Friday, April 16, 2010

apenas

era pra ser só mais um copo de cerveja, o colarinho impecável e a espuma se erigindo e equilibrando elegantemente por sobre toda a borda do copo americano. uma marcha transpassada, tocada pelo pianista do andar de cima; um telegrama do marido preso pelos militares; o alívio de passar na prova de epidemiologia mereciam muitos copos de cerveja. mas a ânsia brotou, talvez de um corpo moreno despertando-lhe asco enquanto a tentava seduzir naquele ambiente claustrofobicamente ensurdecedor, talvez aqueles músculos enrijecidos atentaram contra qualquer conforto interno, e também ela toda passou a se contorcer.
não havia nada de escatológico nos seus movimentos, só o impelir-se adiante. vomitou, correu, despelou-se à navalha, tosou o cabelo. precisava desvencilhar-se do mundo, esvaziar-se de si e da sua história.
amanheceu.
havia toda a área externa daquela pensão barata para limpar. ela não podia se dar ao luxo de se deprimir e perder as forças, não. jogou um balde d'água para esparramar da maneira mais uniforme possível, ainda que aleatória, a espuma concentrada no chão. esfregava sem se lembrar do colarinho impecável do copo de cerveja. é assim que as coisas se dissipam, ou nem se permite que se condensem.

inspirado numa cena de 'assédio', filme lindo, lindo, lindo, de bernardo bertolucci.

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