Sunday, February 12, 2012

da fruição


durmo, acordo e
te beijo
nessa ordem:
em fogo e paina
a vida flui.

não sonho e não
se inundam meus olhos quando
te sinto os lábios nos meus:
em febre e letargia
a vida paira.
em café, sons, pudores.
acordo em sebo e não é teu corpo
não é teu corpo em meu tato e
sei numa virada brusca:
é
afogar e logo
a vida plana.

movimento-me
por me saber tua
numa desordem qualquer
logro-te um afago:
a vida flui.

Tuesday, February 07, 2012

da vida gentil: segundos de menino na rua

o menino de uniforme escolar pergunta por que o violinista toca na rua; o pequeno corpo do menino conduzido pela mãe com precisão, o pescoço insistindo na direção do estridente que inundava também os meus ouvidos. páram no cruzamento.
- para ganhar dinheiro, responde a mãe.
o menino aceita: é desfeito o absurdo do cenário. há motivo e razão e, dessa feita, harmonia. ele atenta ao semáforo de pedestres e prepara o corpo para o impulso. atravessará à minha frente quando da luz verde, segurando obstinado sua mochila de rodinhas.

Friday, December 30, 2011

descompasso

ele sempre foi delicadíssimo
e praticante de triathlon
numa prova ousada
jogou-se de helicóptero mais de uma vez
caiu no mar em pose de cinema: junto com o outro
que, braços em concha, o preparava para recebê-lo
e eu soube em sonho que se receberam, na lentidão do sob a água
emergiram e continuaram

e como sempre é quando
quebra-se o ritmo quando
não se reconhece a mudança do em-torno
quando emergiram e continuaram
machucaram calcanhares

Sunday, November 27, 2011

breve ensaio sobre as estações (iii)

outono

não se sabe que é outono olhando pro céu; no outono a gente olha pra dentro como quem olha pro chão pra não tropeçar. não tem encontro, não tem susto, não tem paixão. outono é vento e vento e vento e tempo do prazer de pisar em folhas secas. é vernal o prazer fugidio e sutil porque suspenso e portanto enganador: transmutar volatilidade em permanência não é justo. e por isso a ventania.

expiração

'qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura'.
guimarães rosa

é no seu abraço que eu sou um pouquinho mais sã,
quando sinto sua pele dar alento à loucura.
é seu corpo todo que me benze, me dá febre curadoura
e me restaura em graça, riso e paz.
é seu sorriso que me oferece mais
confiança no mundo que ancora
minha coragem rainha,
descoberta e fugidia
num tempo de soluço
é no seu braço meu reino destemido,

e em fé e força esgarço, sem pudor nem ranço de cansaço,
a bainha da sua roupa em que cravo
minh'alma e minhas unhas, quando no seu abraço.

Saturday, November 05, 2011

benvinda

o que denuncia um novo amor não é um novo orgasmo (isso é transa casual), um novo velho mesmo jeito de atender ao telefone (pode ser timidez), nem as tão batidas borboletas no estômago (é claro que las hay, pero desde a pré-escola). o que denuncia um novo amor é aprender um novo jeito, o jeito dela, de arrumar a cama. e tomar gosto. e zelar pela cama arrumada, vez ou outra, antes de sair.

olavo bilac

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e alma de sonhos povoada eu tinha.

E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida,
nem o pranto os teus olhos humedece,
nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.

Thursday, October 13, 2011

um dia

meu amor, eu quero ao seu lado
um dia amarelo
um dia desses em que a luz do sol já nos amanhece amarela
e logo em seguida o prédio que espio da janela se amarela
amarelo é o menino que grita sob a mangueira
e as águas que ela esguicha só refletem douradas o amarelo
e é assim um dia de carinho confortável
o amarelo que acarinha as plantas do parapeito da sua janela
que tombam e se esticam e esgueiram todas pra espiar
essa sua toda luz que também estica ressoa e escorre
e preenche de amarelo meus olhos fechados e minha rouquidão
é amarela minha ausência de voz
qualquer movimento doce e cheio da mais sincereza possível
é inteiro amarelo um dia assim
que, infindo, não tem meio nem duração:
suspende-se e fica pelo tempo que for.

Monday, August 08, 2011

mourning

enquanto ouço confissões a olhos brilhantes
de sonhos reveladores
transbordantes d'alento
fico eu cá com minh'aflição:
sonho elefantes rajados de rosa
que esguicham água em silêncio
e nem sei se me respingo;
não porque acordo, mas porque decorre
sono pesado e sem sonhos,
e nada recordo ao amanhecer.

Sunday, July 24, 2011

domingo no parque

um bocejo se confunde com um piscar d'olhos
e cores me impressionam
(sedutores artifícios):

fogos
arco-íris casual sob medida a meus olhos
filmes fotográficos para derreter o céu
(o sol ofusca e meus óculos dão ao dia ares de praia)

cuja brisa me traz
o sol nos meus cabelos
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o sol me faz mais loira ternamente mais loira
e a brisa é mais um bocejo.

Tuesday, July 19, 2011

corpo de mulher

fitei a parede e não vi mais nada. seu cheiro é áspero, ele dissera, suas mãos em mim e eu sem saber. havia trincos na parede, resquício de umidade (são sempre as outras mesmas histórias acumuladas), e os traços imprevistos rodavam ao meu redor. nós dois no breu e tudo girava. me desorientei pelo seu suor e recebi toda a agressão que contém um corpo de homem que é pele e sangue e tanto mais que não me permitem tentar nomear.


.em busca de outra semântica.

