Thursday, April 24, 2014

desse tempo


hoje não choveu
ninguém morreu
perdeu a casa
o colchão a TV que ainda faltam
oito prestações
nenhum bebê
de mãe endividada irmã passando a infância passando
roupas num tempo que diz
que há trabalho por fazer é preciso trabalhar é preciso pagar
as prestações comprar leite e um chinelo para
a escola que não ensina quantas roupas engomadas quantas golas
cabem numa hora em que nenhum
nenhum bebê foi levado pela enchente
que não aconteceu.

Thursday, September 26, 2013

diagnóstico


é vertigem que me dá esmaga
uma das vértebras da
minha cervical estanca
proíbe segura é barreira para
meu sangue correr livre lívida
o armário dança
dançam livros coloridos dança
qualquer coisa fora do lugar é na minha cabeça, é tudo
na sua cabeça mas o sangue
o sangue não flui não jorra não ferve
o sangue não é meu
sangue sangue em meu próprio corpo
é fluido e não flui no entanto
embaça

mas é só vertigem, vertigem pouca

poema feito de chá


minha espera permite
o aprendizado da água –

ebulição é espetáculo
de tanto ensaio de ritmo

minha espera exige
o aprendizado do corpo:

estar montanha,
saber de si

minha espera ensina
permissiva

meu coração em fervura.

Monday, August 19, 2013

trabalho

mastigo esse batom amanteigado
sei que sua pele quase chora
coisas, coisas, coisas passam em sonho
              (a bolsa de tecido mais bonito
              presente ofertado por tabela sob
              força das circunstâncias)

não se maltrate eu te digo em mantra
acendo – acenda – uma vela branca
cuide do corpo e da casa

perfumar-se é oração

que sorte ter alguém no quarto ao lado.

amar de dia e, de noite, ser cavalo alado.

Sunday, April 14, 2013

I – precisão de desertos


por causa de tati fadel

preciso dos desertos e é por isso que
atraso meu relógio
trabalho na madrugada
finjo que durmo quando me beijas.

preciso dos desertos para estar no mundo.

preciso dos desertos. neles me permito,
neles me concentro,
neles flui toda rebeldia que invento.

são emudecedores
estarrecedores
assombrosos;
só assim cuido da casa,
reviso textos,
tomo coragem e saio de casa,
pego o metrô, trabalho.

o deserto é um gel no meu cabelo
um sobretudo em clima ameno
abundância de moedas empilhadas na estante

o deserto contém meus livros
e a concentração para lê-los
o deserto expulsa notas comprovantes recibos
e seus bilhetinhos de amor.

no deserto estou só,
sem reconhecimento
nem possibilidade,
sem alarme nem surpresa
nem quentura de companhia
pra suportar o peso do mundo

deserto, preciso;
assim precisa ser.

Thursday, February 21, 2013

ficou jardim


passei o dia vendo o céu da janela do meu quarto.

vibrante paleta de cores
calmas nuvens desatinos
soturno luar em senda

entendi
quando do quase sem-luz
mas era
desviei, olhei cimento e gramado e
entendi
na permanência sutil do fora

entendi o que você quis me dizer quando disse que ficou jardim.

Tuesday, February 12, 2013

por ocasião da descoberta de uma nascente


nasce-se
diante de encantados
– não pelo mistério nascente, mas pela beleza –

sem história (nasce-se
                   com o peso
                   do encontro tácito suposto

– mas nascer é brotar e só se sabe
                    do fundo da terra
                    da terra
                    celeuma magma placas tectônicas.

o brotar é em-si-mesmo
e é por isso que o rio flui.