Sunday, April 19, 2009

[um início]

A bailarina era ou não era tão leve quanto parecia, pensou, enquanto a recuperava do chão. Sem mais corda na caixinha de música, não durante os girares remanescentes. A gritaria cessara, alguma canseira contornava os batentes das portas. Um pouco de terra no chão, nenhum caco de vidro, riscos de caneta em tecidos mais ou menos nobres. Alguma réstia de sol, e um canto qualquer de passarinho anunciou bom dia. Deixou-se desmontar na cadeira de couro tão envelhecido, alguns espasmos imperceptíveis a olho nu vagando pelo corpo. Qualquer desatenção na mente seria bem-vinda, eleitas foram as asas de cupim esparramadas no parapeito da janela; só aumentaram a aflição, e aos espasmos somaram-se arrepios na base da coluna, o grotesco pelo inseto que corrói. Bateria com os nós dos dedos no parapeito da janela para constatar o pó da madeira destruída. Uma brisa desmontaria a estrutura de uma casa nessa situação, pensou de relance; inspirou forte na ânsia de um vendaval.



Bailarina, de Miró.


3 comments:

ovilha said...

dizem que, na internet, um comentário vale mil leituras. depois das minhas apenas sete leituras, achei por bem deixar aqui a imagem do meu olhar de admiração e a notícia da minha ânsia pela seqüência.

Daniela said...

nao gosto mais de bailarinas.

Sydnei Melo said...

E expirou mais intensamente quando viu que aquela ventania não se apontava no céu. Só aquela brisa. Aquela doce brisa. Aquela açucarada brisa.