cemitério faz que rima
mas não rima com velório.
rima com impropério, despautério, deletério
e contrariando normas
e tudo que me dizem de sério
tento fazer velório rimar
com o som do meu coração
esfacelado, em desespero
que espero transpareça quando rio.
Tuesday, July 17, 2012
Monday, May 14, 2012
carinho no rosto
quero a tua mudez
teu riso leve e frouxo
e as plantas que
insistes aguar todas as manhãs.
quero as manhãs mornas
ao seu lado
com pouco ou nenhum
som.
quero teus cadernos
preferidos do jornal
tua escova de dentes no
banheiro
e teus fios de cabelo
no chão.
não te quero perto senão quando te quero
pouco mais que três vezes na
semana
quando te quero plena,
inteira e entregue
sob a luz da janela que
escolheres.
notívaga
parte da noite
toda ternura recebida
parte em ti meu desejo
parte da noite volúpia
parte sono da noite em
fuga
parte teu olhar sobre
mim
parte da noite sagaz
teu corpo em tato
que jaz
todo outro sentido
parte da noite
deixa vestígios
parte da noite calor
e não durmo
não dormimos
sei que não dormes
parte da noite sufoca
teu corpo quando
lembrança
parte da noite me
arranca
suspiro, suspiros e
parte
parte da noite é
dureza
quando da noite fugaz
parte tudo quanto toco
na noite parte da noite
meu amor,
meu amor, parte
da noite, meu amor.
Tuesday, April 24, 2012
sobre linhas I
peço-te que imagine
uma linha.
imagine o diâmetro
exato de seu fio
e se existe ou não um
buraco possível de agulha para se fazer travessia.
imagine sua cor,
nuançada entre um tom de céu ou areia
ou talvez nenhum desses
mas aproximadas cores de lembrança
ou precisas e
irresolutas, inelutáveis cores de sonho
quando num continuum
diálogo de vigília e só se sabe sonho porque
não sentes dor
o absurdo
denuncia
o despertar deixa
a dúvida e portanto: sonho
peço-te que então
imagine de que é feita essa linha.
se do mais comum
material encontrado na natureza
encapsulado e doravante
produzido
em fábricas por
homens comuns
em vilas por
eco-propostas
e consumido como
requinte;
se de um raro material;
quão denso;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se escapa, desfia, desfaz, solta pedaços bolinhas farpas pó no [manuseio;
se num emendo
artesanal;
mais ou menos longo;
se sob intervenção
infantil multicolorida e dura (pintada com guache) [e esgarçada (do
contato com as unhas);
quão maleável.
não me diga nada dessa
linha e não a tente reproduzir.
essa linha é o que te
é e não me é possível compreendê-la ou imaginá-[la.
podemos, contudo, tomar
aulas de arte
e aprender teorias
contemporâneas e estudar produções de [assemblage
estudar construção de
esgoto e sustentação de casa (é claro que a [linha pode vingar)
enforcar um inimigo
dançar melodias e
bater palmas ritmadas
saltar do ônibus no
ponto errado
suar a camisa ao passar
por alfândegas
cozinhar massas
acompanhadas de peixe fresco
colecionar rótulos de
importados e pedras não-lapidadas
arriscar um lançamento
de pedra e receber bombas que nos fazem [correr
tirar roupas do varal
tamborilar na espera
e fazer, no descanso,
ponto-cruz.
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etnografismos,
exercício,
lirismo intelectual,
notas,
síntese,
teoria,
versos
Monday, April 23, 2012
à parte as objeções
meu tempo é o abafado
das caixas de sapato
de bico-fino sob outras
caixas tantas
que se logra abrir com
cuidado
em tardes amenas,
antevésperas de
grandes eventos.
meu tempo é o embaçado
desigual da vidraça do banco de trás
quando as crianças
fazem apostas mentais sobre a corrida das gotas de chuva
e desenham até onde a
mão alcança
repetidas sempre vezes
e a gordura se
encrusta.
meu tempo é o
encurvado de uma persiana
da janela central de
uma pequena casa
onde por apreço à
claridade essa persiana não tem uso
e seus cantos suspensos
sustentam
o bicho todo, envergado
em simetria.
meu tempo podem ser
coleções comuns
como vinis empoeirados,
promoções de
salgadinho,
pontas de lápis,
papéis.
desde que tão
bem-guardadas,
lembresquecidas
como os entres, os
desiguais, os desusos,
em que a sutileza
impera e desarma mas
pungentes que são, não
perdoam.
de uma noite de abril
ela ri como deve dançar
(suponho): cheia de si.
a ela desfio teoremas
de vida que arremata, tenaz:
“nega acertos de uma
vida tão dual!”
liquefaz meus
misterinhos e me esbofeteia a cara;
me ensina: tampouco é
original acreditar no erro;
rebato com meu silêncio
clamando por um carinho
desponta cumplicidade e
extravasa e finjo
desperceber o esboço
de nós;
é croqui, desenho
atravancado.
