Wednesday, July 29, 2009

dispersões despertas

Batidas na porta da frente - é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calada,
ele ri.
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar
e eu não sei.
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração - é o tempo.
Nana Caymmi

hoje, voltava da minha aula de francês, dirigindo. tinha chovido, mas estava com sol, algumas nuvens bem densas e escuras de um lado do céu, e o outro lado já muito azul. no meio do caminho, desconhecido (dei carona pra uma amiga e acabei voltando por um caminho que nunca tinha feito) fui surpreendida por um arco-íris, que me trouxe qualquer coisa de algum lugar racionalmente intangível, e me fez brotar um sorriso.

percebi que o arco-íris é uno, holístico, e que seu centro está em toda a parte. mas sempre que ele aparece, toca qualquer coisa de muito profunda, sincera, que tem inclusive algo de pueril em sua tanta beleza. ele parece nos brindar tão-somente com aparições raras, sutis e fragmentadas, à espreita da distração que o aperceba. e viria daí seu charme apaixonante.

acontece que sempre que ele aparece e nos aflora essas sensações boas, deve ser porque ele se comunica com qualquer coisa da nossa história, da nossa memória, que faz sentido no passado e no presente. nos brinda, talvez, com a fragilidade absoluta e perfeita da vida. e a sensação que nos ilumina, num dia, vai desbotando ao longo dos outros dias, até que nos esquecemos da visita do arco-íris - para sermos lembrados pelo próprio, em mais uma aparicação magistral num futuro mais ou menos distante. e essa nova aparição faz aflorar novamente todas as sensações boas, a maioria delas inexprimíveis em palavras. alguém poderia dizer que é como um ciclo, mas não. não é ciclo, porque não tem início, meio, fim, e início de novo. como já disse, o arco-íris é uno, embora se nos mostre apenas em fragmentos.

tem sido presente, na minha vida, nas últimas semanas, pensamentos sobre a vida, a morte, o além. essa aparição desse arco-íris me fez perceber como tanta coisa da vida não tem início nem fim, como a vida em si não é início, nem a morte é fim - como já tinham tentado me ensinar os monges do templo budista em 2007, mas só agora comecei a entender o que isso significa. vida e morte se entrelaçam, e isso faz da vida absolutamente bela e una. a morte deixa, sim, muitas coisas mais difíceis de se compreender e até de se viver. mas encontro algum sentido quando penso que ela nada mais faz do que escancarar o caráter fragmentado e raro das aparições dos arco-íris. e lembro que a aparição rara, fragmentada e sutil, à espreita de qualquer falha na nossa vigilância que acometa de comoção nossos sentidos todos, nada mais é do que a percepção da presença infinda, infinita e perene (já que não há final).

presença do quê? não sei dizer ao certo. talvez seja mais uma dessas coisas que a gente só sente, e que muitas pessoas dão nomes diferentes. amor, pessoas, valores, ensinamentos, lembrança, memória, fé. o que sei é que isso se torna constitutivo da gente, e, como qualquer nova condição, é dolorosa, um pouco assustadora, e contém em si grande dose de beleza. o que nos é sempre ensinado é que, diante de condições um pouco assustadoras, a gente deve abrir o coração e compartilhar com aqueles cuja comunicação se faz mais facilmente (o pai, a mãe, o cachorro, as estrelas, o diário, o terapeuta, quer estejam nessa terra em carne e osso, quer não?). são eles que, na ação de compartilhar, desanuviam o susto e intensificam a beleza. sempre.