Sunday, June 19, 2011

citadina

há manchas no meu corpo que seriam julgadas
tamanha a lascívia, tamanho o ocaso,
tamanha a luxúria que evocam e contêm

com isso que chamam pó compacto
então as cubro
com lenço e camisa e casaco e calça e renda
e pó

que em nada compactua com meus desejos de mulher.

nessa multidão que nada me oferece além de roçares

escondo e camuflo e me enquadro mas, ah!,
há sempre o indisfarçável e eu rio
rio fluido sob o sol que desembaraça tantos encontros-presentes.

Thursday, June 16, 2011

camomila

é hoje que eu durmo bem, meu amor,
apesar da sua ausência.

Wednesday, June 08, 2011

retratos urbanos - a mulher do despachante

cruzou o meu caminho – e não o contrário – uma mulher de cabelos ressecados, talvez com corte, talvez ressecados apesar da devoção e do cuidado, talvez pelo tempo seco que vem com a chegada do outono, ou pelo uso equivocado de produtos de má qualidade que são o que ela pode comprar. ela, que trabalha num despachante, e antes das 16:00 tinha ainda um copo cheio de café ao seu lado. um copo americano, de bar, o mesmo que, aposto, ela enche de cerveja aos finais de semana. não reparei se fumava, talvez sim, para compor a personagem perfeita. talvez não. talvez tenha filhos, e um deles estude no exterior. talvez o marido – ou a amante – lhe presenteie com jóias vez ou outra. talvez ela já tenha visto um jogo do corinthians no estádio, talvez lido um romance do paulo coelho ou do machado de assis. talvez ela nutra uma paixão por comida asiática, talvez cozinhe muito durante seu final-de-semana para congelar parte da comida para comer durante a semana. talvez já tenha experimentado cocaína, tomado leite com manga, feito uma cirurgia de alto risco, visto o mar. cruzou o meu caminho, ela, que passa dos trinta e talvez beire os quarenta anos, uma pele amorenada, cruzou, ela, porque me despertou vontade de saber tanto a seu respeito. cruzou o meu caminho, e não contrário, porque enquanto passava eu defronte o despachante onde trabalha – desde quando? –, ela sequer desviou os olhos da tela do computador.

Sunday, May 22, 2011

uma bebida mais forte

porque essa insistência em vestígios de amor numa relação tão violenta. porque os pés gelados num dia frio, zanzando pela casa, num quase automatismo de auto-flagelo. porque os músculos doloridos de uma noite sem memórias. porque as brechas, as frestras, o intransponível, o indizível, o indecifrável e a espreita. porque o erro, e só ele, é que faz sentido, confidenciaram-me. agarrei-me a essa máxima e não solto até o soluço passar.

Thursday, May 19, 2011

da vista da minha janela

a vista da janela do meu quarto é o muro do quintal. entre o muro e a minha janela fica uma máquina de ginástica que meu pai comprou e enferrujou, de vez em quando uma bicicleta encostada, de vez em quando meu cachorro e quando eu chamo ele pela janela ele abana o rabo e faz aquele chorinho de cachorro porque ele quer chegar mais perto de mim mas não pode por causa da máquina de ginástica enferrujada, de vez em quando da bicicleta e das grades e da tela que tem na minha janela, então mesmo que meu cachorro conseguisse colocar suas duas patinhas na beirada da janela ele não ia conseguir me dar nem uma lambidinha porque tem uma tela pra proteger de pernilongos mas ela não adianta nada porque minha casa é infestada de pernilongos então na verdade essa tela não serve pra nada e ainda por cima não deixa meu cachorro me dar uma lambidinha de carinho.

Sunday, May 08, 2011

em sagrada festa

os anjos que me circundam (eu sei)
são anjos desfigurados com cabelos cinzentos e
asas (como devem tê-las os anjos).
são fortes e sorriem e dançam e eu também sei
que se alegram quando me ilumino.

digo, por isso às vezes
me brotam lágrimas e falta o ar
- porque esses anjos querem
(esquecem sua condição celestial)
brindar a vida e no regozijo-tão se excedem
e vêm a mim todos alegres pelo tempo que há.

Thursday, April 14, 2011

em suspiro

pois não é valsa nem bolero
eu não sei seu ritmo
não te acompanho
não gingo não sambo não sei como
pegar na sua mão
te mostrar uma lua que não seja óbvia
eu não sei ousar te dizer da lua
e não sei te me mostrar em ternura e desejo porque
é você que eu quero enluarar e só.

Tuesday, April 05, 2011

mal-me-quer

eu não derramei uma lágrima.

não derramei uma lágrima e não engoli nenhum choro
desse amor insosso que você me ofereceu
não ficou nem desgosto

Saturday, April 02, 2011

(outra) escola de belas-artes

(livre versão do poema de jacques prévert, que reproduzo em seguida)

usando de cesta o chapéu,
o pai pega uma bolinha de papel
e (não é nem por magia)
a faz mergulhar na bacia
e as crianças desconfiam
surge destemida
multicolorida
a grande flor japonesa
o nenúfar que admiram
por sua instantânea beleza
e silenciam
nunca, nunca, na memória
essa flor há de murchar
essa lírica água-flor
feita para eles
num minuto de cor
diante deles.

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original:

"L'école des beaux-arts", Jacques Prévert

Dans une boîte de paille tressée

Le père choisit une petite boule de papier
Et il la jette
Dans la cuvette
Devant ses enfants intrigués
Surgit alors
Multicolore
La grande fleur japonaise
Le nénuphar instantané
Et les enfants se taisent
Émerveillés
Jamais plus tard dans leur souvenir
Cette fleur ne pourra se faner
Cette fleur subite
Faite pour eux
À la minute
Devant eux.