Monday, April 16, 2012
'sampa'
só me aconselham a sair dessa cidade
eu finco o pé e finjo não te ter saudade
digo que o certo é vaguear enquanto posso
e a multidão me acalenta
e digo e volto pro calor do teu regaço
na pouca fé restante nessa parceria
no sono meu desejo errante se vicia
e a prontidão me atormenta
e te assemelhas em virtude injuriada
à retidão da fumaça que me alimenta
e é por isso que vagueio e só tropeço
na mansidão que alardeia enquanto arde
eu finco o pé e finjo não te ter saudade
digo que o certo é vaguear enquanto posso
e a multidão me acalenta
e digo e volto pro calor do teu regaço
na pouca fé restante nessa parceria
no sono meu desejo errante se vicia
e a prontidão me atormenta
e te assemelhas em virtude injuriada
à retidão da fumaça que me alimenta
e é por isso que vagueio e só tropeço
na mansidão que alardeia enquanto arde
ps: essa é uma letra de música que fiz pra uma amiga musicar!
Tuesday, April 10, 2012
(sem título)
detesto acordar e ver seus cabelos brancos.
detesto porque me lembram:
tempo é resoluto e impiedoso
não fui ensinada
velórios
amores
auroras
detesto seus cabelos brancos
dizem
coração despedaçado não se cura
até o fim há novidade
(desespera-me)
nada permanece
e é por isso
que durmo tanto pelas manhãs.
seus cabelos dizem cabelos brancos
e ainda não sei dizer que te amo.
Friday, March 02, 2012
azulejo
azulejo é um céu longínquo,
é o pássaro que ri no gorjeio hábil.
pode ser apelido carinhoso de banzo
vermelho, preto,
negro, índio,
azulejo é rastro e cheio
da incertitude é mestre.
azulejo reina com mastro e véu
e é café num copo sujo.
é sempre sempre intimidade
e também por isso sufoca:
azulejo encrustra.
azulejo pode ser
carrinho de bebê ao sol,
meneio de namorada
e seu sabor quando lento.
azulejo é todo-somente sublime
corpo em profunda terra
ou não é.
é o pássaro que ri no gorjeio hábil.
pode ser apelido carinhoso de banzo
vermelho, preto,
negro, índio,
azulejo é rastro e cheio
da incertitude é mestre.
azulejo reina com mastro e véu
e é café num copo sujo.
é sempre sempre intimidade
e também por isso sufoca:
azulejo encrustra.
azulejo pode ser
carrinho de bebê ao sol,
meneio de namorada
e seu sabor quando lento.
azulejo é todo-somente sublime
corpo em profunda terra
ou não é.
Sunday, February 12, 2012
da fruição
para tatiana fadel
durmo, acordo e
te beijo
nessa ordem:
em fogo e paina
a vida flui.
não sonho e não
se inundam meus olhos quando
te sinto os lábios nos meus:
em febre e letargia
a vida paira.
em café, sons, pudores.
acordo em sebo e não é teu corpo
não é teu corpo em meu tato e
sei numa virada brusca:
é
afogar e logo
a vida plana.
movimento-me
por me saber tua
numa desordem qualquer
logro-te um afago:
a vida flui.
Tuesday, February 07, 2012
da vida gentil: segundos de menino na rua
o menino de uniforme escolar pergunta por que o violinista toca na rua; o pequeno corpo do menino conduzido pela mãe com precisão, o pescoço insistindo na direção do estridente que inundava também os meus ouvidos. páram no cruzamento.
- para ganhar dinheiro, responde a mãe.
o menino aceita: é desfeito o absurdo do cenário. há motivo e razão e, dessa feita, harmonia. ele atenta ao semáforo de pedestres e prepara o corpo para o impulso. atravessará à minha frente quando da luz verde, segurando obstinado sua mochila de rodinhas.
Labels:
brasilidade,
cenas de megalópole,
da vida gentil,
etnografismos,
verdade
Friday, December 30, 2011
descompasso
ele sempre foi delicadíssimo
e praticante de triathlon
numa prova ousada
jogou-se de helicóptero mais de uma vez
caiu no mar em pose de cinema: junto com o outro
emergiram e continuaram
e como sempre é quando
quebra-se o ritmo quando
não se reconhece a mudança do em-torno
quando emergiram e continuaram
machucaram calcanhares
e praticante de triathlon
numa prova ousada
jogou-se de helicóptero mais de uma vez
caiu no mar em pose de cinema: junto com o outro
que, braços em concha, o preparava para recebê-lo
e eu soube em sonho que se receberam, na lentidão do sob a águaemergiram e continuaram
e como sempre é quando
quebra-se o ritmo quando
não se reconhece a mudança do em-torno
quando emergiram e continuaram
machucaram calcanhares
Sunday, November 27, 2011
breve ensaio sobre as estações (iii)
outono
não se sabe que é outono olhando pro céu; no outono a gente olha pra dentro como quem olha pro chão pra não tropeçar. não tem encontro, não tem susto, não tem paixão. outono é vento e vento e vento e tempo do prazer de pisar em folhas secas. é vernal o prazer fugidio e sutil porque suspenso e portanto enganador: transmutar volatilidade em permanência não é justo. e por isso a ventania.
expiração
'qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura'.
guimarães rosa
é no seu abraço que eu sou um pouquinho mais sã,
quando sinto sua pele dar alento à loucura.
