica, puf! a palavra vira pessoa e Pessoa que é amor é rara de encontrar. Pode atá existir várias Pessoas, mas algumas nem amam. Outras se amam. Outras ignoram.
Enfim, o dizer é por vezes desnecessário.

Parodiando o príncipe (muito estudado por mim nesse semestre!), o essencial é inexistente nas palavras.

Saturday, September 09, 2006

Roda viva

Tem dias em que tudo faz sentido e a gente, felizmente, se sente contente. Como se a nuvem negra nos deixasse, ou até nos acalmasse, quiçá fizesse parte da parte que agora existe.
Nesses dias, tudo basta. Tudo completa, ou se completa.
Eucompletovocê.