Sunday, September 21, 2008

Pausa necessária ao fôlego da caminhada (2)

O sexo não explicitado. Sinceramente, pouco importa a parcela de intenção sexual presente em seus olhares a mim direcionados: jamais foram explicitados. Poder-se-ia dizer que é mero cavalheirismo, ou, pior, quão galanteador ou cafajeste você é. Mas não, nada disso: calado. Ainda que sensual, tenho certeza que nosso contato jamais se desenrolaria no entrelaçar de corpos embriagados ou apaixonados. Ainda que revestido de tensão sexual, interrompido por vermelhos e calor a percorrerem os corpos e o ambiente e conduzido por silêncios meus outrora impensáveis – que a olhos inábeis seriam o entendimento sutil da expressão do desejo –, ausente o toque. Ausente qualquer possibilidade de toque. O sonho de suas mãos sobre as minhas, o desejo do toque, o ímpeto de acompanhar, com meus dedos em movimentos sutis, seus desenhos, a impressão permanente de seus traços em minhas retinas: nada. Não é ausência de vontade, jamais fora ausência de desejo meu. É ausência, intransitivo, incompleto e incompletável. Ausência.

Confesso, sua história a tal ponto me encantou que desconfiei, confesso, desconfiei de sua veracidade. Envergonho-me mais pela importância por mim atribuída à desconfiança do que pela desconfiança em si. Nua e crua (o desejo de sentir seus ossos em minha pele), a desconfiança da veracidade é o papel principal de uma peça de teatro mainstream, eu diria. Ou de qualquer teatro político que se reivindique brechtiano, dizem. A vergonha daí depreendida, por mim, é mais do que o desejo da unicidade; é expressão escamoteada de busca infinita pela incoerência. O anseio do reconhecimento pela totalidade e da totalidade; e se toda totalidade engendra contradições, por que, em geral, busca-se o conhecimento de cada ladrilho da casa, em detrimento da apreensão consciente do processo de construção como um todo?

3 comments:

Sydnei Melo said...

Confesso que senti uma espécie de ruptura de uma postagem para outra. Parecia um salto. Seguindo no mesmo caminho, mas parece um salto.

Nós aceitamos as nossas contradições ou continuamos achando que soms capazes de sermos absolutamente coerentes e buscarmos isso à nossa volta?

É só pela Misericórdia que aceito minha humanidade. Sem aspas.

Bjos, mtos bjos.

Prisci said...

Oi Stella
semprelembro de você quando vejo algo sobre a Clarisse, estes dias li uns comentários quanto uma exposiçao, iateenviar por orkut... mas nao te achei lá, agora se perdeu... mas assim queeu achar envio!

nao senti a "ruptura"... nao seitambém definir o que senti, mas nao sou muitoboa com palavras, fico com as imagens mesmo, crio imagens na minha confusa mente...
abraço

Stella Polaris said...

Oi, Prisci, que legal você por aqui!
Você nunca iria me achar no orkut, porque saí do orkut já faz uns meses... rs
Gostaria de saber as imagens que vc criou na sua mente ao ler esse trecho do meu conto! :)
Obrigada pelo comentário!