Thursday, April 14, 2011

em suspiro

pois não é valsa nem bolero
eu não sei seu ritmo
não te acompanho
não gingo não sambo não sei como
pegar na sua mão
te mostrar uma lua que não seja óbvia
eu não sei ousar te dizer da lua
e não sei te me mostrar em ternura e desejo porque
é você que eu quero enluarar e só.

Tuesday, April 05, 2011

mal-me-quer

eu não derramei uma lágrima.

não derramei uma lágrima e não engoli nenhum choro
desse amor insosso que você me ofereceu
não ficou nem desgosto

Saturday, April 02, 2011

(outra) escola de belas-artes

(livre versão do poema de jacques prévert, que reproduzo em seguida)

usando de cesta o chapéu,
o pai pega uma bolinha de papel
e (não é nem por magia)
a faz mergulhar na bacia
e as crianças desconfiam
surge destemida
multicolorida
a grande flor japonesa
o nenúfar que admiram
por sua instantânea beleza
e silenciam
nunca, nunca, na memória
essa flor há de murchar
essa lírica água-flor
feita para eles
num minuto de cor
diante deles.

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original:

"L'école des beaux-arts", Jacques Prévert

Dans une boîte de paille tressée

Le père choisit une petite boule de papier
Et il la jette
Dans la cuvette
Devant ses enfants intrigués
Surgit alors
Multicolore
La grande fleur japonaise
Le nénuphar instantané
Et les enfants se taisent
Émerveillés
Jamais plus tard dans leur souvenir
Cette fleur ne pourra se faner
Cette fleur subite
Faite pour eux
À la minute
Devant eux.

Tuesday, March 29, 2011

jobiniana

porque o amor é descrente e a literatura quase infinita
faço ao menos um poema por dia e me apaixono
duas ou três ou cinco vezes na semana.

aos amores, não há dedicatória: imortalizo-os.

isso de mim exige renúncia e tédio
que remedio alternando vulgaridade, excessos,
e um meticuloso gestual cúmplice em vingar cada sonho que cai por [terra.

Sunday, March 27, 2011

breve ensaio sobre as estações (ii)

inverno


o inverno é o desafio à tranquilidade d'alma. é o tempo da lentidão e das intensas solidões todas em rotações por minuto sentidas. na europa, o inverno é o encontro consigo em xícaras de chá; nos trópicos, é chuva que encharca os destemidos e assusta os precavidos – a ambos angustia, e há todos os truques e práticas no anseio pela calmaria (eu, particularmente, sou adepta da queima de uma folha do ramo de palmeira bento, pedindo proteção à santa clara quando a tempestade desespera).

Thursday, March 24, 2011

breve ensaio sobre as estações (i)

verão

o verão nada mais é que a letargia. não; o verão é o êxtase, a catarse, a nudez em conforto porque quente. o verão não são gotas de suor; o verão é o sal que marca a roupa, é a boca seca e corpos que entre si deslizam no amalgamado de cheiro denso. o verão é a estação do sexo mais feroz e sensual, é a estação do vigor corporal que garante a tranqüilidade d'alma – porquanto não a contém.

Friday, March 18, 2011

coração bobo

foi um deslize sedutor.

um salto no raciocínio
aparentemente condenável mas
encantadoramente retórico quando se trata de assuntos do coração.

e eu rasguei meu peito
fazendo duma acrobacia barata
olhos brilhantes pelo salto mortal

Sunday, March 13, 2011

not supposed to hit

ela saiu para o trabalho não sem antes carregar na maquiagem um pouco mais do que o costume. pela noite indormida, o corpo já começava a pedir descanso antes das oito da manhã. um banho ora quente ora frio servira para dar realce e acalmar um pouco os hematomas recentes (a água sempre traz as dores pra superfície do corpo, e um roxo se espalhando na pele permite maquiar de dor-de-pancada o choro de sufoco, humilhação e desespero). antes de sair, passou café e alisou a gola daquele colarinho, a camisa impecável num cabide pendurado no puxador do guarda-roupas. tomou uma xícara que caiu de golpe no estômago em jejum. é que se maltratar também é bom, às vezes, quando a encruzilhada inexiste e ser cúmplice na agressão é a única possibilidade. saiu sem dizer palavra; ele folheava o jornal sem reclamar do café forte, a camisa agora ainda semi-abotoada. quando girou a chave já do lado de fora do apartamento, cravou fundo a unha do indicador direito nas costas da mão esquerda: a marca não a deixaria esquecer de pegar as roupas na lavanderia depois do expediente. sentiu o café revirar no estômago, enquanto descia as escadas do prédio: dali dois dias seriam anfitriões no jantar anual da família, e ela sequer tinha pensado no quê servir como entrada. tateou a bolsa, abriu o carro, revirou a pasta com as anotações para a reunião de apresentação dos primeiros resultados que presidiria assim que vencesse o trânsito da cidade. digitou 'bom dia. amo você' no celular, enviou pra filha que mora longe, e deu a partida.