é seu corpo todo que me benze, me dá febre curadoura
e me restaura em graça, riso e paz.
é seu sorriso que me oferece mais
confiança no mundo que ancora
minha coragem rainha,
descoberta e fugidia
num tempo de soluço
é no seu braço meu reino destemido,
e em fé e força esgarço, sem pudor nem ranço de cansaço,
a bainha da sua roupa em que cravo
minh'alma e minhas unhas, quando no seu abraço.
Saturday, November 05, 2011
benvinda
o que denuncia um novo amor não é um novo orgasmo (isso é transa casual), um novo velho mesmo jeito de atender ao telefone (pode ser timidez), nem as tão batidas borboletas no estômago (é claro que las hay, pero desde a pré-escola). o que denuncia um novo amor é aprender um novo jeito, o jeito dela, de arrumar a cama. e tomar gosto. e zelar pela cama arrumada, vez ou outra, antes de sair.
olavo bilac
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e alma de sonhos povoada eu tinha.
E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo... Na partida,
nem o pranto os teus olhos humedece,
nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e alma de sonhos povoada eu tinha.
E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo... Na partida,
nem o pranto os teus olhos humedece,
nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.
Thursday, October 13, 2011
um dia
meu amor, eu quero ao seu lado
um dia amarelo
um dia desses em que a luz do sol já nos amanhece amarela
e logo em seguida o prédio que espio da janela se amarela
amarelo é o menino que grita sob a mangueira
e as águas que ela esguicha só refletem douradas o amarelo
e é assim um dia de carinho confortável
o amarelo que acarinha as plantas do parapeito da sua janela
que tombam e se esticam e esgueiram todas pra espiar
essa sua toda luz que também estica ressoa e escorre
e preenche de amarelo meus olhos fechados e minha rouquidão
é amarela minha ausência de voz
qualquer movimento doce e cheio da mais sincereza possível
é inteiro amarelo um dia assim
que, infindo, não tem meio nem duração:
suspende-se e fica pelo tempo que for.
um dia amarelo
um dia desses em que a luz do sol já nos amanhece amarela
e logo em seguida o prédio que espio da janela se amarela
amarelo é o menino que grita sob a mangueira
e as águas que ela esguicha só refletem douradas o amarelo
e é assim um dia de carinho confortável
o amarelo que acarinha as plantas do parapeito da sua janela
que tombam e se esticam e esgueiram todas pra espiar
essa sua toda luz que também estica ressoa e escorre
e preenche de amarelo meus olhos fechados e minha rouquidão
é amarela minha ausência de voz
qualquer movimento doce e cheio da mais sincereza possível
é inteiro amarelo um dia assim
que, infindo, não tem meio nem duração:
suspende-se e fica pelo tempo que for.
Monday, August 08, 2011
mourning
enquanto ouço confissões a olhos brilhantes
de sonhos reveladores
de sonhos reveladores
transbordantes d'alento
fico eu cá com minh'aflição:
sonho elefantes rajados de rosa
que esguicham água em silêncio
e nem sei se me respingo;
não porque acordo, mas porque decorre
sono pesado e sem sonhos,
fico eu cá com minh'aflição:
sonho elefantes rajados de rosa
que esguicham água em silêncio
e nem sei se me respingo;
não porque acordo, mas porque decorre
sono pesado e sem sonhos,
e nada recordo ao amanhecer.
Sunday, July 24, 2011
domingo no parque
um bocejo se confunde com um piscar d'olhos
e cores me impressionam
(sedutores artifícios):
fogos
arco-íris casual sob medida a meus olhos
filmes fotográficos para derreter o céu
(o sol ofusca e meus óculos dão ao dia ares de praia)
cuja brisa me traz
o sol nos meus cabelos
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o sol me faz mais loira ternamente mais loira
e a brisa é mais um bocejo.
e cores me impressionam
(sedutores artifícios):
fogos
arco-íris casual sob medida a meus olhos
filmes fotográficos para derreter o céu
(o sol ofusca e meus óculos dão ao dia ares de praia)
cuja brisa me traz
o sol nos meus cabelos
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o sol me faz mais loira ternamente mais loira
e a brisa é mais um bocejo.
Tuesday, July 19, 2011
corpo de mulher
fitei a parede e não vi mais nada. seu cheiro é áspero, ele dissera, suas mãos em mim e eu sem saber. havia trincos na parede, resquício de umidade (são sempre as outras mesmas histórias acumuladas), e os traços imprevistos rodavam ao meu redor. nós dois no breu e tudo girava. me desorientei pelo seu suor e recebi toda a agressão que contém um corpo de homem que é pele e sangue e tanto mais que não me permitem tentar nomear.
.em busca de outra semântica.
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