Monday, July 13, 2009

'moscou', de eduardo coutinho (ou: orgulho de ser brasileira)

diretor e produtor sobem ao palco para apresentar seu filme, antes da exibição no festival de cinema de paulínia. enquanto o produtor faz os agradecimentos de praxe, o diretor ronda o palco, observa as marcações no chão, olha para o chão, olha para cima, põe as mãos nos bolsos, puxa as calças que caem, o claro paletó desalinhado contrastando com a calça escura (ou seria o contrário?).

dedica o filme a joão moreira salles, aquele que o salvou do convento - destinação correta, segundo o próprio coutinho, caso o documentário fracassasse antes mesmo de tomar corpo. moreira salles assiste a algumas cenas e profere a sentença: 'sim, há filme'. coutinho vê que sua carreira não será anunciada em obituário, e segue o conselho do amigo: faz um documentário longo, em fragmentos, e sem se preocupar em fazer entender a história da peça teatral a ser montada.

pois o argumento de coutinho é gravar o processo pelo qual passa o grupo galpão de teatro, quando aceitam o desafio de montar 'as tres meninas', de tchecov, em três semanas (ou um mês?). a sugestão de moreira salles não foi senão coroar aquela que, imagino, já era a intenção de coutinho, em parte justamente por se tratar de um documentário: não fazer uma livre adaptação da peça de tchekov, mas usá-la como linha condutora dos processos internos, externos, subjetivos e coletivos pelo qual passam o grupo de teatro e seus indivíduos no início de uma construção e desconstrução, como o diretor da peça de teatro diz no início do filme, de uma peça teatral.

além disso, basta lembrar de outro célebre documentário do diretor: jogo de cena. nele, coutinho consegue magistralmente mesclar memórias , fazer aflorá-las, compartilhá-las, e construir, a partir de fragmentos com um quê de realidade (i.e., as memórias alheias), as memórias de tantos personagens. em 'moscou', não se tem certeza de quem são as memórias escancaradas na tela - ainda que, por vezes, em black out. mas a origem das memórias não tem importância. o que importa é a generosidade do compartilhá-las, sem saber quão efêmeras ou quão encrustradas nos corpos alheios elas ficarão.

eduardo coutinho dá um drible na centralidade da noção de verdade, e com isso desafia nosso apego às nossas próprias noções - estanques, corretas e só nossas. ele propõe compartilhar as verdades, inventá-las, relembrar cheiros e recolori-los depois. pega emprestado uma das mais belas coisas do teatro e a põe no centro de seu belíssimo filme: a inventividade.

Friday, July 10, 2009

sinal fechado

eu acho tão bonito quando o carro em que estou pára no cruzamento, rola aquela suspensão entre o seu sinal que ficou vermelho e o sinal dos outros que está prestes a abrir, e então o sinal abre, e eu gosto mais quando é faixa dupla, e tem um carro ao lado de uma moto, e os outros carros tratam a moto cm o respeito de carro - isto é, a deixam ocupar o mesmo espaço que um carro ocuparia -, e o sinal fica verde e o carro e a moto aceleram e saem andando juntinhos, o carro faz a curva fechada e a moto, a aberta. eu até acredito em harmonia, e em arte cotidiana, daí.

Wednesday, July 01, 2009

inspirada

a pétala da borda exterior a cor ainda viva o corpo exuberante sutil indício de meneio rumo ao desprendimento leve que a faria
, por fim,
flanar.

Sunday, June 28, 2009

dois poemas

Exausto
Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

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Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, June 24, 2009

não esquecer

há a técnica, o pensamento, e as cachoeiras.

Tuesday, June 23, 2009

Mãos nos bolsos (Fragmentos I)

Não sabia, ou devia saber, do momento exato em que iria passar; levantei os olhos, a frase suspensa, encontrei os dele, mas ele não. Varou o pátio na altivez inconfundível, a magreza acentuada pela saúde débil e os recentes traumas, associados a vícios típicos, como o café e o cigarro sem filtro. Terminei a frase e perdi a linha do raciocínio, assumi: teria de reler todo o capítulo imersa em alguma concentração cujas possibilidades reais de existência tendiam a zero nesse momento.