imagem daqui

Saturday, March 05, 2011

um retrato a uma estrangeira

eu moro num país onde as pessoas morrem
de fome
de tiro à queima-roupa
de amores e ciúme
de acidente de trânsito

nunca ninguém morreu de fome nos meus braços.

soube de quem morreu depois de jogar futebol;
antes de nascer;
vi quem morreu de desistência do corpo
e de surpresa, também
vi quem morreu despencando
e vi corpos bonitos de mortos serenos

eu vi quem nasceu cabeluda do ventre da viúva
e quem renasceu encovada de força antes dos trinta

eu li cantos sobre cabelos de suicidas no rio,
esculachos quaisquer de poetas sobre o verdejar desses fios
mas antes disso

eu fui à missa de sétimo dia de uma suicida
que me sorria sempre quando confidenciávamos amores errados
e ainda antes disso

eu perdi a voz em batalhas esganiçadas

e me amarraram por qualquer descrença e me deturparam
a voz e a força e o delinear
e então sem me dar conta

eu passei a freqüentar igrejas e velórios
a sorrir mais, conversar com anjos
e ler notícias no jornal sobre gente na rua
com fome
com sangue e com morte
insistências fronteiriças
nos nossos países.

Wednesday, March 02, 2011

antielegia

eu te conquistaria
num piscar de olhos você sabe
já ter cedido aos meus encantos
quando quisesse
iria te despir tão lentamente
como da primeira vez

até o amanhecer
quando te levei café na cama
você sabe, eu te conquistaria
nos ovos mexidos,
no suco de laranja fresco,
nos horóscopos e na costumeira divisão dos cadernos do jornal

eu te conquistaria e é leve
certo e confortável, eu sei,
você me dedica seu amor mais sincero

eu te conquistaria e você
você virou os olhos vestida e com as pernas cruzadas
não como (guardo na memória) nua quando empantanada em meu gosto
você se levantou e deu as costas
e abandonou a cadeira enviesada
e você partiu de bicicleta com os cabelos bagunçados.

Monday, February 28, 2011

cosmológica

eu não sei qual é o gosto de canjica.
eu não sei que gosto tem canjica porque da primeira vez que comi canjica sentia só
gosto
de velório
de susto
de morte

eu não sei do gosto da canjica
como não sei dos seus sonhos e do futuro do mundo
porque os seus sonhos, quando a mim rascunhados, eram só silêncio
e o mundo me insiste em dissimular e se esquecer

por isso procuro
(e permito olhos brilhando)

danças em grupos em roda
histórias em perna-de-índio
chá ou café uma ou três vezes ao dia
colecionar bandeiras e,

quando não chove,
dependurar algumas na janela.

Thursday, December 23, 2010

febril

a poesia?
vai tão encrustrada em mim
(você que a assim deixou)
que já não a percebo,
os dias passam conta-goteando. desde que você partiu.

quer dizer
– você sabe porque as noites tem sido tão claras?
eu não prego o olho e culpo a lua
e pode chover e a lua pode
se nublar que continua
o clarão e o barulho da chuva no telhado
parece seu sibilo
eu quase arrepio
inspiro e seguro o lençol sob o queixo
embolo meus pés no cobertor
e encarinho-me o rosto antes do espreguiço.

expiro e você é quase um holofote
e não sinto meu estômago porque em sonho (quando há) seu perfume me
[enche d'água e me cega e acordo e tateio
e verto em mim o que há na mesa de cabeceira e me resfrio

e não há barulho que distraia
silêncio que entorpeça
palavra que instigue ou aconchegue
tanto quanto as suas doçuras irreveláveis.

