Tuesday, June 09, 2015
Thursday, April 24, 2014
desse tempo
hoje não choveu
ninguém morreu
perdeu a casa
o colchão a TV que
ainda faltam
oito prestações
nenhum bebê
de mãe endividada irmã
passando a infância passando
roupas num tempo que
diz
que há trabalho por
fazer é preciso trabalhar é preciso pagar
as prestações comprar
leite e um chinelo para
a escola que não
ensina quantas roupas engomadas quantas golas
cabem numa hora em que
nenhum
nenhum bebê foi levado
pela enchente
que não aconteceu.
Thursday, September 26, 2013
diagnóstico
é vertigem que me dá esmaga
uma das vértebras da
minha cervical estanca
proíbe segura é
barreira para
meu sangue correr livre
lívida
o armário dança
dançam livros
coloridos dança
qualquer coisa fora do
lugar é na minha cabeça, é tudo
na sua cabeça mas o
sangue
o sangue não flui não
jorra não ferve
o sangue não é meu
sangue sangue em meu
próprio corpo
é fluido e não flui
no entanto
embaça
mas é só vertigem,
vertigem pouca
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poema feito de chá
minha espera permite
o aprendizado da água
–
ebulição é
espetáculo
de tanto ensaio de
ritmo
minha espera exige
o aprendizado do corpo:
estar montanha,
saber de si
minha espera ensina
permissiva
meu coração em
fervura.
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Monday, August 19, 2013
trabalho
mastigo esse batom
amanteigado
sei que sua pele quase
chora
coisas, coisas, coisas
passam em sonho
(a bolsa de tecido
mais bonito
presente ofertado por
tabela sob
força das
circunstâncias)
não se maltrate eu te
digo em mantra
acendo – acenda –
uma vela branca
cuide do corpo e da
casa
perfumar-se é oração
que sorte ter alguém
no quarto ao lado.
amar de dia e, de
noite, ser cavalo alado.
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Sunday, April 14, 2013
I – precisão de desertos
por causa de tati
fadel
preciso dos desertos e
é por isso que
atraso meu relógio
trabalho na madrugada
finjo que durmo quando
me beijas.
preciso dos desertos
para estar no mundo.
preciso dos desertos.
neles me permito,
neles me concentro,
neles flui toda
rebeldia que invento.
são emudecedores
estarrecedores
assombrosos;
só assim cuido da
casa,
reviso textos,
tomo coragem e saio de
casa,
pego o metrô,
trabalho.
o deserto é um gel no
meu cabelo
um sobretudo em clima
ameno
abundância de moedas
empilhadas na estante
o deserto contém meus
livros
e a concentração para
lê-los
o deserto expulsa notas
comprovantes recibos
e seus bilhetinhos de
amor.
no deserto estou só,
sem reconhecimento
nem possibilidade,
sem alarme nem surpresa
nem quentura de
companhia
pra suportar o peso do
mundo
deserto, preciso;
assim precisa ser.
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Thursday, February 21, 2013
ficou jardim
passei o dia vendo o
céu da janela do meu quarto.
vibrante paleta de
cores
calmas nuvens desatinos
soturno luar em senda
entendi
quando do quase sem-luz
mas era
desviei, olhei cimento
e gramado e
entendi
na permanência sutil
do fora
entendi o que você
quis me dizer quando disse que ficou jardim.
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Tuesday, February 12, 2013
por ocasião da descoberta de uma nascente
nasce-se
só
diante de encantados
– não pelo
mistério nascente, mas pela beleza –
sem história (nasce-se
com o peso
do encontro tácito
suposto
– mas nascer é
brotar e só se sabe
do fundo da terra
da terra
celeuma magma placas
tectônicas.
o brotar é em-si-mesmo
e é por isso que o rio
flui.
Monday, February 11, 2013
[quando eu morrer]
quando eu morrer
jamais plantem flores
na terra sobre mim
não me dêem lápide
sepultura não encravem
minhas datas em pedra
nenhuma
deixem-me
ao léu
meu epitáfio será
dente-de-leão
como praga
espalhando-se na terra.