Os espaços de convivência da Universidade andavam vazios no meio da tarde. Encheram de tardezinha, naquele dia, hora do teatro das dramáticas decisões políticas. Alguém podia ter levado um chimarrão ou café em garrafa térmica, para fazer jus à tipificação em curso por aqui, e, de quebra, combater o frio. A assembléia daquela tarde discutiria o estado da arte da mobilização estadual, e a greve, sim, companheiros, estamos em greve. O cenário é o já conhecido: alguns levantando as vozes no desespero de se fazer ouvir, entoando os pressupostos compartilhados e enterrando os dissonantes. Pois que há que se discutir, mas não agora. Os pressupostos, discute-se em mesa de bar, conversa miúda, mão por sobre o ombro, aperto firme na jaqueta, cigarro cedido, e o isqueiro.

Dá até pra discutir pressuposto no café-da-manhã, Betânia ao fundo, os corpos enebriados, ainda, da noite-vigília. Encanto erótico e amor é prato cheio pra discussão política: o mundo é encantado, então. E uma bebida quente pela manhã.

Saturday, June 20, 2009

Sêneca

Devemos misturar e alternar a solidão e a comunicação. Aquela nos incutirá o desejo do convívio social, esta, o desejo de nós mesmos; e uma será o remédio da outra: a solidão curará nossa aversão à multidão, a multidão, nosso tédio à solidão.

Sêneca, Sobre a tranqüilidade da alma.

Sunday, June 14, 2009

Notas sobre os processos de greve e mobilização

Stella Zagatto Paterniani junho/2009

Autonomia universitária. Essa foi uma das expressões mais utilizadas em 2007, entre estudantes, funcionários e professores das universidades estaduais paulistas. Em primeiro de janeiro daquele ano, o governador José Serra lançou uma série de decretos que restringiam a autonomia administrativa e gerencial da Universidade sobre seus recursos financeiros; desrespeitavam o ensino, a pesquisa e a extensão como o tripé da Universidade pública; e convergiam com o projeto político para o ensino que já há muito está sendo colocado em curso pelos governadores que se sucedem no mandato do Estado de São Paulo.

Esse projeto político visa, como a agenda política mais ampla do governo federal, diminuir os gastos públicos com os direitos garantidos por lei na Constituição federal de 1988. Na prática, transforma-se a educação em serviço vendável, assim como se ignora a autonomia científica e de pesquisa: quem passa a trazer mais verbas para a Universidade são as empresas, com seu capital privado e seu interesse de mercado. E são elas, portanto, que passam a ditar quais são as prioridades nas pesquisas. Se, por um lado, a Universidade pública deveria servir à sociedade e reverter benefícios sociais, por outro, é justamente por não estar descolada da realidade social que os produtos da Universidade voltam-se para uma pequena parcela da sociedade. A pequena parcela que tem acesso à Universidade, que financia suas pesquisas e que se insere no jogo do mercado.

Foi para marcar sua desaprovação à essa política posta em curso, pelos governos e reitorias, para questionar que tipo de Universidade queremos, para defender a autonomia universitária e o amplo acesso à Universidade por parte da população, e por outros motivos que se desdobram desses, que os estudantes da USP ocuparam a reitoria, os da Unicamp, a Diretoria Acadêmica, e os da Unesp, reitorias e salas de aula, no ano de 2007. E a mídia noticiou, e as pessoas comentaram, e discutiu-se política para a educação em salas de aula, em salas de jantar, em bares.

A desocupação dos prédios públicos aconteceu quando os estudantes se viram enfraquecidos pela mídia, que insistia em caracterizá-los como vândalos e criminosos. A estratégia do governo estadual foi expelir um Decreto Declaratório, assegurando, nos termos da lei, a autonomia das Universidades. Não satisfeitos, mas acuados, estudantes deixaram os prédios públicos, sob ação da polícia. Na presença da tropa de choque, alguns estudantes da Unesp foram presos.