então sigo meu dia e pinto e escrevo
pra você escrevo uma confusão de perfumes
e tento pintar outro silêncio
que não aquele seu de dizer amores e preencher
mas o silêncio que pinto não te tem e não me tem e não há cores e só há água
há água e desidratração e me lembro
– não se esqueça de respirar
, e respiro

mas se respiro me inflo de cores que só a nós pertenciam,
e eu não sei tê-las sem você. então
respiro e sou só edema. não há extravasares, não há quem contenha. me
[inflo.
e à noite choro, e a lua clara holofote é tanta e insiste
e machuca meus olhos já tão secos. e sou toda secura, então,
também em garganta e suor (que seca o dentro) e coração cansado e me
[esqueço das outras partes do corpo

deito exausta e se fecho os olhos ardem
quem dera de tesão quem dera
de choro ou cansaço. ardem de não saber mais nosso encontro, como arde
[meu dorso todo de não saber mais seu toque
e me assombra seu sorriso e preciso segurar minha cabeça com as mãos
e não respirar
e você é toda-beleza e com ternura me pergunta
e me assombra seu rosto seus músculos suas contrações sua pergunta
me assombra sua pergunta
de como anda a poesia.

Monday, December 20, 2010

poema de percepção do luto

Num rascunho de poema
descubro: só sertão em mim habita
desde o ano dos velórios.

Não são temas de esconjuro,
linhas tortas ou cascatas
de infatigados dramas, não.
São escritos circulares
insustentáveis pois sem centro;
é quase desespero
contido
pois não é.

Nem é só tristeza
nem amargor nem cansaço.
É insustentável peso sem
o reboque da leveza.

Tuesday, December 14, 2010

uma elaboração de sentires

cada vez que eu tomo um banho, sinto os cheiros de costume, eu me lembro de você. a sua ausência durou o tempo exato de um pote de condicionador. o tempo exato de experimentar outra regularidade, outro cheiro. outra reação e um diferente caimento dos meus cabelos depois de banhos extraordinários. com outros ritmos, outros cheiros, outras aflições e um risco diferente marcando o vapor no espelho.

quando eu era criança, acumulava desenhos nos espelhos e nos vidros embaçados. no banheiro, depois do banho, e dentro do carro, quando chovia. eu sempre percebia que os desenhos nunca sumiam. a marca leve de cada um voltava com o novo embaçado, e eu, temperamental, oscilava sempre entre reforçar os traços muitíssimo bem-acabados ou dedicar-me a novas expressões.

hoje meu banheiro guarda em relicário um mosaico. traços que se justapõem, às vezes se sobrepõem, algumas vezes uma emenda faz surgir um novo desenho que eu só reparo muito tempo depois. me orgulho do meu mosaico; se há desbotamentos, superposições, desrespeitos estéticos e repetições, sei que tudo aparentemente opaco e embaraçado tem seu lugar, e são esses lugares os mais nobres. todos, cada um. há quem diga que é impressionista demais, esse meu mosaico, que só a mim me diz respeito e pouco comunica ao mundo. pode ser. me delicio em saber da minha história, e só eu, e só dela.

bicicleta

a bicicleta é a brincadeira mais libertadora. claro, quando seguidas as regras de como deve ser. não pode ter aquelas rodinhas, aquilo é pior que ensaio. andar de bicicleta é mais que improviso. tudo bem, tudo bem, ninguém nasce sabendo improvisar. o improviso só é bom depois de corpo e alma em exato equilíbrio entre condicionamento e liberdade. e não é ensaio que proporciona isso, não: é mergulhar, se empantanar em experiência. e é por isso (eu sei) que tem muito adulto bicicletador por aí. mas não basta vontade, não. tem que abrir, rasgar o coração.

Thursday, December 09, 2010

amarelinha

amarelinha é das brincadeiras mais gostosas: dá pra brincar sozinho, junto, misturado, competindo, ajudando. quando eu era criança, era difícil acertar a pedrinha nas casas mais longes (do sete em diante), então todo mundo juntava os pés, assim, e fazia casinha, que é como se fosse um gol (mas não é gol porque não tem trave nem rede, é só o pé, mesmo), pra segurar a pedrinha que a gente jogava (porque criança não sabe medir força, né, e as casas das amarelinhas também nem são tão grandes assim, então é fácil mesmo errar). e aí era só ir pulando, equilibrando, jogando a pedra e pegando, de um jeito tão ritmado que nem tem como confundir a ordem do que fazer.