Saturday, October 27, 2012
haikai VI
calçada, cimento fresco.
com árvore, o vento
fossiliza a primavera
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haikai V
dobra vinca prende fura
como já nascida
bailarina da costura
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haikai IV
manhã de feriado
meu despertador
maritacas no telhado
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Saturday, August 25, 2012
do luto, ainda
basta a convalescência
que o mar não ensina
tampouco o tempo, a
bebida,
maltratar-se (corpo e
alma),
a meditação, o sexo:
nada
convalesce um coração
estilhaçado.
só a fome.
só a fome pode ensinar
a convalescer do irreparável.
Friday, August 24, 2012
comoção durante uma assembleia
fiquei
tomado. a senhora parece muito a falecida da senhora minha mãe, deus
a tenha, esses olhos, lá na bahia, nossa senhora, fiquei arrepiado.
o que é que eu dizia? que nossa mentora é nossa cabeça. nós vamos
com nossos pés pra onde nossa cabeça destina. eu sei o que é o
sofrimento de cada um de vocês. e eu vou estar junto com cada um de
vocês, se vocês estiverem junto comigo, junto com o movimento,
lutando também pelo seu companheiro. eu me sinto bem quando posso
fazer alguém feliz. obrigada pelo presente, matei, matei sim um
pouquinho da saudade da minha mãe, quantos anos, meu deus, obrigado.
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Thursday, August 23, 2012
uma história possível do jardim em frente ao bradesco
eu fui
atropelado. fiz aquele jardim ali, vê como está bonito, as
mudinhas, o desenho da terra todo alinhado, vê. dá gosto olhar, né
não? aqui debaixo é tudo buraco. é tudo buraco debaixo dessa
cidade, sabe, eu não bebia, cavei esses buracos todinho. mas você é
bonita, hein? me lembra minha filha quando moça, ela me deu três
netos, tudo homem, varão. nenhum deles sabe fazer jardim. sabe, pra
fazer jardim tem que ter muito silêncio dentro de você. não é
saber que planta que pega bem, é saber que planta o jardim ali quer,
fazer todos os convites, sabe, honraria? jardim precisa de honraria.
fui muito mais feliz fazendo jardim do que cavando buracos. claro que
falar que fiz essa buracaiada aí impressiona, né, eu e meus
companheiros, mas a gente nem anda nesses trem, não. eu gosto é do
jardim. ninguém olha pro jardim, só querem saber do trem mais
rápido e mais moderno, dizque tem trem que nem motorista tem. é que
não bate sol, já basta eu não ver o sol nunca nunca nunca porque
agora bato ponto de segunda a sexta, já basta acordar no escuro,
sair de casa no escuro e voltar já tá escuro de novo, quando é
folga eu faço jardim. não me meto nos buraco pra ir lá pra zona
norte, nos churrasco dos companheiro, ah não. gente também precisa
de sol. a honraria do meu jardim é eles receberem meu sol todos os
dias. e me convidarem quando é folga, é. pois fui atropelado,
menina, então, é por isso que tô pedindo pra você usar essa
tesoura e podar aquele galho ali pra mim, faz favor.
Thursday, August 16, 2012
da brandura à espreita
todo concreto quando em calçada
deveria por lei receber
(quando fresco ainda, é importante)
folhas na caducagem
o carimbo alinhavado
seria a prova dos nove
da brandura, sempre à espreita,
revelada a olhos atentos.
deveria por lei receber
(quando fresco ainda, é importante)
folhas na caducagem
o carimbo alinhavado
seria a prova dos nove
da brandura, sempre à espreita,
revelada a olhos atentos.
quando o mundo convida
amei alguém que me
deixou
não amei quem me deu o
conselho mais valioso:
confie no movimento da
vida.
é tudo aberto demais,
ou quase.
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