O movimento reivindicatório universitário ergueu-se com os decretos de primeiro de janeiro, fortaleceu-se ao longo do semestre e enfraqueceu com o Decreto Declaratório. Não há como negar o peso da dimensão legal no processo, nem perceber, então, o poder da lei em escamotear projetos políticos: a autonomia universitária não começou a ser ameaçada com aqueles decretos. Desde o momento em que capital privado passa a financiar pesquisas universitárias, a autonomia de pesquisa fica comprometida. Se, por um lado, as leis não bastam como garantia de direitos – pois estão na Constituição, mas não são garantidos na prática, direitos básicos, como educação e moradia –, por outro, o fato de estarem na Constituição torna-se argumento poderosíssimo, mobilizado pelos movimentos sociais para adquirirem legitimidade e, com isso, apoio da população que muito se ampara nos ‘termos da lei’.

Proponho, então, uma retrospectiva para arrematar o argumento: a contestação do movimento universitário (principalmente, estudantil) à política para a educação e o desejo de defesa da autonomia universitária teve como estopim uma medida legal que selava e expressava uma política em andamento. Essa política em andamento, porém, não condiz com o que sela e expressa, legalmente, o resultado de um amplo processo político: a Constituição Federal. Vê-se que o problema, então, precede. Pois a Constituição Federal garante a educação como direito social.

Pois bem, feita essa breve retomada de uma dimensão do complexo processo de mobilização e greve estudantil de 2007, passemos aos dias de hoje.
No último dia nove, a USP virou palco de confronto escancarado, com direito a balas de borracha e bombas de efeito moral atiradas aos estudantes, pela Polícia Militar. Estudantes, funcionários e professores da Universidade dirigiam-se ao portão principal do campus do Butantã, em São Paulo, numa manifestação conjunta cujas principais reivindicações eram a retirada da Polícia Militar do campus e o fim do mandato da reitora Suely Villela. Alguns dias antes da manifestação, com funcionários e estudantes da Universidade já em greve, a USP amanhecera com cerca de cem viaturas da PM instaladas em diversos institutos e faculdades.

À diferença da época da ditadura, hoje, a polícia militar não tem permissão para entrar na universidade, a não ser quando tem sua presença requisitada. E a reitoria da USP requisitou. Se hoje a polícia não é permitida no campus, é porque já servira a fins de coerção, constrangendo estudantes, funcionários e professores que ousassem discutir o regime ou a repressão da época ditatorial. Em 19 de fevereiro deste ano, a Polícia Federal apreendeu os equipamentos da rádio livre que funciona na caixa d’água da Unicamp, a Rádio Muda. O argumento para legitimidade de tal apreensão? Um mandado judicial de 2007, que insiste em acusar a rádio de ilegal. Também neste ano foi apreendido pela polícia, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, um computador no qual funcionava um servidor livre que mantinha pesquisas em andamento. Sabemos a função coercitiva da polícia, como braço do Estado, que detém o monopólio da violência legítima. A PM é, então, o sujeito que detém o monopólio da violência legítima. Entretanto, quem define o que é violência legítima?

Não é legítimo (e aqui recorro novamente à Constituição Federal) que estudantes se formem no Ensino Médio sem perspectivas de continuar seus estudos superiores. Não é legítimo que o capital privado possa ditar rumos de pesquisas científicas nas Universidades. Não é legítimo que estudantes sejam agredidos, em espaço público, por ousarem discordar da privatização posta em curso nas Universidade Públicas, e se parece legítimo que o governo estadual opte por expandir vagas no ensino superior através do projeto do Ensino à Distância, não é legítima a ausência de possibilidade de escolha entre o ensino virtual e o presencial a que estão condenados os futuros estudantes da Universidade Virtual do Estado de São Paulo – que em si também não é legítima, enquanto a) não prevê “o princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”, conforme consta no artigo 207 de nossa Constituição, e b) é criada a partir de um decreto, que evidencia a indisposição governamental em construir um diálogo com a comunidade universitária.

No Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, estudantes, funcionários e professores estão em greve. Além da solidariedade à comunidade universitária da USP e do repúdio à presença da Polícia Militar no campus, a bandeira específica da greve é a contratação de professores. Houve redução de quase 50% do quadro de docentes, de dez anos pra cá, enquanto o número de estudantes cresceu. Sobrecarrega-se o professor, que, se quiser continuar com sua pesquisa – que não recebe capital privado por não ser de interesse imediato do mercado –, não pode se dedicar à formação dos estudantes. Os problemas de infra-estrutura também são alarmantes: a biblioteca, em reforma, foi inundada num dia de chuva forte, e correu-se o risco de perder parte de um riquíssimo acervo.

A greve acaba por ser o instrumento historicamente utilizado para deixar claro o posicionamento dos que contestam o status quo. Nesse momento, o desejo é chamar a atenção da população ao projeto político em curso na educação. Mobilizamo-nos e paramos nossa produção intelectual para nos dedicarmos a pensar sobre o projeto político privatista da educação e manifestar nosso descontentamento com esse tipo de Universidade. E quando a polícia militar é requerida na Universidade, e ouvimos, de outro lado, que é inadmissível a presença da polícia no campus, é hora de questionar, também, se é admissível a presença da polícia em outras manifestações de outros movimentos sociais. No centro da cidade de São Paulo, por exemplo, são muitos os pedidos de reintegração de posse de imóveis públicos ou privados, outrora ociosos e então ocupados, que são processados com a ação truculenta da polícia militar – muitas vezes envolvendo prisões e mortes de militantes. Esses imóveis são, também eles, pontos de ilegitimidade, se vistos sob o viés da Constituição, pois descumprem a função social da propriedade; e quando a reintegração de posse é cumprida, vê-se aí outra ação ilegítima: veda-se o direito à cidade, discutido e concretizado, em lei, no Estatuto da Cidade. É a polícia militar atuando na criminalização dos movimentos sociais, e fazendo uso de sua ‘violência legítima’. Legitimidade para quê(m)?

convergências

Thursday, June 11, 2009

miolina

mensageiro natural de coisas naturais
quando eu falava desse temporal
você não escutou
lô borges

me disseram que eu viesse aqui, pra pedir de romaria, eu só mostro meu olhar, meu olhar, meu olhar, estes teus olhos que foram tão meus, entenda, por deus, eu morro pensando no nosso amor.
espero a madrugada, meu coração dilacera, a pálpebra braseia e qualquer movimento cheira a crepitante. cheira a ruptura, cheira a processo. não é cessar o movimento, nem continuar no não-movimento; não é inércia pura nem sono sem sonhos. nem sono entrecortado. nem manhãs regadas a álcool, o hálito acetinado constante, não. o que eu quero é nada, nada, nada, nadamente.

(no começo do texto, referências às músicas 'romaria' e 'eu preciso aprender a ser só'; será que preciso citar isso aqui? bom, tá falado.)

Sunday, June 07, 2009

tanto sol

te ligo afobada e deixo confissões no gravador
chico buarque e tom jobim, anos dourados

me enrosco no tempo denso e frio, fungo o nariz no sábado e já é noite de quarta-feira. no almoço de domingo o sol vem me visitar. os pontos luminosos insistem pela semana, no cabo de um mês a alma percebe fotografias com sabor de bolero, e a certeza do desamor se esvai a fogo e ferro. salpicada de qualquer gosto de fruta madura, empantanando ávida em poesia e sol.

Thursday, June 04, 2009

dois poemas

um da alice ruiz:

saudade
de ver salinas
sentir de novo
o cheiro do sol
nas retinas

tocar você
e ver você sentir
o que tem de sal
no meu gosto de menina


, e um meu:


meu coração balanceia
e se enfeita dos enlaces mais bonitos.

ser mulher é arremate:
classe, desejo, obstinada
vagueia por entretantos,
trama o riso e encera
outras tantas primaveras
em tudo quanto é vislumbre.
incerto devaneio
de horizonte em veraneio
destarte, desponta em vulto
qualquer réstia de razão.

nem assombra!
brisa leve, acalanteia.
e enche a lua.