Sunday, November 28, 2010

memórias, as futuras XXVII

a cidade do meu coração tem rios que chegam caudalosos e, lamacentos que se tornam, perdem o movimento. O empantanamento não sei dizer por donde ocorre; talvez por adensamentos acompanhados (é a tendência) de inação. inação quer pelo encanto, quer pelo sufocamento. mas arrisco dizer: tal empantanamento não é mais que circunstancial. acontece conforme as acontecenças - habitantes do meu coração - são nomeados. sim, nesse vai-e-vem:
1- quando os acontecimentos (as acontecenças, prefiro) sabem-se povo da cidade do meu coração e
2- quando a eles dá-se nomes não-inventados, em tentativa (e sob argumento) de comunicação. (porque os adensamentos são agora feitos de gesso)

mas felizmente tem-se que: o membro engessado coça, exige atenção. o percurso pode ser árduo para recuperação do vigor, do viço, da forma. exaurido em disciplina, o coração se orgulha quando de novo se movimenta!

- [isso deve ter efeito de travessão, entre linhas]

mas logo e de novo vêm os nomes e lá vamos tornar pântano novamente o membro-rio então agitado. como romper com esse ciclo vicioso? abster-se de nomear não adianta (há de se prezar pela comunicação). tampouco mudar os nomes (é trocar seis por meia-dúzia). não há como quebrar o ciclo?

(sem título por enquanto)

[a vida] quer da gente é coragem.
guimarães rosa
Não se acovarde

Não há tempo manso
ou espera que cure.

Há furacões e seus centros,
olhos de tigre cuja
menina é cardiopata
(não há ritmo)
Há a exigência da coragem.

Mais nada.

Thursday, November 04, 2010

corazón

tirei o relógio de parede que ficava na sala de casa. dependurei, tirei as pilhas e o abandonei em cima da pilha de revistas (intocadas há semanas). podia ser o seu cheiro, ou outro, tanto faz, que o tic-tac do relógio me trouxesse. mas não traz mais nada. como pode um objeto ter ou não ter história, aflorar-nos tanto na memória? tirei também o pó de um ou dois dias acumulado nos santos que circundavam meu cantinho espiritual. suspirei, sim, não tem como abrir o coração sem suspirar. às vezes abre-se sem sequer a intenção de vasculhar, mas os suspiros afloram e se fosse diagnosticar eu diria: cardiopatia grave, porque o coração retumba e ecoa, e a respiração muda (arfante ou contida, passa-se a percebê-la, e respiração é dessas coisas que quando se percebe é porque chama a atenção, e se chama atenção é porque algo de extraordinário há, e se é extraordinário pode bem ser errado, e aí nos preocupamos, quando é com alguém querido, e suspiramos, quando é dentro da gente, mesmo, porque o suspiro é o diagnóstico que o próprio coração dá à cardiopatia). virei-me, abri as cortinas, não teve brisa a brindar-me: é verão neste hemisfério, e as noites cada vez mais densas.

Wednesday, November 03, 2010

abóboras

com esse post inauguro uma nova sessão aqui no blog: receitas! (que eu faço e testo antes, pra ver se fica gostoso)

a de hoje então é: macarrão com molho branco, abóbora e champignom.

fazer o macarrão todo mundo sabe, né? ferver a água, colocar sal, o macarrão que você preferir e - isso é o mais importante pra toda receita de macarrão que se preze! - prestar atenção no tempo de cottura, que é pro macarrão não ficar nem muito duro nem muito mole, mas al dente!

numa panela separada, colocar alho, cebola, refogar por um tempo até ficar aquele cheiro bom, e douradinho, e jogar as abóboras já picadas (em pedaços grandes). colocar um pouco de sal.

o molho branco tem vários modos de fazer. dá pra fazer com creme de leite, mas eu prefiro sem, que fica mais levinho. então é só colocar um pouco de manteiga numa outra panela, deixar derreter. num copo, misturar leite com maizena, misturar bem. jogar um pouco de leite (sem maizena) na panela, e ir jogando aos poucos o leite com maizena, sempre mexendo bastante, que é pro molho engrossar. aí quando der o ponto que você gosta (mais grosso ou mais ralo), é só jogar tudo o que tinha na panela com a abóbora nessa outra panela.

nesse meio tempo, você mesmo (ou alguém, já que é gostoso também cozinhar junto com alguém) cortou os champignoms, então é só jogá-los na panela também. deixar o fogo ainda um pouquinho ligado, pra tudo ficar mais curtido.

e pronto! é só desligar e misturar com o macarrão. :)

uma dica é ralar um pouco de noz moscada por cima do molho, e dar uma boa misturada, antes de servir (depois de ter desligado o fogo). noz moscada é um dos meus temperos favoritos, fica bom em tudo! mas tem que por só um pouquinho, porque é forte. colocar queijo parmesão ralado por cima também cai muito bem!