Saturday, March 05, 2011

um retrato a uma estrangeira

eu moro num país onde as pessoas morrem
de fome
de tiro à queima-roupa
de amores e ciúme
de acidente de trânsito

nunca ninguém morreu de fome nos meus braços.

soube de quem morreu depois de jogar futebol;
antes de nascer;
vi quem morreu de desistência do corpo
e de surpresa, também
vi quem morreu despencando
e vi corpos bonitos de mortos serenos

eu vi quem nasceu cabeluda do ventre da viúva
e quem renasceu encovada de força antes dos trinta

eu li cantos sobre cabelos de suicidas no rio,
esculachos quaisquer de poetas sobre o verdejar desses fios
mas antes disso

eu fui à missa de sétimo dia de uma suicida
que me sorria sempre quando confidenciávamos amores errados
e ainda antes disso

eu perdi a voz em batalhas esganiçadas

e me amarraram por qualquer descrença e me deturparam
a voz e a força e o delinear
e então sem me dar conta

eu passei a freqüentar igrejas e velórios
a sorrir mais, conversar com anjos
e ler notícias no jornal sobre gente na rua
com fome
com sangue e com morte
insistências fronteiriças
nos nossos países.

1 comment:

Rodrigo said...

Muito forte e bonito e direto e mais além de tudo isso.
Bjo Stella!
Lobão