Tuesday, June 02, 2009

compulsão

polícia civil do estado de são paulo. quinze minutos de espera, nem dá tempo de imergir na leitura. uma bicicleta esbaforida fura a fila, beleza, agora eu termino um parágrafo. café ou chá?, tanto faz, desde que seja puro, é só o costume. não tem canetas nem papéis em cima da mesa, nem copinhos descartáveis ou lixeiras. não tem cenário. não tem choro, olhos vermelhos nem desgraça, nada do que deveria ter numa delegacia de romance com discoteca e cavalos-de-pau. nem tem greve, nem sarna. tem um funcionário público, pra não dizer que é deserto. não é melodrama, nem melancolia bucólica; claro que é burocratizado, mas isso não vem ao caso. ele é todo bem-humorado, usa uns óculos modernos, um cabelo já ralo, podia ser meu pai, mas não. olha nos olhos, tem o jeito de digitar de curso de datilografia, os punhos não saem do lugar. invejo; meu jeito de digitar é displicente e sem método, será isso também testemunho do meu tempo?, ele só usa maiúsculas, e nós as minúsculas, também isso?. sem saber, me afeiçôo, ele se afeiçoa, é mais do que compaixão ou cumprimento de protocolo. as piadinhas desanuviam, assino as cinco vias, antes eram nove, nem sei pra onde ia tudo, e me conta, eu perguntei, pra onde vai cada uma das cinco vias. maravilha de sistema; preciso também de um método. comece deixando de andar desacompanhada em vias escusas. os papéis voltam com a assinatura do superior. obrigada, boa sorte, tudibom. despedida on the rocks e a respiração se aprofunda. agora é o carro meio sujo, meio bagunçado, com o pneu dianteiro um pouco murcho, e um toca-fitas, no século vinteum, cantando uma emepebê de outra década, depois um rock rural e a velocidade constante. diminuída pros pedestres passarem.

Monday, June 01, 2009

nem vela

ousam dizer 'literatura feminina', ousam dizer do sexo por demais banal, por demais requintado, por demais extravasado por penas duplas, unhas por fazer. acho graça. vou ali ter um orgasmo e já volto, se deus quiser.

Thursday, May 28, 2009

sem chapéu-coco

quando o samba começava, você era a mais brilhante,
e se a gente se cansava, você só seguia adiante.
hoje a gente anda distante do calor do seu gingado,
você só dá chá dançante onde eu não sou convidado.

é minha a melodia que você roça com a ponta dos cabelos em movimento de leveza tão rara que enternece. é minha a cadência que você segue, os passos staccatos num lento-duro e a boca seca entreaberta. são caminhos incertos desenhados no inebriante porão, cheio de brisa de dama-da-noite. é desandar ao berros de juras de amor, excretar tanto cheiro de mulher, e tossir espasmo no sereno.

reza braba

laia ladaia sabatana ave maria

Puxa as mangas da camisa, no crepúsculo a temperatura cai, o otimismo cede, o corpo inerceia, não balanceia nem cai, permanece na tortura, as costas puídas pelo café com ou sem açúcar, depende da companhia e dos minutos que restam. Massageia o entre-olhos, o locus do terceiro olho, dissera a estagiária que nem tinha mais idade praquilo, tem gente que não toma vergonha, os cabelos raleando e a cara lavada, nem um risquinho de lápis, será que queria botar banca de? O terceiro olho tinha o quê da relação sua com espiritualidade, não, não tô falando de religião, é espiritualidade, você, o cosmos, energia, rio, árvore, vela, macumba, vivo ou morto, o que fizer sentido pra você. Estralou as costas na lembrança dos esportes deixados de lado porque. Espiritualidade pode ser batata-frita às três da tarde? Botou até adoçante no café.

