Saturday, September 15, 2007

Tá lá o corpo estendido no chão...

Não era uma madrugada tediosa de domingo, nem uma tarde odiosa de segunda-feira. Era uma tarde de sábado. Bucólica, crianças brincando na rua, adultos discutindo a política internacional no almoço, a vó botando panos quentes entre a tigela do pernil e as discussões calorosas entre gerações, a neta virando os olhos enquanto o vô dissertava sobre as utopias dessa juventude; discordavam e admiravam, nem sempre veladamente, as argumentações de um e outro.

Passa o tempo. Pode ter sido numa tarde de sábado, também, nem tão bucólica como aquelas. Caíram nas mãos da menina algumas palavras que lhe tiraram o chão. Fulana, poesia, marxismo, desejo, mar e violão.

O corpo estendido no chão tornou-se natural. Ela deixou, sem arrependimento, cair uma lágrima pelo sem-nome interrompido. Sequer atrapalhava o sábado. Não vislumbrava possibilidade de acreditar – dotada de racionalidade, emotividade e senso crítico, ainda – em qualquer coisa.




E não pendurei na parede do meu quarto o pôster do Che Guevara.

5 comments:

Sydão said...

Palavrinhas importantes.

Relaxa, que de crises vivemos um monte. E por razão temos de vivê-la. E por emoção, temos a necessidade de vivê-la. E por senso crítico, o dever de propagá-las.

Da próxima vez, dou meu ombro para esta lágrima.

louisp86 said...

Tinha que ser do Che Guevara? rs Ah é, você faz ciências sociais. Brincadeira, ficou bem legal.

faustina said...

em mim causa arrepios...


gostei desses escritos...em especial tive vontade de lamber essa lágrima aí...senti cheiro de chocolate.

(ugh!)

:)

faustina said...

essa pergunta (a respeito do blefe) não se percebe do fato de que a subjetividade é construída nas regras do jogo. seria o mesmo que perguntar se a repetição cessa no truco pelo fato de não ser possível prever o "truco!".

não se joga poquer sem blefar, e em certa medida o blefe é um aspecto técnico fundamental desse jogo.

essa impresivibilidade não é senão uma ilusão das liberdades do jogador...e cessa assim que a partida acaba, e é recolocada no início de outra...como um ciclo (assim como o trabalho repetitivo da fábrica, com a diferença de que não acumula no sentido de sua "qualificação"...não se diplomam os trucadores).

a revolução não dependerá de forma alguma do azar dos capitalistas...esse é o cerne da questão.

não existe bilhete premiado para o socialismo.

Alboran said...

"A revolução interior é tão importante - e difícil- quanto a que se busca no âmbito social e político. Ela faz surgir o homem e a mulher novos, livre dos demônios opressores que nos habitam. Nesse aspecto, o marxismo parecia-me insuficiente, não chegara a elaborar uma proposta de revolução de subjetividade humana. Acentuava demasiadamente a objetividade, quase identificando o homem com a sua atividade produtiva."
-Frei BettO

"Do materialismo ao espirtualismo é só uma questão de esperar esgotar-se os limites do primeiro..."
"... e vice-versa."