Sunday, June 24, 2007

A noite desceu.
Que noite! Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes
cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio.
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave,
as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência,
um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce,
de tão necessário para colorir
tuas pálidas faces, aurora.


Drummond

4 comments:

Bruno Novaes Silva said...

Por algumas estrofes pensei que fosse seu...

Murilo said...

e é à noite q brilhamos mais...

Anonymous said...

Tambem pensei que fosse seu.

Barcamor said...

O lindo não é a noite apresentada, mas o dia maravilhoso que exite ou existiu dentro de quem escreveu isto...

E por sinal, pensei ter sido você.