Tuesday, May 26, 2009

nem balzac

a caio fernando abreu, pode?

tá, então, vamos lá. é um tal de abrir janelas mas manter cortinas próximas, um ou outro vão de luz só que é permitido, tem que ter cuidado, as sutilezas. abafamento. os lascivos feixes de luz entram carregados de pó acumulado naqueles excessos de tecido. e então é um tal de hospital, de bolo na garganta e pernas bambas, e a obstinação carregada de responsabilidade e certeza, mas a mão trêmula denuncia qualquer outra coisa na curva para avistar a entrada do quarto, boa tarde, como vai, beijo na mão, abraço, carinho. e é um tal de sexo casual, ligações breves cheias de dedos, as sutilezas, as sutilezas. são músculos doloridos no início da semana, uma ou outra coceira no corpo ardido que pede arrego, a densidade dos cheiros no lençol, nos livros por terminar, qualquer coisa que impregna, quarta, quinta-feira. e então correm boatos, são desejos, é o trabalho de manhã, reunião, café e alguns gostos que se misturam, azedo, amargo?, laterais da língua. e é comida de mãe, é varar a madrugada, quisera ao som de um blues ou bolero, é varar a madrugada com as pálpebras queimando. não é choro, nem tesão. é a tensão entre crítica e resignação. todas as noites, até adormecer; todas as manhãs, esforço hercúleo pra levantar. e levanta, que o mundo não tarda, e cutuca.

Monday, May 18, 2009

As lanças do crepúsculo

Lição de esperança, igualmente, o modo como os Achuar vivenciam a sua identidade coletiva sem se embaraçarem com uma consciência nacional. Ao contrário do movimento histórico e ideológico de emancipação dos povos que, a partir do final do século XVIII na Europa, quis basear as reivindicações de autonomia política apenas no compartilhamento de uma mesma tradição cultural ou lingüística, os Jivaro não concebem sua etnicidade como um catálogo de traços distintivos que dariam substância e eternidade a um destino compartilhado. Sua vida comunitária não se justifica pela língua, pela religião ou pelo passado, nem sequer pela ligação mística com um território encarregado de encarnar todos os valores instituindo sua singularidade. Ela se alimenta de um mesmo modo de vivenciar o vínculo social e a relação com os povos vizinhos, às vezes sangrento, decerto, em sua expressão cotidiana, não pelo banimento do outro na desumanidade, mas por uma consciência aguda de que ele, quer seja amigo ou inimigo, é necessário para a perpetuação do eu. Os Achuar me ofereciam assim a demonstração a contrario de que os nacionalismos étnicos, em toda a eventual barbárie de suas manifestações, são menos uma herança das sociedades pré-modernas do que um efeito de contaminação de antigos modos de organização comunitária pelas modernas doutrinas da hegemonia estatal. O que a história fez ela pode desfazer, prova de que o tribalismo das nações contemporâneas não é uma fatalidade e que a nossa atual maneira de representar a diferença através da exclusão talvez possa algum dia dar lugar a uma sociabilidade mais fraterna. (Descola, As lanças do crepúsculo, 2006, pp. 459-460)

Sunday, April 19, 2009

[um início]

A bailarina era ou não era tão leve quanto parecia, pensou, enquanto a recuperava do chão. Sem mais corda na caixinha de música, não durante os girares remanescentes. A gritaria cessara, alguma canseira contornava os batentes das portas. Um pouco de terra no chão, nenhum caco de vidro, riscos de caneta em tecidos mais ou menos nobres. Alguma réstia de sol, e um canto qualquer de passarinho anunciou bom dia. Deixou-se desmontar na cadeira de couro tão envelhecido, alguns espasmos imperceptíveis a olho nu vagando pelo corpo. Qualquer desatenção na mente seria bem-vinda, eleitas foram as asas de cupim esparramadas no parapeito da janela; só aumentaram a aflição, e aos espasmos somaram-se arrepios na base da coluna, o grotesco pelo inseto que corrói. Bateria com os nós dos dedos no parapeito da janela para constatar o pó da madeira destruída. Uma brisa desmontaria a estrutura de uma casa nessa situação, pensou de relance; inspirou forte na ânsia de um vendaval.



Bailarina, de Miró.